por Fábio Fernandes

Sejamos francos: a Europa sempre teve medo das invasões bárbaras. Parte dos mitos nacionais de seus países inclui essas invasões alienígenas – termo grego que originalmente queria apenas dizer estrangeiros, sem nenhuma conotação extraterrestre. Mas é fácil fazer essa ponte quando vemos, por exemplo, filmes de ficção científica estadunidenses sobre invasões de povos de outros planetas. Esses filmes também fazem parte de um conjunto de narrativas de construção da identidade nacional. Como dizia David Graeber, uma nação se constrói não apenas pelo que ela é, mas também (e principalmente) pelo que ela não é em relação às nações que fazem fronteira com ela. Ódios e medos encontram traduções muito boas na tela do cinema.
Mas nem precisamos nos ater aos filmes de scifi hollywoodianos, que na verdade procuram justificar esses ódios e medos. Filmes políticos como os de Ken Loach, por exemplo, cutucam a ferida sem metáforas ou meias-palavras. Seu mais recente, O Último Pub, trata justamente de “bárbaros”: imigrantes na Inglaterra e a reação dos moradores do local, que começa com a agressividade que aprendemos a esperar dos moradores nativos. São tempos violentos.
Mas, ainda que violência costume gerar violência (tanto na vida quanto na arte), o cinema não precisa sempre necessariamente andar na mesma frequência que o mundo real. Filmes feelgood (aqueles filmes feitos para que os espectadores se sintam bem) podem fazer muito bem para nossa saúde mental. É o caso da comédia francesa Vizinhos Bárbaros, dirigida por Julie Delpy.
O filme começa de maneira esquemática, quase como uma comédia da Sessão da Tarde: uma série de depoimentos de moradores de uma minúscula cidade do interior da França a uma TV local, sobre a iminente chegada de refugiados ucranianos. Aparentemente, todos estão animados: afinal, a Ucrânia está no noticiário, a guerra com a Rússia está criando um movimento enorme de novos refugiados, e os países da Europa Central estão fazendo a sua parte para ajudar a recebê-los.
Só que as coisas não saem como esperado: subitamente acontece uma escassez de ucranianos no fluxo de imigração, mas sobram sírios. E é justamente uma família síria que chega ao vilarejo de Paimpoint, na Bretanha, para desgosto de alguns habitantes do local… e, claro, medo e ódio de outros.
Segue-se então uma série de eventos que envolvem o difícil entrosamento dos sírios, vistos como bárbaros árabes incapazes de entender regras sociais (a cena do amendoim é lapidar nesse sentido), e que leva a uma reação literal de alguns membros da sociedade, em particular um encanador, Hervé Riou (Laurent Lafitte, de As Mil Vidas de Bernard Tapie), que faz de tudo para sabotar a estadia dos sírios na cidade.
Mas é claro que tudo vai mudar, com aquelas cenas já tão previsíveis como a da filha mais velha do casal, a adolescente Louna (Dalia Naous), pela qual um dos rapazes locais, branco e louro comme il faut, se apaixona. Ou do patriarca da família, poeta famoso na Síria e desconhecido na França, mas que é um excelente cozinheiro e se dispõe a mudar os hábitos alimentares dos habitantes de Paimpoint.
Delpy começa o filme praticamente como uma anti-Ken Loach, não no sentido ideológico, mas no sentido narrativo: se em O Último Pub a tensão é palpável praticamente desde a primeira cena, em Vizinhos Bárbaroso cômico paira sobre personagens e situações. Há de tudo para todos os gostos: a bêbada num casamento infeliz, o marido que a trai com a mulher do açougueiro, o trabalhador pobre fascista, a professora idealista (vivida pela própria Julie Delpy).
As interpretações resvalam no estereótipo, mas o que poderia muito facilmente cair numa sátira tipo Astèrix acaba sendo um filme conduzido com muito carinho por ela. O final do filme é satisfatório, no sentido de que quase tudo o que se espera que aconteça acaba acontecendo, e até parece que tudo acaba bem… mas talvez não do jeito que alguns espectadores esperam. E é justo nesse final que Julie Delpy estende a mão a Ken Loach e nos dá algo um pouco mais realista mas ao mesmo tempo mais esperançoso. Nem todo filme feelgood é bom, mas podem ver Vizinhos Bárbaros sem susto. É um filme (vocês já sabem que trocadilho besta vem por aí, não sabem?) bárbaro.