Bem-vindos à terra da liberdade

Por Marcella Grecco

a jaula deouro

(contém spoilers)

Estréia de Diego Quemada-Díez na direção, A Jaula de Ouro (La Jaula de Oro, Guatemala/Espanha/México, 2013) acompanha a jornada dos jovens Juan, Chauk e Sara que saem da Guatemala em direção aos Estados Unidos, tendo que para isto cruzar o México e a fronteira entre os países.

Para a elaboração do roteiro, Quemada-Díez viveu durante alguns anos em uma casa à beira de uma linha ferroviária que conecta o sul ao norte do México. Ele colheu uma série de depoimentos e manteve contato com membros do narcotráfico, de forma a elaborar diálogos e desdobramentos o mais próximos do real possível. A contextualização adequada era importante também como forma de auxílio aos atores, todos não profissionais.

Brandon López (Juan), Rodolfo Domínguez (Chauk) e Karen Martínez (Sara) foram escolhidos entre mais de 6.000 jovens que se propuseram a tanto. Fátima Toledo, conhecida por transformar iniciantes em atores profissionais, atuou na preparação do elenco. Uma das técnicas de Fátima Toledo é fazer com que os atores vivenciem as situações e encontrem pontos em comum com os papéis que lhes foram dados. Outra técnica é não dar aos atores acesso ao roteiro completo, o que faz com que no momento da filmagem as reações surjam mais naturalmente.

Toda a história foi filmada em ordem cronológica, dando à equipe uma visão mais geral e concreta do que estava acontecendo na trama. Quemada-Díez conta que aprendeu este método com Ken Loach, na ocasião em que trabalhou como operador de câmera para ele. Aliás, Quemada-Díez já trabalhou como operador de câmera para outros diretores como Fernando Meirelles em O Jardineiro Fiel (2005) e Alejandro González Iñárritu em 21 Gramas (2003), por exemplo.

Em A Jaula de Ouro, a câmera filma com urgência e transmite tensão e desorientação. Mantida na mão, aparentemente não se faz uso de tripé no filme, visto que são raros os momentos em que não há mudanças no entorno, ela dá um tom quase documental à narrativa. A sensação é que a câmera diversas vezes é pega de surpresa, assim como os protagonistas, diante da polícia ou de membros do narcotráfico.

Na realidade, agi pela força do hábito ao dizer protagonistas, já que o filme trabalha de forma interessante esta hierarquia de papéis. No início achamos que a história será sobre Sara, que logo vira Osvaldo, pois, como a travessia é mais perigosa para mulheres, ela corta os cabelos e esconde os seios, de forma a parecer um menino. Então conhecemos Juan, que se prepara também para deixar a Guatemala. Em seguida, Samuel surge na trama e os três pegam um ônibus em direção ao trilho do trem que leva ao México. No decorrer dos acontecimentos, Samuel deixa o grupo e Chauk, um índio que não fala uma palavra em espanhol, se junta a Sara (Osvaldo) e a Juan. O percurso em direção à fronteira com os Estados Unidos é cheio de entraves e uma série de atrocidades acontece, levando a uma alternância na liderança do grupo, até não haver mais a quem liderar nem em quem se apoiar.

Os personagens estão em constante movimento e por onde passam a hostilidade predomina. O local nunca é acolhedor, seja em casa, numa zona pobre da Guatemala, na floresta ou num trem. No percurso nada de encorajador; nos muros, fotos dos desaparecidos. A hostilidade não vem somente do ambiente, mas também dos outros que fazem o percurso, dos policiais, dos membros no narcotráfico, dos moradores vizinhos aos trilhos do trem, da imigração e dos coiotes (responsáveis por “ajudar” na travessia da fronteira).

Na fotografia, predomina o trilho dos trens, que aponta para o norte e acaba no infinito, simbolizando a esperança de que mais adiante tudo será melhor. Seguir em frente; continuar em movimento. Muitas pontes são cruzadas no caminho, sendo também um símbolo recorrente nos enquadramentos. Os personagens são caracterizados como vitoriosos, independentemente se conseguirão ou não concluir a jornada.

É inevitável assistir ao filme e não lembrar da corrida do ouro nos EUA, em meados do século XIX, quando houve um grande deslocamento de famílias do leste em direção ao oeste, à procura de ouro e de melhores condições de vida. Em filmes hollywoodianos os valentes cawboys são tratados como heróis, desbravando o desconhecido, cruzando fronteiras e tomando terras antes pertencentes ao México. No caso de A Jaula de Ouro, Quemada-Díez dá o mesmo tom aos protagonistas. Eles são valentes e desbravam fronteiras, inclusive, Juan usa botas de cawboy e em determinado momento até se veste igual a um deles, como brincadeira para tirar uma foto.

O espectador sabe, no entanto, que não basta coragem na travessia e que os EUA oferece sonhos a poucos. Em determinado momento, os garotos estão sobre um trem quando este entra em um túnel. Tudo fica escuro e a câmera focaliza a luz, lá no final; na saída. Com sucesso eles a alcançam, entretanto, em seguida, logo o trem entra no próximo túnel e então, mais uma vez no escuro, a câmera focaliza agora a luz na entrada, que aos poucos vai ficando para trás e diminuindo até restar somente o breu. Não há luz no fim do túnel, conclui-se afinal, independente dos vislumbres de esperança.

Além da questão da travessia em si, o filme também põe em foco a política de repressão americana aos imigrantes e as condições precárias de trabalho dos que lá conseguem chegar. “De que adianta o dinheiro se eu sou como um prisioneiro nesta grande nação?”, diz o refrão de uma antiga canção que dá título ao filme. E é justamente com esta tônica que a narrativa termina, ao mostrar Juan, não mais calçando botas de cawboy, limpando o chão de uma indústria de carnes, cheio de restos e de sangue. Sozinho, trabalhando ilegalmente e sem falar uma palavra em inglês, Juan experiencia a vivência em uma jaula de ouro.

jaula_oro-movil

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