por Álvaro André Zeini Cruz

— “Ice”. Que que é “ice”, mãe?
É gelo. Ou sorvete, disse a mãe, puxando a menina apressada. Na volta, ou vamos perder o lugar na fila, completou, sem perceber que a filha não se referia ao carrinho de sorvete, mas ao Mickey Mouse fardado que posava para fotos com uma turma de crianças louras.
Érica passara o último ano juntando dinheiro para aquela viagem com Alice, 7 anos recém-completados. Vou te levar para o país das maravilhas, brincava a mãe enquanto faziam as malas. Então estavam diante da concorridíssima Splash Mountain, que suspenderia suas atividades por tempo indeterminado assim que aquele expediente terminasse. Alice sentia arrepios e não maravilhas ao ver e ouvir a queda, mas tinha altura e orgulho para embarcar na atração. Estava resolvido; iriam e ponto.
Entraram na fila atrás de uma mãe e uma filha, como elas. A menina da frente parecia pouco com a mãe, mas não havia dúvida de que eram mãe e filha. Em inglês, tagarelavam sobre o itinerário que fariam depois, apontando as atrações num desbeiçado mapinha de papel. Às vezes, se distraíam e paravam a fila por um instante, e embora ouvisse um bufo ou outro mais atrás, Érica julgava não quem empacava entre planos, mas quem se estressava no reino da magia.
A fila se estendia num vai e vem entre grutas cenográficas, que sustentavam retratos de personagens de desenho animado — um coelho marrom carregando uma trouxa vermelha com bolinhas brancas, uma raposa com um chapéu de aba mole e um machado, um urso de camisa azul e com a mesma cara de bobalhão de quase todos os ursos da Disney. Balú, amigo do Mogli, por exemplo, era, além de bobalhão, hipócrita; ficava cantando aquela balela de “somente o necessário / o extraordinário é demais”, enquanto Érica deixara um salário mínimo para estar ali, enfileiradamente feliz.
Mas, concentrada no filme da vez, Érica deixou isso para lá. Tinha uma vaga lembrança daqueles sujeitos dos retratos, talvez da Sessão da Tarde, talvez do Cinema em Casa. “Canção do Sul” era o nome do filme, que misturava animação e atores de verdade. Alice, que não tinha visto, entendeu logo que o urso e a raposa estavam atrás do coelho. É uma caçada, mamãe, disse, atraindo olhares dos brasileiros mais próximos.
Logo avistaram os troncos; era neles que os visitantes do parque embarcavam. Cada carro-tora comportava oito pessoas e as que se sentavam à frente iam, geralmente, protegidas por capas de chuva. Quero ir na frente, disse Alice, redobrando a aposta na coragem. Érica, que não havia se precavido com capas ou mudas de roupas secas, negociou — no segundo banco.
Assim foi: sentaram-se na segunda abertura da madeira de mentira, atrás das duas americanas. We have to watch this movie together!, a mãe dizia à garota. Àquela altura, Érica já havia ouvido o nome da menina, que devia ter entre oito e nove anos — Lila. O da mãe não sabia, porque nomes de mães são sempre mais difíceis de saber; em português, inglês, árabe, alemão ou aramaico, mãe era alguma tradução de mãe.
As travas desceram e o sobretudo preto do funcionário responsável por conferi-las farfalhou pela borda do bote. Além de sisudo, o figurino parecia europeu demais para o clima tropical da Flórida; certamente, uma exigência do parque. Pálido, o sujeito, que também usava um cap, sorriu dizendo “bon voyage”. Alice perguntou o que era, mas, intrigada demais com o homem, a mãe só respondeu segura firme. O início do passeio também desengatou gritinhos infantis, reconhecidamente embarcados na aventura do Zip-a-dee-doo-dah.
Como todo mundo comum, o começo era tranquilo, muito embora os passageiros já tivessem cruzado e não reconhecido o incidente incitante, a primeira intriga, o mau-agouro. De canto de olho, Érica viu atrás de si um grupo internacional, mas não tão heterogêneo nos parentescos — a maioria dos carrinhos carregava pais que se sentavam ao lado dos rebentos, prontos para compartilharem o frio na barriga convertido a partir de mais ou menos moedas. 1 dólar, 5 reais, 17 pesos mexicanos, 1445 pesos argentinos. Quando deu por si, passava já pelo Irmão Sapo, guardião do limiar da primeira subida rio acima. Bon voyage, Érica pensou ter ouvido de novo.
— Mamãe, um fantasma.
A mãe estranhou aquele tipo de confusão; Alice já tinha idade suficiente para não trocar a física gosmenta dos anfíbios e a metafísica gélida das fantasmagorias. É um sapo, filha. A menina concordou — claro que era um sapo —, mas apontou para o outro lado, onde, jurava, havia um fantasma. Cadê? Não tá mais. Tem certeza que é o brinquedo certo?, provocou a menina antes de…
Uaaa!
Era uma queda d’água pequena, mas, mesmo assim, alguém se empolgara lá atrás. Érica não se virou para ver os donos dos gritos, mas Alice não conteve a curiosidade. Deu uma bisbilhotada, outra mais demorada, e, por fim, anunciou: o cara de boné e a menina com orelhas de Minnie tinham deixado o brinquedo.
— Como assim — perguntou a mãe, virando-se discretamente. — Nem pararam, nem nada. Será que passaram mal?
Érica deu a importância de um vislumbre, ou seja, não deu muita bola. Presta a atenção; olha as roupinhas do coelho penduradas, disse apontando um varal estendido entre dois paus. E se prepara que aí vem outra!
A segunda descida, sim, deu frio na barriga, a ponto de Alice gargalhar e se entregar ao brinquedo. A água subiu consideravelmente e respingou sobre Lila e a mãe de Lila, ondulando o cabelo alisado da menina. A americaninha olhou para a menina brasileira e compartilharam as risadas, mas perderam-se de vista quando o tronco navegou para dentro de uma caverna.
Ah, a magia!, pensou Érica ao dar de cara com os animatrônicos que, em formas de sapos, garças e guaxinins, cantavam e tocavam um folk empolgante. A viola e a gaita davam o tom do pega-pega entre os protagonistas — o coelho ligeiro, o urso e a raposa se revezavam entre os perigos preparados pelos predadores e a preza que dava nó em pingo d’água.
— É porque coelhos são rápidos — observou Alice. — E esse nem usa relógio!
A mãe e mais alguém riu; riu de um jeito estranho, meio sinistro, como se alguma traquitana dos robôs cantantes tivesse rangido enferrujada. Mas o rio continuava a correr pela história. Brer Bear era, de fato, tão bobalhão que, primeiro, caiu na própria armadilha e terminou laçado. Então, uma queda imersa em escuridão desaguou na segunda arapuca, em que o urso, de barriga para cima, se digladiava com uma colmeia.
— Mamãe, o menino e a mãe também desceram, e o fantasma sentou no lugar deles.
Estavam no ambiente mais escuro da atração, salpicado apenas por luzes psicodélicas, que foram o bastante para que Érica constatasse que a filha estava certa. Teriam caído no curso do rio artificial? Ora, não seria possível. Teriam ouvido. E daria pé! Talvez o tal fantasma fosse um funcionário, muito embora o funcionário anterior se vestisse mais como nazista do que como fantasma. Talvez haja um botão de desembarque caso algum visitante se sinta mal; talvez a coisa seja tão profissional, tão azeitada, que os demais passageiros sequer perceberam. É isso, o fantasma era um funcionário, que ajudou a mulher de macacão jeans e o garotinho com a camiseta “Epcot México” a descerem silenciosamente, por algum motivo.
Talvez para poupá-los do momento em que o Coelho cai nas garras da Raposa e, enfiado na colmeia, suplica — Let me go! Era isso, nem todas as crianças são corajosas como Alice, dispostas a encararem a barriga da baleia, o problema aparentemente incontornável, a subida final que, Érica havia lido, culminaria numa queda de 16 metros, com inclinação de 45° e velocidade de 72 km por hora. E por mais coragem que Alice tivesse, a maternidade aconselhou que Érica agarrasse a mão da filha.
Nesse justo instante, um relâmpago revelou o par de urubus sobre o bote e, atrás, na parede da gruta que acompanhava a inclinação da subida, uma forma triangular, a sombra de uma espécie de cone pontiagudo, pontuado por dois buracos simétricos. Enquanto, num tom macabro, os urubus decretavam tenebrosamente We got you a laughing place, Érica viu a projeção do fantasma. Seu impulso inicial seria virar-se para trás, dar corpo à aparição; não o fez porque outro corpo havia se evaporado, frustrando o ímpeto materno. Érica pode sentir a presença da carapuça cônica rente à nuca e teve como última vista a forma análoga da torre que se erguia diante da garganta da Splash Mountain. Não pode sentir a mão da filha, que não estava mais ao lado.
Terminada a descida, Lila e a mãe adentraram a última caverna, o desenlace da aventura, com o irmão Urso e o irmão Raposa enroscados a um espinheiro para fugir da bocarra de um crocodilo, e o Coelho são e salvo. Zip-A-Dee-Doo-Dah Zip-A-Dee-Dah. Agora com os cabelos cacheados, a menina achava graça em estar encharcada. My oh my what a wonderful day.
— Mom, everyone from our boat disappeared — disse Lila, ao virar-se à procura de Alice.
A mãe imitou a filha e constatou que não só o seu, mas a maiorias dos botes atrás vinham mais vazios e tinham começado a viagem cheios. Teriam elas perdido alguma evacuação? Estaria o parque sobre algum tipo de ataque? Ou havia acontecido algum acidente, que ejetara os demais turistas dos troncos cenográficos?
Recusou a ajuda do sujeito — outro de sobretudo de couro atípico ao calor pantanoso — para deixar a embarcação e teve um súbito arrependimento por não ter lido aquele Philip Roth que ficara na estante de casa. Qual era o título mesmo? Devia ter, pelo menos, visto a série. Agarrou a mão da filha, puxando-a apressada. Pensava naquilo que era um fato e um clichê: eram tempos estranhos. As mãos dadas evidenciavam a pele branca da mãe e a não tão branca da menina, que tinha um bronze arábico, para além do sol de alguns dias em Miami. Na lojinha, Lila quis ver a foto vendida pelo parque, conferir a cara de medo diante da derradeira queda. Aproveitou-se do enlace para puxar a mãe até o painel, onde encararam-se ensopadas no carrinho quase vazio, exceto pela ponta do capuz que se erguia seca atrás dos cabelos ondulados da garotinha americana, nascida e criada na pequena Bainbridge Island, no norte do país, quase na divisa com o Canadá.
Quando as sinapses de Jane Johnson a levaram a ligar o capuz a um uniforme e a uma visão de mundo, as mãos da filha Lila Johnson eram como as de Alice Santos. Haviam sido levadas.