Mascaro mascarado

Por Álvaro André Zeini Cruz

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Inácio Araújo, crítico da Folha de S. Paulo, intitulou “Ventos estetizantes” seu post sobre Ventos de Agosto (idem, Brasil, 2014), de Gabriel Mascaro. Não há nenhuma novidade em ressaltar essa estetização beirando o excesso que atravessa quase toda a filmografia de Mascaro (o “quase” aqui é porque há uma exceção). Araújo, entretanto, deixa uma provocação interessante acerca de Um lugar ao sol, segundo filme documentário do cineasta: “Primeiro vi aquele filme das pessoas que moram nas coberturas de Recife e achei tremendamente autoritário. Era uma espécie de pegadinha para mostrar aquelas pessoas da maneira mais incômoda possível, já para não dizer ridículas”.

Essa ridicularização das personagens está lá de fato e não há como eximir Mascaro dela: da escolha dos entrevistados à edição, evidencia-se o tipo de discursos que o filme procura para a construção de sua tese social. A questão é que, se há uma armadilha, como aponta Araújo, ela é meio capenga, mal camuflada, já que não há filtros ou intermediários – a não ser a câmera, – nesse corpo a corpo dado entre realizador e entrevistado. É uma relação cara a cara, algo que não ocorre em Doméstica.

Em seu mais recente documentário, Mascaro dá a câmera a adolescentes para que eles captem fragmentos dos cotidianos de suas domésticas. A armadilha que antes, se existia, era trôpega, agora é elaborada: ao colocar a câmera nas mãos de seus personagens, Mascaro abre um espaço pré-calculado para que esses garotos e garotas desmascarem sem querer a hipocrisia reinante nas relações entre os patrões e domésticas. O discurso recorrente das patroas, que dizem (e se gabam por isso) ver as empregadas como se fossem da família, é desmontado por elas próprias diante da lente sustentada por seus filhos – uma expõe o passado do doméstico mesmo sabendo da insatisfação deste em revelá-lo ou revisitá-lo; outra narra ter levado a empregada até o hospital, mas não permanecido para acompanhá-la durante o parto (ou seja, são “como se fossem”, mas, definitivamente, não são). A problemática, portanto, não está no discurso em si, mas na maneira como se chega até ele: Mascaro não deixa de ser o detentor do olhar, o sujeito-da-câmera, pois é o mastermind por trás daquela construção, aquele que enuncia, mas que, no entanto, se mascara por trás desses garotos-fantoches. O problema, é bom reiterar, não está na revelação dessa hipocrisia regente (que aparece melhor sempre que parte das próprias domésticas, como no contundente depoimento de Gracinha), mas na falta de uma relação menos turva, sem esses intermediadores “inocentes” que caíram como patinhos na armadilha e desperdiçaram (sem perceber) um direito básico: o de não produzir provas contra si mesmos.

Essa nuvem de fumaça em torno do realizador – que cercava também o conteúdo e, consequentemente, afetava a forma em Doméstica, – contudo, não se ateve ao documental; pelo contrário, se reelaborou e atingiu em cheio o primeiro trabalho ficcional de Gabriel Mascaro. Ventos de agosto é composto por quadros pictóricos (“um pintor!”, vi alguém saudar Mascaro dia desses numa rede social) minuciosamente compostos e de beleza inquestionável (vide o contra-plongée que destaca a magnitude das palmeiras contra o corpo diminuto que trepa pelo caule a partir do canto do quadro). A impressão dada, no entanto, é de que as belezas daquela vila de pescadores foram retalhadas, justapostas e alinhavadas com tanta firmeza que se recompôs num mosaico impenetrável e superficial. Os recortes de Mascaro tem talhos profundos que atingem pele, músculos, veias e artérias, mas é só a primeira camada que recebe costura – as partes internas continuam, portanto, em plena hemorragia, e, consequentemente, a obra não pulsa, pelo contrário, parece mergulhar paulatinamente num estado de inanição. Frankenstein às avessas, Ventos de agosto falha até mesmo em propor seus mistérios, pois os mistérios estão geralmente metidos a fundo na carne, aqui resguardada por uma superfície impermeável, uma máscara de corpo inteiro.

Por fim, se o título deste artigo aparenta visar a polêmica rasa, é prudente ressaltar que o adjetivo “mascarado” é aqui posto não de forma vil ou depreciativa, mas como uma barreira física, um impedimento que esconde a face de um realizador cujo cinema, ainda que longe de questionamentos, fora outrora mais potente (ou mais sincero, ou mais corajoso). Em Doméstica, o mascaramento do cineasta afeta o próprio filme; em Ventos de agosto, o próprio filme é mascarado. Os “ventos estetizantes” estão mais para “ventos esterilizantes”.

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