Bravura indômita

Por Juliana Maués

truegrit-2010

(texto escrito em 2011)

Escrever sobre um filme logo depois de assisti-lo é uma experiência de frustração. Há quem diga que esse é o melhor momento, pois tudo está ainda bem claro na nossa memória. Tendo revisto Bravura Indômita (True grit, EUA, 2010) há apenas alguns minutos, tenho bem claro que minhas palavras nunca bastarão para a experiência proporcionada por essas quase duas horas de sons e imagens. Contudo, é este mesmo aspecto, frustrante a nível pessoal, que dignifica ainda mais uma obra artística: saber que ela é tão afeita à sua mídia que não há como reproduzi-la sob outra forma.

Ironicamente, falamos aqui de um filme cuja proposta é ser uma reprodução: a história contada é baseada em um romance, o mesmo que deu origem, em 1969, ao aclamado filme com John Wayne. Nesta nova forma de narrar a mesma história, ambas as narrativas anteriores estão representadas. Mas, se for pra ficar em referências, não devemos citar apenas as mais óbvias. É nossa obrigação falar do western e toda a sua iconologia, da sua tradição clássica, do seu renascimento italiano. É importante falar dos buddy movies, dos filmes de aventura, do melodrama. É importante falar da continuidade clássica enquanto modelo estilístico e da intensificação do seu ritmo a partir dos anos 1960. É necessário, enfim, falar de toda a técnica de narrar por sons e imagens acumulada em uma história de mais de cem anos. Não temos como falar de tudo. Vamos, então, improvisar o que mais desperta a atenção neste momento.

Bravura Indômita é permeado pela escuridão. É dela que o filme surge, do fundo do ecrã negro da onde se projeta a primeira imagem a que temos acesso nesse universo: um borrão amarelado que é pura pictorialidade até o momento em que se deixa apreender narrativamente, com o fim do fade in e o ajuste de foco. É também ela quem pontua várias das passagens de cena, construindo uma relação temporal esburacada, própria da narrativa em flashback. O que assistimos são pequenos trechos, lampejos, de memória, costurados por aquele que nos narra. Ou melhor, por aquela. Estamos diante da perspectiva de Mattie Ross, que talvez seja a quem a expressão do título verdadeiramente se refere.

Essa temporalidade da memória, elaborada para contar a história de um espaço, o Oeste americano, em que se abrigam tantos tempos, não é um mero engodo formal, algo que se propõe quando conveniente, mas que logo se abandona. Pelo contrário, vários dos aspectos estilísticos do filme apontam na direção de uma história construída na síntese entre uma lembrança de passado, um imaginário aventuresco e pequenos e dolorosos esquecimentos.

* * *

A iluminação predominantemente em low key, a escuridão ou esmaecimento dos espaços, que não vibram com a vitalidade de um technicolor, tingem não apenas o universo pictórico dos irmãos Coen, mas são o próprio mundo interior de Mattie. É também pela visão subjetiva dela que os outros dois protagonistas nos são apresentados: Cogburn, destacado contra uma luz de fundo que o indefine, pressagiando desde já a sua relação oscilante com a iluminação enquanto indício de uma ambiguidade moral; La Boeuf, em uma aparição orgulhosa – foco nas esporas texanas das botas –, cujo corpo evoca uma composição que já fora de Henry Fonda e James Stewart.

A personalidade de Mattie, com sua severidade e rigidez bíblicas, está ainda nos planos retilíneos, a maioria deles fixos, na montagem clássica. Enquadramentos recorrentemente frontais, com elementos bem distribuídos pelo quadro, dão o equilíbrio às composições. Todavia, a iluminação, como já foi dito, aponta para certa melancolia, algo como uma angústia guardada. Parte desse sentimento vem à tona na bela sequência da cavalgada noturna no Little Black, em que Cogburn corre para salvar a vida de Mattie. Aqui, a imagem ganha maior movimento, tomada por travellings laterais e pelas fusões, já existentes, que se sucedem em um ritmo mais rápido. Dos fragmentos de memória do filme, essa é a sequência que parece mais imaginária. Não à toa, é aquela em que nossa narradora tem a consciência confusa. Não à toa também, arrisco dizer, é a mais bonita.

O sacrifício de Little Black demarca o fim do que começa com o gosto de uma aventura de verão, de uma caçada ao guaxinim, mas transforma-se em uma dolorosa jornada de amadurecimento. É uma inocência que morre com ele. É o horizonte de Mattie que se expande aos poucos. Ao contrário do que é norma no cinema da continuidade, grande parte das cenas dos Coen, neste filme, inicia não com um plano de estabelecimento, mas com um plano próximo da garota, seguido por um enquadramento mais aberto. Essa mesma sensação de expansão está presente quando percebemos o tratamento do espaço no filme como um todo. No início, as ações se passam praticamente em interiores. Com o avançar da narrativa, elas transportam-se para externas em ambientes abertos, mas ainda predominam os enquadramentos médios, o plano americano. É apenas a partir da segunda metade do filme que veremos os grandes planos gerais da paisagem. No entanto, do mesmo modo que se expande para abarcar a beleza dessas paisagens, a visão de Mattie passa a englobar aquilo que ela erroneamente julgava conhecer: a crueldade humana. Podemos dizer, ao fim do filme, que, do gosto amargo da vingança, Tom Chaney é quem menos prova.

* * *

“O tempo apenas escapa de nós” são as últimas palavras que a diegese nos oferece antes que se inicie a música dos créditos finais. Bravura Indômita é, afinal, um filme que nos fala de tempo, mas não enquanto entidade abstrata. Fala do tempo através de nós; aquele que nos perpassa, nos habita. Mais do que um discurso, ele nos oferece sensações. Os recorrentes fade out são uma. Outra são as composições cuja imobilidade é suavemente interrompida por algum elemento que oscila. Há também o número reduzido de personagens em interação, de aglomerações, a ausência da típica cena do saloon: não é para todos a permanência no tempo da memória. Dentre todos esses recursos expressivos, mas também simbólicos, preciso ressaltar aquele que me toca da forma mais pungente. É com ele que finalizo esse texto que já se tornou cansativo.

É dos recursos mais simples: os insistentes, e lentos, travellings frontais. Ao dar a sensação de, sempre interrompidos, nunca serem finalizados, permanecem como uma promessa de movimento que não se completa, de um passado cujas lacunas são preenchidas apenas pelo futuro. Como uma memória que espera, um tempo que escapa.

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