“Esqueceram de mim”: um conto moral

Por Álvaro André Zeini Cruz

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Esqueceram de mim (Home Alone, EUA, 1990/1992) é um típico conto moral natalino. Poderia ter sido escrito por Dickens, não fosse o humor marcante de John Hughes. Nos dois títulos estrelados por Macauley Culkin e dirigidos por Chris Columbus, um desentendimento familiar faz com que o garoto Kevin tenha um daqueles momentos em que dez em cada dez crianças desejam que suas famílias sumam da face da Terra. O castigo é providencial e, claro, vem à cavalo.

A trama é conhecida (a não ser para alguém que tenha passado longe da Globo nos meses de dezembro dos últimos vinte anos): no primeiro filme (1990), Kevin é deixado em casa durante o Natal; no segundo (1992), vai para Nova Iorque enquanto o resto de sua família segue para a Flórida também na época das festas. A estrutura segue os mesmos trâmites: desejo, castigo, arrependimento, aprendizado, reencontro. Trajetória de crescimento que será acompanhada por mentores-caídos peculiares – moradores de rua que, rechaçados por suas famílias, lembram a Kevin justamente aquilo a que ele desejara abrir mão.

A jornada, no entanto, não tem como único objetivo fazer com que Kevin aprenda a valorizar a família, mas também permitir que ele cresça por conta própria, aprenda a cuidar de si. É esse processo de autodescoberta que ocupa a maior parte dos filmes, principalmente a partir do momento que o mundo apresenta seus perigos, representados pelos bandidos – meio paspalhos, mas ainda bandidos – Harry (Joe Pesci) e Marv (Daniel Stern). Mas crescer demanda responsabilidades: no primeiro filme, além de se proteger, Kevin tem ainda que cuidar do reduto-símbolo da família, seu “milagre perdido” – o lar. As armadilhas espalhadas pela casa abrem espaço ao humor físico e rendem ao menos um momento antológico – aquele em que Kevin faz ferver uma maçaneta que tem um “M” gravado, e que, por sua vez, ficará cravado na mão de Harry quando este tentar forçá-la. A imagem, o plano composto por Columbus, nos leva imediatamente à outra trama, importante na história do cinema, em que um malfeitor persegue a infância: “M – O Vampiro de Dusseldorf”, de Fritz Lang. A encenação, portanto, é essencial, mas antes dela vem a sacada, típica metalinguagem de Hughes.

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No segundo filme, o lar é tema superado; a questão se potencializa em torno de uma certa aura natalina e da associação da instituição familiar à data: Kevin acha nada apropriado passar as festas na Flórida, diz que lá nem árvore de Natal há! Seu desencontro, portanto, servirá para corrigir esse equívoco e reaprumar o rumo familiar a um local que considera mais adequado, Nova Iorque, que Columbus filma de duas formas: ou como cidade mágica no qual está incrustado (ou se fez incrustar) esse imaginário natalino, ou como cidade medonha, que surge para lembrar Kevin de seus pecados e fazê-lo desejar a volta ao seio da família. Algo que se dá como um verdadeiro milagre ao final do filme, quando a mãe, ao lembrar do inconformismo de Kevin com a pressuposta ausência da árvore, se dá conta de que ele só poderia estar num único lugar: e é aos pés da árvore de Natal mais famosa da cidade, no 30 Rockfeller Plaza. É lá que mãe e filho se reencontram, mas não antes que Kevin verbalize esse desejo com suficiente verdade para que ele seja atendido como um milagre de Natal.

Em se tratando da criação de um certo imaginário natalino baseado na cultura norte-americana, Esqueceram de mim certamente foi responsável por algumas imagens que impactaram sobretudo a geração cuja infância atravessara os anos 1990. A mágica, no entanto, não está no Natal como comemoração religiosa, nem no charme de uma Nova Iorque decorada, nem mesmo no artesanato bem feito de Columbus; está, mais uma vez, no toque de Hughes, esse incansável perseguidor dos verdadeiros momentos de afeto. É a partir deles que se constrói este genuíno e encantador conto de Natal.

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