Depois das aulas

Por Marcella Grecco

afterschool

Afterschool (Afterschool, EUA, 2008), de Antonio Campos, começa com uma série de vídeos amadores: um bebê brincando com o pai, jovens brigando no corredor de uma escola, um garoto levando um tombo de bicicleta, Saddam Hussein sendo enforcado, um gato tocando piano, imagens de mortos em um território de guerra e uma garota fazendo sexo com um homem agressivo. Os vídeos têm enquadramentos estranhos, áudio estourado e pouca iluminação. São estas características que nos permitem distinguir quando assistimos ao filme de Antonio Campos e quando assistimos a alguma gravação de terceiros.

Robert (Ezra Miller) estuda em um colégio interno de classe alta nos Estados Unidos. Depois das aulas, ele costuma assistir a estes e a outros vídeos em um canal da internet, enquanto deixa a webcam ligada e voltada para o seu rosto. No escuro de seu quarto, a tela brilhante do computador lhe dá acesso a imagens que não fazem parte do seu cotidiano. Robert gosta de vídeos violentos que transmitam veracidade, assim como de pornografia.

Tímido e pacato, Robert não tem muitos amigos. Ele divide o quarto com um garoto popular que vende cocaína para os outros estudantes, mas com quem não tem muita amizade. Apesar do filme se passar inteiramente nas dependências do colégio, pouco vemos os estudantes na sala de aula. Em grande parte das cenas, eles estão no psicólogo, nas reuniões na Igreja, nos dormitórios ou na enfermaria, onde cada um recebe seu devido medicamento.

Obrigado a cursar alguma atividade extra-curricular, Robert decide entrar para o clube de audiovisual, ficando encarregado de fazer tomadas das locações que seriam utilizadas para um projeto. Durante a primeira ida a uma das locações, ele filma a companheira de turma enquanto faz uma série de perguntas a ela. A imagem que vemos é de sua câmera e não a de Antonio Campos. Após posicionar o aparelho em cima de um antigo piano, podemos ver Robert e a garota se beijando. Em seguida, ele pega a câmera e finge agir igual a um vídeo que assistira no começo do filme, colocando a menina contra a parede enquanto a segura pelo pescoço.

Robert se sente deslocado. Em determinado momento, ele liga para a mãe e diz que ninguém gosta dele. Suplicando pela sua atenção, ele confessa acreditar não ser uma boa pessoa; como resposta, sua mãe pede para ele voltar a ver o psicólogo. A câmera de Antonio Campos é quem lhe dá atenção. Os enquadramentos são longos e fechados, sendo que o primeiríssimo plano no rosto e nas mãos de Robert domina grande parte da narrativa. Apesar desta proximidade, a câmera parece escondida, como se quisesse registrar o mais naturalmente possível os acontecimentos. Diversas vezes, ela filma no nível da cintura para baixo e ficamos sem ver o rosto dos personagens.

Durante o registro das escadarias do colégio para o projeto do clube de audiovisual, Robert grava por acidente as populares irmãs Talbert saindo do banheiro e morrendo por overdose de cocaína. No vídeo de Robert podemos vê-lo indo em direção às meninas, sentando no chão e colocando a cabeça de uma delas em seu colo. Atônito e de costas para a sua câmera, Robert presencia, então, a morte.

Este fato faz com que a escola tome providências com relação ao uso de drogas em suas dependências, o que torna a instituição ainda mais rígida do que outrora. Além disto, todos voltam a atenção à Robert, afinal, ele passara por um trauma considerável. Apesar da desconfiança inicial de um possível envolvimento de Robert com a morte das garotas, até porque ele presenciou o ocorrido sem prestar socorro, a escola logo descarta esta hipótese. Nós, entretanto, somos levados a duvidar de sua inocência junto à câmera de Antonio Campos, que estuda discretamente o comportamento do garoto, como se houvesse algo errado.

As investidas da câmera em panorâmicas nos permitem conhecer o entorno de Robert. Da mesma forma, os closes em suas mãos denunciam o nervosismo e a ansiedade quando se toca no assunto das garotas, apesar da aparente calma inabalável que constitui o seu semblante. As irmãs Talbert eram de uma importante e rica família, e, com o intuito de demonstrar solidariedade aos pais e de não perder alunos – e dinheiro frente ao ocorrido, o diretor da escola encomenda um vídeo memorial das meninas ao clube de audiovisual.

Responsável pelas filmagens e edição, Robert monta uma prévia do vídeo que não agrada nem um pouco o diretor. Dos depoimentos dos “amigos”, Robert deixa apenas as partes em que o desconforto de falar sobre alguém com quem não se importa e de quem não se era amigo se manifesta. Do depoimento dos pais, provavelmente separados e ausentes da criação das meninas, Robert mantém na edição apenas o enquadramento que mostra a mãe olhando através da janela e o pai para o outro lado, em direção à parede. Do depoimento do diretor da escola, que ensaia diversas vezes diante da câmera a cara de tristeza que iria fazer durante a gravação, Robert mantém apenas as caretas, deixando transparecer a hipocrisia e o falso sentimentalismo que fazem parte do cotidiano no colégio. Para finalizar o vídeo memorial, Robert coloca a imagem que fizera do corredor, instantes antes das meninas surgirem em cena morrendo.

Depois da prévia, o vídeo é reeditado por outra pessoa e Robert é afastado por um tempo do colégio. Astuto, já no vídeo memorial, Robert dá pistas do que realmente acontecera no momento da morte por overdose. Da mesma forma que as imagens puderam por ele ser editadas e compor determinada narrativa, estas foram reeditadas por outra pessoa e ganharam um novo sentido no vídeo memorial final. Robert nos ludibria o filme todo, já que acreditamos na veracidade da imagem que fizera. Todavia, nas últimas cenas a câmera de Antonio Campos nos conta, por um outro ângulo, o que realmente acontecera: Robert sufoca discretamente uma das garotas ao invés de ajudá-la.

Com o uso da câmera do clube de audiovisual, Robert vê a possibilidade de se tornar protagonista nos vídeos aos quais ele e os amigos assistem. Ele gosta de vídeos violentos que parecem reais e mostra com orgulho aos colegas o vídeo que fizera das meninas morrendo, sem dizer, no entanto, que provocara a morte de uma delas. Já no final do filme, Robert está em uma mesa estudando quando, após relembrar o momento em que sufoca a garota, ele olha para trás, diretamente para a câmera e franze as sobrancelhas. Satisfeito com o desenrolar dos acontecimentos e com um olhar desafiante, ele sugere que deixemos de o seguir. A câmera de Antonio Campos é desligada e a continuação do registro se dá com uma câmera de celular até o momento dos créditos finais.

O que ocorre depois das aulas é o foco de Antonio Campos e não por acaso este é o título do filme. Os significados apreendidos do montante de imagens às quais temos acesso no dia a dia contribuem muito mais para a nossa constituição como pessoa do que os ensinamentos na sala de aula. Entretanto, atualmente há uma grande facilidade de se produzir e reproduzir vídeos, o que nos leva à já bastante debatida questão: o que os jovens e crianças andam vendo e apreendendo?

Todos os personagens no filme têm um telefone celular com câmera, o qual eles sacam dos bolsos com bastante rapidez para gravar aquilo que lhes chama atenção. E mais, estes personagens conversam por meio das imagens, mostrando vídeos ao invés de compor uma narrativa falada. Protagonizar os vídeos é, para Robert, uma excelente forma de deter o controle da narrativa e, consequentemente, do seu entorno. Ainda, levando em conta a astúcia do garoto, por que não dizer o mesmo das pessoas que estão tendo o caráter conformado por meio deste artifício?

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