Alma sem corpo

Por Gabriel Carneiro

vera 2

(contém spoilers)

Vera (1986) talvez seja o filme síntese paulista da questão homossexual dos anos 1980, ainda hoje bastante atual, mesmo que Sérgio Toledo, seu diretor, não estivesse interessado, em especial, nesse aspecto, e sim em trabalhar a crise de identidade. Nos filmes dessa geração, o retrato do gay poderia nem ser o foco do trabalho, mas permeava constantemente a obra – vide Romance (1988), de Sérgio Bianchi, A Dama do Cine Shanghai (1988), de Guilherme de Almeida Prado, ou mesmo Asa Branca – Um Sonho Brasileiro (1981), de Djalma Limongi Batista. Em outros, como Onda Nova (1983), de Ícaro Martins e José Antônio Garcia, e Anjos da Noite (1987), de Wilson Barros, o retrato do homossexual é mais premente, seja no registro naturalista, sem pudor e moralismos, da afetividade entre pessoas do mesmo sexo, seja no discurso urgente e revoltado pelo tratamento da sociedade.

A Vera, não interessa tanto nenhum dos dois caminhos, ainda que o filme os tangencie. O que está em xeque, no filme, é a crise psicológica de uma jovem que se sente homem, mas está aprisionada no corpo de uma mulher. Antiga interna de um orfanato para moças, Vera Bauer (Ana Beatriz Nogueira, premiada em Berlim) sai sob a tutela de um professor, que se interessa por sua história. Ela passa a trabalhar com ele num centro cultural, onde seus sentimentos afloram. Tudo para ela é muito masculino, ainda que sua figura fuja dos estereótipos da mulher-macho – que o filme chega a explorar também em outras personagens, inclusive numa fala emblemática que identifica apenas duas pessoas no orfanato como autênticas mulheres masculinizadas. Vera, porém, passa por um processo de amadurecimento, de tentar se aceitar e de se mostrar como realmente se sente. Por isso, Vera refuta seu nome e só aceita ser chamada pelo sobrenome Bauer, um signo sem gênero pré-determinado; passa a se vestir de terno e gravata; corteja uma colega de trabalho, quem, posteriormente, conquista; aposta no romantismo da poesia e também na truculência do machismo em seu relacionamento amoroso, entre outros.

A crise de identidade – a não identificação com seu corpo – vai, claro, para além de seu processo psicológico interno e perpassa muito a opressão social, em que o mundo, de maneira genérica, vê em seu comportamento um ato imoral. Seja o diretor do orfanato que quer obrigar as moças a serem mais femininas e, para tal, a usarem vestidos, seja os colegas de trabalho que olham estupefatos para o terno que Bauer veste.

O que está em jogo, porém, mesmo é o processo interno de Vera. Há aí duas cenas bem fortes no registro da crise, da falência no processo de entendimento por parte dessa garota: em uma, quando não consegue se desnudar na frente da namorada, enfim tirando a blusa que cobre os seios, o que a faz sentir-se completamente violada – pois fica gráfica sua realidade até o momento incontornável -; e, depois, quando sente o sangue quente da menstruação correndo em suas mãos. Toledo consegue, em ambas as cenas, algo raro, em especial em filmes com temática tão delicada e que pode ser tão polêmica e engajada/esvaziada. São cenas que apontam para um entendimento da alma, que externam a complexidade e a dificuldade de ver escancarado algo que seja tão contrário à sua essência. Não à toa, o sonho de Vera é fazer uma operação de sexo. Não é homossexualidade apenas, é transsexualidade.

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Realizado em uma época em que trabalhar o artificialismo imagético não era tão mal visto, Vera se beneficia de uma fotografia soturna e lúgubre, calcada em tons de azul, e bastante recortada, comandada por Rodolfo Sánchez, que exteriorizam a própria crise da protagonista. O mesmo pode se dizer da trilha de Arrigo Barnabé. Sérgio Toledo compõe sua história como uma tragédia, mas sem cair no dramalhão. Interessa-lhe mais a atmosfera de deslocamento de Vera e compor a personagem nesse mundo conforme a visão dela.

Toledo estava certo em dizer que era um filme, acima de tudo, sobre uma crise de identidade. Mas há também muito mais ali.

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