Do outro lado da rua, não tem ninguém

Por Phillippe de C. T. Watanabe

O Outro lado da Rua

Grandes cidades generalizam. O espaço para a individualização costuma inexistir. Uma lata de sardinhas, uma caixa de fósforo. Seja qual for a metáfora, o homem perde o caráter humano, torna-se coisa morta, coisa. O Outro Lado da Rua (Marcos Bernstein, 2004) aposta na visão perspicaz de uma idosa sobre o outro; mostra como, rapidamente, as sardinhas podem feder e a caixa de fósforo se incendiar quando o próximo não precisa mais ser visto por binóculos.

As primeiras tomadas de O Outro Lado da Rua buscam nos fazer perder, não prezam pela localização do espectador em relação à história. Uma extensa sequência de janelas é mostrada, e a semelhança quase total entre elas busca exatamente o distanciamento muitas vezes experimentado em grandes cidades – mais tarde, o Rio de Janeiro será apresentado como localidade do filme. Logo de início, de forma clara, já é posta uma forte comparação com Janela Indiscreta, de Alfred Hitchcock – a visualização do prédio que será observado durante toda a narrativa, o modo como vemos, num primeiro momento, a protagonista dormindo. A aproximação seguinte entre ambos diz respeito ao que os mantém em frente à janela, e isso pode ser representativo do modo como enxergamos a passagem do tempo. O protagonista de Hitchcock fica limitado por conta de uma perna quebrada, enquanto Regina (Fernanda Montenegro), personagem de O Outro Lado da Rua, acaba limitada pela idade.

Não há dúvidas sobre a marginalização, pelo menos ocidental, da velhice. A figura do idoso é associada à dependência e a problemas, transformando o inevitável envelhecer em sintoma de doença. Nesse ponto parece residir uma das lutas do filme em questão. Há uma busca constante por parte da protagonista pela subversão do papel que a sociedade lhe impõe. Se dizem que idosos devem sentar em praças para jogar dominó, ela senta em uma praça, em meio a diversos outros idosos, e discute exatamente sobre como ela é vista pela sociedade. “Acho que eu ainda me vejo de um jeito que ninguém mais me vê. Eu me vejo como eu sempre fui.” Regina continua a quebrar essa lógica com a parceria que ela, e outros idosos, tem com a polícia, na qual, basicamente, investiga e denuncia possíveis crimes. É justamente por conta desse serviço que ela mantém um olhar afiado ao que a cerca, conseguindo evitar, por exemplo, que outra idosa seja assaltada ao sair do banco ou ajudando na prisão de um explorador de menores. Em suas observações – e em meio ao tédio e à solidão, não derivados da velhice, mas, sim, da própria vida – presencia por sua janela um possível assassinato – mais uma aproximação com Janela Indiscreta.

Entra na narrativa Camargo (Raul Cortez), objeto do voyeurismo de Regina e possível assassino endinheirado. Ex-ministro, intocável. É no relacionamento com essa personagem que mais um ponto pouco falado da velhice se revela – o romance. O contato inicial entre Regina e Camargo é difícil e nada amistoso. Ele é um total estranho, é o homem do outro lado da rua que matou uma mulher, ele é o outro. Esse é o único modo de enxergar o mundo que Regina conhece. O outro é perigo. O menino vendendo balas se transforma no garoto que ameaça com um caco de vidro. O outro é quem não escuta. Regina está “sozinha, sozinha, sem ninguém”. Ela busca alguém, pega o telefone, liga e desabafa. Vemos a secretária eletrônica que recebe a ligação e um doloroso travelling revela, ao fundo, sua única companheira de todos os dias, a cadela Betina.

O Outro Lado da Rua traz às telas uma das temáticas esquecidas no cinema, em geral, e na sociedade. O idoso como protagonista de si mesmo não é algo visto normalmente, o que tem uma profunda relação com a falta de vontade de realmente ver os idosos. O filme aborda o assunto conforme comenta fatores como o isolamento e a solidão, relevantes a todo ser humano, independente da faixa etária. Alcança-se, assim, uma narrativa sensível, que mostra como a vida, em muitos momentos, pode parecer longa, estranha ou cruel demais. E, do outro lado da rua, por uma janela, de uma sacada, através de portas, sem saber o que está vendo, também há alguém nos olhando.

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