Vale Tudo 2025 – Crítica Folhetinesca

Capítulos 55 a 60

Atrasadíssimo: o bloco 61-66 já está na metade e eu ainda entregando pitacos dos capítulos da semana passada. Em outros tempos, Odete pediria meu pescoço, e Marco Aurélio, prontamente, acionaria Freitas para me conduzir ao RH (no trajeto, Consuêlo me lançaria um belo olhar de reprovação por baixo dos óculos). Dona Odete, por sinal, não está disposta a fazer vista grossa para as falcatruas de Marco Aurélio: foi logo questionando a nova rota passando por Póvoas (boa sacada omitirem o nome da cidade, sublinhando a devida desimportância dada por quem só vê colônia de exploração). O vice da TCA foi salvo pelo gongo, ou melhor, por Cecília, que, sabe-se lá porquê, precisou de dois atentados (num curto espaço de tempo) para entrar em coma, iniciando um arco de aproximação entre o irmão e a pequena Sarita.

Essa nova subtrama é mais forte do que a anterior, mas também mais arriscada: o perfil de Marco Aurélio, reposicionado ao de “papai do ano”, pode enevoar o papel de Laís aos olhos do público. Pior, num país que batalha para seguir homofóbico (basta lembrar os anos Bolsonaro ou ver nosso atual Congresso), não acho improvável que uma parcela significativa dos espectadores simpatize mais com a ideia de Sarita ficar sob a tutela de Marco Aurélio, agora um homem romântico, que se declarou a Leila num almoço no Gigabyte (usando uma referência mais pop, porque sou da época do Guacamole do Mocotó). É um arco que precisa de boa mão para ser conduzido, que demanda mais sensibilidade do que parto de bebê reborn (e Aldeíde que se cuide, ou Marco Auréliozaré leva o baby de brinquedo e misturar as paletas).

Também teve a volta de Solange, que se libertou da van e nos tirou uma preocupação (se Vera Fischer aparecesse sentada ao lado, já pensaria que a mocinha Duprat tinha caído nas mãos da quadrilha do sucesso da Globoplay “Salve Jorge”). Diplomada em stalkear (Heleninha ainda é uma aprendiz nesse quesito), Solange interceptou Afonso na lagoa, iniciando um lenga-lenga constrangedor, que se arrastou ao longo da semana. Comunicadora, Solange deveria entender que o meio é a mensagem, e a expressão corporal de Afonso, sempre correndo por aí, é um meio revelador: o interesse dele pela mocinha Duprat é o mesmo que eu tenho por futebol ou bolsa de valores. Zero.

Ao que tudo indica, Solange cairá numa cilada ainda maior; ou melhor, entrará pela porta dos fundos, depois de fazer a Consuêlo com a pobre e eficiente Leila (não só ela; Sardinha e Suzana também estão nesse time). Aliás, se há um ator que deveria se inspirar na reprise de “A Viagem” e voltar, tal qual Alexandre, aos estúdios Globo, esse ator é Adriano Reys. O imbróglio Duprat, ao menos, serviu para tornar um pouquinho mais crível o interesse de Afonso por Fátima, visto que, há pouco tempo, ele dispensava mais atenção a Sardinha, a Suzana, e até a Marieta, que anda por São Paulo (mas não se adaptou e já está voltando; desta vez sem desculpinha para cair na armação de Fátima). Afonso é o típico playboy que gosta de quem corre atrás dele, ou então, pernas para que te quero (juro que encerro aqui os trocadilhos com corrida). O personagem só abre espaço para Carrão trazer outras nuances quando contracena com Celina; caso, por exemplo, da noturna à beira de piscina, em que a familiaridade entre eles driblou até a palestrinha do menino Roitman.

O melhor da semana veio pelas mãos de Odete e Fátima, essa última sob o domínio absoluto de Bella Campos, que só melhora o cacoete de ajeitar o cabelo. Influenciadora mais ética do Brasil (principalmente agora, em plena CPI das Bets; aliás, tem Bet patrocinando Vale Tudo?), Fátima deu a volta em César e presenteou Cauã Reymond com boas cenas ao lado Luis Lobianco e Ricardo Teodoro (impagável como Olavo, ultimamente chamado no diminutivo). Bem dirigida, a sequência no aeroporto trouxe algum respiro à dobradinha estúdio/praia, e ainda levou César a conhecer Odete mais cedo. Odete Roitman, claro, deu aquela reparada no moço (ainda que Mariana, minha esposa, ache que César já está meio passado para Odete), mas anda às voltas com seu grande segredo; surpresa na Vale Tudo original, suspense nesta. 

Se em 1988, a vida pregressa de Odete era trazida em banho-maria a partir da segunda metade da trama (com longos hiatos), a mudança tanto do segredo em si, quanto do design dado a ele, é das melhores escolhas narrativas até aqui, principalmente, porque — não há dúvidas — Odete tem o público. E se, no passado, a velha Ruth era uma personagem escorregadia entre participações, Nise (Teca Pereira) surge agora como uma oponente passivo-agressiva, que, sob uma imagem frágil, vai escalando as chantagens contra Odete. A cena do dia 06/06, em que Odete vai à casa e ouve um chamado do filho, Leonardo, é, até aqui, a que mais exigiu de Débora Bloch: ela lança um olhar ao corpo semi-velado sob o batente da porta, um olhar que torce o rosto de Bloch numa disputa, carregada de amor e culpa. Um olhar de mãe, só que com a equação invertida, desbalanceada. A ver o que o destino reserva a Odete Roitman. Que seja mais que a morte; ou que ela sequer venha.

ps.: falei pouco de Raquel, mas a culpa é da Manuela Dias, que, ao suspender o conflito com Fátima, tirou pontos de atrito desse protagonismo. Mas foi dolorida a humilhação tramada por Heleninha e Ivan na festinha da firma. Que fiquem juntos e passem o resto dos dias respondendo recursos dos editais da TCA. Burocracia é o pior que se pode desejar a pessoas assim.

Capítulos 49 a 54

As pressões sobre o corpo humano estiveram no cerne deste bloco de capítulos. Se para Renato, a corridinha serviu para escapar de Leila e Bruno, Afonso testou seus limites e, ainda que se arrastando, conseguiu cruzar a linha de chegada, movido pela torcida de Fátima e sua camisetinha com estética WordArt Windows 98. Como disse Taís Araújo no Instagram, “calma, gente”: antes de acusarmos Maria de Fátima de anacronismo estilístico, dispensemos a ela o benefício da dúvida — talvez Fátima seja uma influencer ligada na tendente comercialização da nostalgia (que, inclusive, trouxe Vale Tudo de volta). Acompanhando nosso ping-pong entre 2025 e 1988, Faty sacou que, para o bem e para o mal, nostalgia é um valor contemporâneo que vende. É por essas e outras que, depois de uma transa com Afonso (aqui no sentido sexual, não na polivalência vocabular dos anos 1980), entregou-se a um breve delírio adolescente, desses com direito à fumacinha no porta-retrato, e que poderiam facilmente estar em “As Patricinhas de Berverly Hills”, “O Diário da Princesa”, ou coisa parecida.

Deu uma vergoinha, mas, pelo menos, a cena foi rápida; além disso, revelou algo incontornável: Fátima e Afonso têm química. É uma novidade, já que, na original, Fátima simulava o tipo “bela, recatada e do lar”, referindo-se a si mesma como “esposinha”, enquanto Afonso era um sujeito sério demais, com cara de que só fazia sexo quando constava na agenda. Carrão vai pelo caminho contrário; abraça a esquedomachice e se entrega à Fátima com os olhos umedecidos repousados sobre um sorrisinho à beira da canalhice, numa mistura de culpa e sedução vulgares. Enquanto isso, a mocinha Duprat segue na Espanha, aparentemente presa dentro de uma van (a exceção foi a boa cena com Fátima, em que Solange, pelo menos, teve cama quente para sentar e chorar). Nem Renato, nem Sardinha se preocuparam com essa recorrência suspeita na call que fizeram para apresentar Mário Sérgio; o personagem de Thomas Aquino chegou para substituir Solange (ou seja, tudo leva a crer que não teremos Bartolomeu como o velhinho mais querido da Tomorrow). César é outro que precisa ser resgatado: com Fátima devidamente orientada por Odete, o ex-modelo virou uma orelha de luxo da vilãzinha; ouve sem dar um pitaco, sem contribuir com um plano. Quando não está na praia, está com dor de cotovelo; isso porque ainda não viu Fatifonso e sua química geracional entre o superficial e o insonso (mas, ainda assim, química!).

A resistência corporal também foi uma questão para Cecília, que fisicamente mais bem preparada que Afonso, levou um tiro num dia e encarou a estrada no outro. Antes de pedirem abrigo a Marco-Aurélio-nosso-herói, Laís e Cecília conversaram sobre o atentado e o fato de o Brasil ser um dos países que mais matam ambientalistas no mundo. Importante, a informação soaria menos professoral numa conversa diluída em ações para além do diálogo (uma troca de curativos, por exemplo). A rápida recuperação de Cecília pode ter feito o espectador se perguntar “que tiro foi esse?”, mas já emendo que foi um “tiro Walcyr Carrasco”, isto é, o tipo de evento dramático que impressiona impacto e dinamismo à narrativa, sem fazê-la avançar de fato. Serviu para que Marco Aurélio retocasse a maquiagem e para que o acidente de carro (terrível) não fosse mera barbeiragem. Sobretudo, deixou lastro para uma trama inédita, essa sim interessante: a tentativa de Marco Aurélio de usurpar a guarda da sobrinha.

Também nesta semana, o vice-presidente da TCA foi à praia, mais entusiasmado até do que o próprio Nero em vídeos de bastidores. Lá, encantou Leila com castelos de areia (ignoremos, por ora, o fato que desmoronam) e contrastou Renato, que se agora é um personagem chapado e pior, ao menos serviu para dar boas cenas a Carolina Dieckmann: Leila “fechou a conta” (e me pergunto se esse é o máximo do subtexto que veremos nesta Vale Tudo) e, agora, pode tentar outros caminhos depois do livramento.

Entre os Roitman que não fazem triathlon e não se referem à comida como proteína e carboidrato (Odete, mais uma vez, certíssima), Celina perdeu a liquidez e teve que chamar Caco Ciocler como um marchand descolado, que chegou ao Rio de Janeiro disfarçado de Amyr Klink depois de velejar pela Antártida. O romance é novo e bem-vindo, sobretudo se for para afastar Celina de situações constrangedoras, como pedir dinheiro a Odete. A vilã, por sua vez, não está disposta a engolir as falcatruas de Marco Aurélio, e convocou Consuelo, o que rendeu um momento promissor entre Débora Bloch e Belize Pombal. Outro bom momento foi aquele em que Odete convidou Celina para “uma festa ótima, super objetiva”, com destaque à cara “você não sabe o que está perdendo” de Débora Bloch antes de dizer que Celina não está preparada.

Enquanto as mulheres tratam de coisas sérias, a menina Heleninha (que, desta vez, não foi à Itália) tratou de apressar o fim de sua lua-de-mel com Ivan: para aumentar a própria autoestima, procurou Raquel, esperando ouvir que ela, Helena, fora a responsável pelo término entre Ivan e a cozinheira (sim, no fundo, era isso que a Miss Roitman queria ouvir). Dona de si (só que às 9), Raquel sugeriu que o diminutivo no nome da outra não é só carinhoso e mandou a criança para casa. Lá, Heleninha encarnou Dorothy Malone em “Palavras ao vento” e dançou um mambo privado, dedicado à audiência caseira (sem conseguir infartar ninguém). Ainda que Heleninha seja uma personagem meio “randômica” (emprestando a palavra da própria), que só encontra alguma coerência quando está stalkeando Ivan com cara Jack Nicholson-Torrance, foi a melhor cena da semana, com Paolla Oliveira no fio da navalha, um dos pés “mambando” no overacting. Numa novela concebida para ser seguramente funcional (e que peca nisso), pareceu-me um risco mais do que bem-vindo.

Capítulos 43 a 48

“A mocinha Duprat é branca, mas é uma insolente. […] E ela [Fátima] nem é tão preta assim”. A semana se encerra com Odete confessando que nasceu para ser pai, mas a paternidade é mero eco dessa fala anterior, na qual a Sra. Roitman se explicita como a patriarca de uma casa-grande, expondo um racismo cordial-fenotípico, que tolera e até reserva algum acolhimento ao negro de pele clara; obviamente, se essa relação convir antes e principalmente ao branco, mantendo-o, de alguma forma, senhor do engenho.

Muito se especulou sobre a implausibilidade de Odete aceitar uma nora negra; afinal, como é possível uma Odete Roitman que não seja racista?! Oras, e quem disse que ela não é? O racismo de Odete não é novo; é, na verdade, histórico, maleável e até afeito aos corpos e mentes que se dispõem docilizados. É o caso de Fátima, que, tal qual Sarah Jane, em Imitação da vida, renega a mãe; segundo Fátima, porque Raquel é pobre e fala alto, mas não me parece um dado irrelevante que, num país cujo racismo é fenotípico, a filha de pele mais clara renegue uma mãe de pele mais escura.

Abre-se uma série de possibilidades dramaturgicamente interessantes: é possível que Fátima não se reconheça como uma mulher negra? Será que ela acredita piamente que a mudança de classe neutralizará a violência do racismo? É possível que Odete aliene Fátima de sua própria identidade? E Afonso, tão bom de discurso (mas, aparentemente, sem nenhuma práxis), ficará calado entre o pai (na verdade, mãe) e essa esposa, que replica e reverbera intolerâncias, justamente por não se reconhecer como objeto delas? Vale Tudo tem nas mãos uma bela trama sobre identidades apagadas e consciências borradas; resta saber se terá coragem de desenvolvê-la.

Ainda entre os Roitman, Heleninha desceu o vidro do carro e saboreou Ivan com carinha de Michael C. Hall em Dexter, mas, a depender da progressão, pode beirar Jack Nicholson em O Iluminado. A teenager de 40 anos e nosso arrivista preferido passaram a semana entre os projetos culturais da TCA. Eu, particularmente, reitero minha posição de que Consuelo e Aldeíde seriam um júri melhor: não fosse um favorecimento moralmente questionável, Aldeíde poderia aprovar a fase vermelha de Heleninha e compor um complô monocromático contra Marco Aurélio. E imaginem o olharzinho de Consuêlo, de baixo para cima, sob os óculos, durante um pitching?! Ia ter artista saindo da apresentação e se candidatando para cargo burocrático na TCA.

É bem verdade que o mais imaginativo da empresa é Freitas, que, esta semana, teve um rompante de pós-verdade diante de Marco Aurélio (“dizem que enterraram Michael Jackson, Elvis Presley…”). Por sinal, nosso malvado-dançante-de-game-favorito teve uma semana difícil: monojeans de Aldeíde, patrocínio para peça da Cláudia. É muita arte numa empresa de aviação. Daqui a pouco vão querer enfiar cinema brasileiro no entretenimento de bordo da TCA! Imagina se colocam Bete Balanço, com Odete traindo o padrão crossfiteiro com a monocelha do Lauro Corona?! Ia ser um escândalo que faria Afonso engolir os sapos e os outros 40% de anfíbios que sobraram. Certa está Tia Celina, saudosa dos tempos em que nasceu, quando não havia internet, tampouco diálogo dramatizando a Wikipédia.

Mas nem só de papo ruim vivem os Roitman. Depois de Odete fazer uma aula teste vapt-vupt com o personal de Afonso, o filho juntou lé com cré, reconheceu na mãe o patriarcado, e no patriarcado, o braço forte do capitalismo. Traumatizado desde que encostou no braço do Cauã Reymond, Afonso reconheceu em Odete todo o mal contra o qual palestra e disse com todas as letras que a mãe é um câncer. Embora uma boa parcela dos telespectadores não concorde (culpa de Débora? Manuela? Dos tempos? Do Brasil?), Odete sentiu e teve um piripaque (uma saída melhor do que a original para trazê-la, em definitivo, à casa de Celina). A cena do enfrentamento foi, até aqui, o grande momento de Humberto Carrão como Afonso. Em seguida, num quarto de hospital, ele e Debora Bloch se mancomunaram e conseguiram fazer com que a cena desviasse do texto quase piegas. Ponto para os atores e para a direção.

Heleninha é outra que, além de focada (em Ivan), teve boa direção. Falo especificamente da noturna à beira-mar, com ela e Ivan ousando naquilo que a telenovela não admite mais: ter (e representar) tesão. Sem transformar os corpos em silhuetas, embaralhá-los em flares ou apagar-lhes as peles, a cena mostrou Helena arrancando as roupas e, depois, se atirando sobre Ivan. Em tempos de dramaturgia recatada — com personagens transando sob lençóis, de roupa e entre elipses —, Helena e Ivan provaram que não vieram só para esse tanto de conversa enfadonha que tiveram até aqui. Coube a Lenine equilibrar o tesão com romantismo; e Certas coisas é sempre uma trilha certeira para esse tipo de cena (embora eu prefira a versão de Lulu Santos). Se a lua-de-mel perdurar, o novo casal poderia doar um pouco dessa alquimia toda a Renato e Leila, cuja química, se embalada, dá uma cartela de Frontal ou Dormonid (Renato, pelo menos, é um personagem cujo potencial pode ser vislumbrado no embate que teve com Odete).

Enquanto isso, na Vila, uma nova dupla aparece (e se Manuela tiver juízo, para ficar): no jogo de decifrar as piscadelas da crítica culinária, Gilda e Poliana tiveram um desses pequenos grandes momentos, calcado no ping-pong do diálogo e nos olhares laterais, impostos pela encenação em varal, que culmina numa viradinha síncrona e cômica dos dois. Em outra cena, mais densa, um bom posicionamento do diálogo aprofunda Poliana: Raquel insiste em ver o celular de Gilda e, antes de mostrar a foto de Ivan e Heleninha (num restaurante, ainda vestidos), Poliana avisa sobre o conteúdo, preparando a amiga. Pode parecer uma bobagem, mas é o tipo de construção que demonstra a índole, o raciocínio do personagem e, no caso, sua preocupação com Raquel. A mocinha, aliás, está prestes a sair na Tomorrow, e esse andar da carruagem, me fez perguntar: cadê Bartolomeu mostrando que é um velhinho mais antenado do que os hipsteres da rép da Solange (que, por sinal, foi para um lugar considerado mais cool, sem a empáfia aristocrática parisiense). E cadê Thiago convidando André para ouvir música clássica, para horror de Marco Aurélio? Cadê Eugênio?

Volto na próxima semana, prometo que menos ácido. Como disse Odete, mais alcalino.

Capítulos 31 a 36

Jogo rápido, tal qual a novela, que se arma (e, às vezes, desanda) em alta velocidade. A semana se deu em torno dos dólares extraviados, com direito à cuíca para nos lembrar que “dinheiro na mão é vendaval”. O desespero para devolver a “bufunfa” (um dos títulos provisórios da trama original) soa ainda mais palpável numa Raquel negra, que, ao invés de sinal de sorte, vê a maleta como uma caixa de Pandora. A moral de Raquel faz com que ela saiba que o mal virá em algum momento; a cor da pele, neste país em que está, traz a certeza de que esse mal recairá sobre ela.

Mas o destino fez Maria de Fátima ter uma providencial amnésia: mesmo abrindo e reconhecendo a mala de Rubinho (roubada por César), Fátima foi atrás da mãe para pegar a mala do pai e um suposto relógio que haveria nela. Sob o método de interpretação Cigano Igor, Raquel dá brecha à desconfiança da filha, e interliga as sinapses de Fátima ao cometer o erro fatídico de dar a ela um bolo dos dólares (com a desculpa de que seriam do seguro de Rubinho). O atalho nesse jogo de gato e rato convence; a cena em que Fátima liga os pontos é verossímil, ainda que essa verossimilhança cobre o preço de desabonar Raquel. E, neste retrato de uma Fátima mais atirada, faz certo sentido o ímpeto dela em se atirar literalmente pela janela (o que não significa um plano inteligente). Menos plausível foi a recuperação: como num filme da Marvel, Fátima saiu sem nenhum arranhão e, do hospital, seguiu para a exposição de Heleninha, onde fez presença VIP para Odete Roitman.

Sim, porque Odete pôs os olhos em Fátima duas vezes e já sacou toda a vida pregressa da influencer. O primeiro encontro foi no jantar em que Solange achou que jantara Odete com o sonoro “eu sou resistência”. Aliás, não é à toa que La Roitman anda conquistando os corações: ela é um poço perto de figuras como Solange, Afonso e Sardinha, que poderiam ser reduzidas a adesivos com slogans. Mas antes da coisa degringolar, Odete deu uma bela devorada em Fátima (uma possibilidade que poderia ser interessante às personagens e trazer buzz à novela; já pensou, sogra e nora mancomunadas contra o filho em todas as camadas?!). O encontro na exposição foi o suficiente para que Odete atraísse Fátima, convidando-a ao duplo pacto contra Raquel e Solange.

Se em 1988 essa aproximação era gradual (simbolicamente, Fátima conquistava Odete abrindo seu jogo num torneio de gamão), nesta, Mamãe Roitman deve ter usado intuição, cartas, bola de cristal, constelação familiar; só mesmo uma ligação extraterrena para nos convencer da plausibilidade desse pacto, baseado num mútuo reconhecimento à primeira vista (talvez seja uma homenagem à reprise de A Viagem). Nas mãos de uma atriz que não tivesse encontrado ainda a personagem, Odete Roitman poderia parecer uma mulher menos viva, menos calculista (e ainda é muito cedo para isso); sorte que Débora Bloch encontrou Odete. Há um jeito de remediar a má impressão desse conluio apressado: no futuro (se nada mudar), Odete revelará que mandou investigar a vida de Maria de Fátima; nesse sentido, dramatizar essa investigação em flashbacks e situá-la nessas circunstâncias da narrativa poderia justificar a confiança de Odete em Fátima. Mais ou menos como os inserts do ex-amante levando uma surra; um acréscimo revelador, já que, ao contrário dos outros vilões, Odete transa violência. A ver como será…

No ritmo “dança da mãozinha heavy samba”, Vale Tudo tenta capturar o espectador desatento, contrariando algo que, outrora, era ontológico — ser uma novela que exige atenção. A original era uma boa antecipação do conceito que Jason Mittel chamaria, anos depois, de narrativa complexa: uma narrativa que conquista não só pela identificação e emoção causadas pelo drama, mas também pela percepção do funcionamento das engrenagens, uma consciência encantada pelas artimanhas e pirotecnias narrativas. Em 1988, os paralelismos situacionais, a causalidade entrelaçando diferentes núcleos (a morte de Cecília resvalando em Fátima, por exemplo) e os falsos plot twists (a suposta infertilidade de Afonso) eram marcas de uma narrativa complexa. Em 2024, propõe-se uma harmonização facial que tira qualquer reentrância, que vê barriga onde é bochecha. Gal pede “Brasil, mostra a tua cara” e a que se vê no ar tem uma estética escorregadia e publicitária, de um fluxo televisivo autoconsciente e exibicionista, equivocado em usar a ideia de brasilidade para encapar uma trama cujas ranhuras, antes, anunciavam os abismos (mas isso é assunto para outro texto). A Vale Tudo de agora é uma superfície lisa e resplandecente, por onde os olhos podem patinar em velocidade máxima. A maior injustiçada deve ser Lucimar, que acha que ganhou uma trama, mas há um mês pratica patinação em círculos.

Capítulos 25 a 30

Depois de uma semana bem engrenada, Vale Tudo teve um bloco de capítulos com o melhor e o pior do remake capitaneado por Manuela Dias. Comecemos assoprando: a chegada de Odete Roitman propiciou a releitura inspirada de uma cena antológica — o embate entre Odete e Heleninha, a filha que, nesse reencontro, está visivelmente alcoolizada.

Em 1988, o melodrama aflorava inflamado, entre vozes e gritos igualmente alterados. Mais importante: era uma cena horizontal, com os personagens posicionados no mesmo nível, na sala, em campos e contracampos que desenhavam dois lados. Em 2025, a cena se dilata em tempo e espaço. É dividida em dois grandes momentos: no primeiro, a câmera encontra Odete para se deixar hipnotizar; por isso mesmo, é carregada pela vilã entre os cumprimentos que estabelecem um pequeno passeio pela sala. A entrada de Heleninha inaugura o segundo momento; ela surge no mezanino que inicia a escada e, separada pela altitude desse pé direito, desafia a mãe. A partir daí, quatro planos sintetizam o que há de melhor na releitura da cena.

O primeiro deles é o plano geral que estabelece “as pessoas na sala de jantar” e Heleninha, que se posiciona rente ao parapeito, sacudindo a garrafa e um copo de whisky. É uma escolha cênica que não só contrasta a ação à suntuosidade da sala, como arquiteta um perigo pela altura. Se originalmente, a cena induzia o espectador à pena, nesta, uma outra premissa aristotélica é realçada — o público teme pela segurança da personagem. O choque dos Roitman fica evidente tanto na impotência diante da ação, quanto no posicionamento de costas à câmera, que entrega uma flagrante contenção dos gestos.

É Heleninha quem domina a cena, com Paolla Oliveira debruçando-se sobre o parapeito e cuspindo as palavras entre intervalos. Nesse sentido, é uma composição diferente da de Sorrah, que despejava (res)sentimentos (aflorados pelo álcool) sobre a mãe, enquanto Oliveira injeta respiros, que reforçam dúvidas — “o que ela vai dizer agora?  O que ela vai fazer?”. Na descida cambaleante, Heleninha cai, e abre o segundo grande plano da cena: o ¾ sobre Odete (no midground), em que essa mãe permanece impassível, enquanto Celina e Eugênio borram o quadro ao cruzá-lo, em primeiro plano, para socorrer Helena. Numa única imagem, estabelece-se a dinâmica familiar dos Roitman: os meros mortais se apoiam; Odete Roitman não ampara, muito menos afaga. Pelo contrário: só o que ela se permite é abaixar os olhos para acompanhar a queda.

É um plano que traz o que escrevi durante a semana: enquanto Beatriz Segall fazia Odete como um cristal — de tilintar agudo — deslocado, a contragosto, da Galeria dos Espelhos de Versalhes, Débora Bloch faz de Odete um iceberg, indisposto a mover um músculo sob o calor dos trópicos. Surge como uma figura grave, gélida, não lapidada, que contrasta com a irmã calorosa; é Celina quem encarna as emoções e os gestuais da mãe preocupada. Quando Odete, finalmente, avança (em palavras) sobre a filha, é o rosto de Celina que chama a atenção atrás de Heleninha, na profundidade de campo: o olhar dela lacrimeja entre os cortes; a expressão derrete, como se doesse nela a humilhação dessa sobrinha a quem tem como filha. O quarto grande plano é aquele que, justamente, contrasta Odete Roitman e a irmã humana. A câmera frontal as mostra no sofá, guardando certa distância, em posturas opostas: Odete ancora os braços sobre o estofado e se abre como uma esfinge realçada pelas ombreiras; recostada numa almofada lateral, Celina se fecha no cruzar das pernas e nas mãos que tateiam uma a outra. Ela se prepara para escolher as palavras finais desse embate.

A cena é prova do potencial do remake de Vale Tudo, quando a direção dá tempo e, sobretudo, quando há texto construindo esse tempo. Depois da assoprada, é chegada a hora da mordida: Vale Tudo precisa lembrar do velho ditado “a pressa é inimiga da perfeição”. A impressão é que, sob a preocupação de um ritmo datado, a equipe de roteiristas trabalha para diagnosticar o evento de cada cena e, a partir disso, pensa como chegar a esse evento em dois ou três passos para não entediar o espectador. O resultado desse tipo de escolha viu-se na cena em que Ivan se infiltra numa reunião da TCA; descoberto por Odete sem nenhum suspense, ele teve que vomitar as informações que, depois, o fizeram sem recontratado, com um upgrade de cargo. A xeretice de semanas culminou nessa resolução ligeira; quase um passe de mágica que conduziu Ivan à trombada com Heleninha-fugitiva nos jardins da mansão Roitman (um gancho eficiente, ainda que teen demais aos personagens).

Capítulos 19 a 24

Rubinho se despede, Odete diz alô. O bloco de capítulos começa com o desfecho de um dos maiores conquistadores da empatia do público neste primeiro mês de Vale Tudo: contraditório, complexo, humano, Rubinho arrebatou e arrebentou, emprestando Júlio Andrade como suporte. Mas o que explica o sucesso de um personagem torto, meio ingênuo, meio tolo, inteiro idealizador? Talvez seja o sonho, essa coisa meio démodé numa época em que o pragmatismo soterra qualquer utopia; mesmo que o sonho de Rubinho me pareça um tanto obsoleto, sobretudo agora, com Trump, que dificulta outra possibilidade — ainda que “loco por ti, América”, diminuíram as chances de Rubinho contratar um coiote e se enfiar no porta-luvas de um carro, como fez Sol, protagonista da novela América. Por isso, ele descolou uma carona a jato (quem nunca?!)  e morreu na contramão, atrapalhando o tráfego dos dólares de Marco Aurélio. Antes, botou a etiqueta na mala errada, o que a fez parar sob o colchão de Raquel. Fátima e César (que, numa oportunidade, afanou a outra) ficaram com a mala de Rubinho; a vilãZinha sacou que era a do pai, o que deve influenciar os rumos e reduzir esse arco. No fundo, a culpa é do Renato do bem (porque, em Celebridade, Gilberto Braga escreveu um Renato editor que era do mal), que saiu distribuindo malas aos mais chegados.

Falando em Fátima, ela fez a Scarlett Ohara e incluiu a mãe em seu discurso/promessa diante da lápide paterna (não me lembro se ela era tão veemente e “altruísta” assim na original). Passou boa parte da semana enfiada na “espelunca” de César (que é um lugar do tipo em que eu e boa parte dos brasileiros moramos), voltou para a “rép” para boicotar o trabalho de Solange, mas, desta vez, não teve que aprender a mexer no computador; tudo foi feito via hacker, certificando-se, inclusive, da nuvem (dizem que João Emanuel Carneiro viu o capítulo e ficou encantando com essa nova tecnologia). Precavida, Solange passou raiva com o pior dos eletrônicos que já pisaram na face da Terra — a impressora — e pôs tudo no papel. A dissimulada Fátima foi lá e jogou parte fora, sem necessidade alguma: bastaria contar a Afonso a atitude pouco sustentável da namorada e Noronha subiria no telhado com o namoro. De qualquer forma, o relacionamento resiste, ainda que Solange tenha ficado em casa e, junto com Sardinha, continue digitando as páginas (como bem notou a Dr. Noveleira, eles ainda não descobriram os apps de transcrição); isso depois de  ter mandado flores ao invés de suplementos vitamínicos a Afonso Roitman (gafe).

Enquanto isso, as oportunidades batem à porta de Raquel e Poliana: nesta Vale Tudo, a relação fraterna vai além do discurso e tem mais toques, carinhos e afagos; a cumplicidade de outros sets, entre Taís Araújo e Matheus Nachtergaele, corrobora essa construção, algo que também deve acontecer com Malu Galli quando Celina crescer na trama (tenho para mim que Celina era uma das protagonistas da novela original, mas, por ora, deixo isso como uma provocação, pois é assunto para outro texto). As melhores cenas no bar contaram também com Gilda: aquela em que Raquel junta forças e se levanta para confrontar a moça sobre o possível furto, e a de ontem, em que Gilda, depois de resistir a um roubo, desabafa que se arriscou para não perder o afeto de Raquel. Gilda sugestiona uma triangulação inédita com Maria de Fátima pelo amor de mãe; por mais que Raquel tivesse afeição por Gildo de 1988, ela jamais completava uma posição maternal — o menino era tido como filho postiço de Zezé, a empregada de Bartolomeu e Eunice, negra como ele. Com Gilda na jogada, a trama a la Mildred Pierce pode realocar o conflito de Imitação da Vida (adaptando questões raciais e de classe) e corrigir uma injustiça da novela anterior. Um embate entre a filha de sangue e a filha afetiva seria uma cena mais do que bem-vinda, principalmente porque ambas passam pela desonestidade, mas por motivos e mundos bem diferentes. Outro paralelo que poderia ganhar força é entre Raquel e Lucimar, duas mães solos que poderiam ter histórias complementares. Como todo esse arco de Lucimar é novo, vale esperar para ver como irá se relacionar com o tema e a trama.

Na TCA, Consuelo deveria lançar mais olhares julgadores a Ivan para ver se a ficha do mocinho cai — Ivan, você não é dono da empresa, meu querido! Depois de tentar de tudo para ser notado por Marco Aurélio (quando bastava se inspirar nos monocromáticos de Aldeíde), Ivan seguiu agindo nos bastidores para tentar ser o funcionário do mês. O episódio da compra dos aviões (que vai dar ruim) carrega o misbehavior do personagem: a ambição de Ivan é uma junção de trabalho, jeitinho e crença numa mobilidade social que se baseia na manutenção das demais estagnações (dos que estão acima, abaixo, ao lado). Como comentei noutra oportunidade, é o tipo de sujeito que, na redistribuição do Imposto de Renda, deve estar preocupado com os patrões (afinal os Roitman geram muitos empregos!). Claro que essa visão de mundo não sobreviverá à convivência com Odete, mas até aqui, Ivan segue como em 88: um quase anti-herói, melhor (um pouco) como companheiro (Maria Bethânia ajuda um bocado!) do que como pai (o de Fagundes tratava o filho como se fosse um pet). É importante observar que, em Vale Tudo, as paternidades são marcadas por contradições: Ivan é o meio termo entre a ausência de Rubinho e a onipresença de Marco Aurélio, o executivo moralmente abjeto, mas que tem como ponto de exceção o amor por Thiago. O vice-presidente da TCA protagonizou duas boas cenas nos últimos dias: aquela em que promete a Heleninha flexibilizar a guarda de Thiago, e a conversa cara a cara com o filho, que termina num abraço inesperado (estreante na televisão, Pedro Waddington segura muito bem as duas; nessa última, parece, de fato, um adolescente que ganha o melhor dos presentes do pai).

A passagem de algumas semanas veio numa sequência de montagem priorizando os personagens em movimento, mas valeria retomar aquilo que fazia a original: ir para as ruas para captar não o star system, mas gente com cara da gente (sem estar caracterizado como a gente). Eram imagens quase documentais, que mostravam roupas, cabelos e peles sem o tratamento da produção ficcional, contrastando ao máximo a caricatura que se erguia em olhares cheios de empáfia e topete com laquê. Odete Roitman. Renasceu na ponta do gancho (do capítulo), menos misteriosa do que na original, com Débora Bloch desfiando a voz de um aveludado ameaçador aos graves firmes que seu timbre permite (contrastando o aproveitamento que Beatriz Segall dava aos agudos). O rosto da vilã surge num plano que corrige da boca aos olhos, com a imagem texturizada em flares que “maquiam” o rosto de Odete entre verdes, amarelos e azuis — as cores estáticas da bandeira do “paisinho” que ela odeia e que movimentam a logo de Vale Tudo.

Expurgando o Zé Simão que me incorporou ao longo dos últimos parágrafos, é, justamente, esse tipo de instante inspirado que Vale Tudo precisa; aparece aqui e ali, e  aparecerá mais conforme a direção for se soltando, se apropriando da novela. Falo no futuro do presente porque acho que a morte de Rubinho lançou um novo tom à trama: chuvoso, o capítulo de terça-feira trouxe uma bem-vinda melancolia, evidente, sobretudo, na cena em que Raquel dá a notícia a Maria de Fátima, ambas sob um azul perfumando as peles e os cabelos (destaque para o gestual das mãos de Taís Araújo na cena, como se tentasse tatear as palavras). A cena em que Fátima desmorona com César segue a mesma toada dramática, mas com outro tipo de iluminação: a sala aquecida parece prestes a ser engolida pela frieza à espreita, iluminando os cômodos ao redor. A impressão é que, embora a nova versão tente ser menos áspera, mais palatável, a profundidade incontornável do texto começa a se impor, obrigando uma retração da brasilidade colorida em prol de um Brasil de abismos dramatizados. Entre dois eventos da maior importância — a partida do amado Rubinho (com o passaporte em mãos, sem chegar a lugar algum) e a chegada da odiada Odete —, Vale Tudo teve uma semana sustanciosa, com tutano e traços “apropriados” (na ambivalência da palavra, como aquilo do qual se toma posse, mas que também é próprio, pertinente, adequado). Apostando nesse caminho, o remake deve, logo, encontrar uma cara para mostrar.

Capítulos 13 a 18

A semana começou no Rio e termina agora em Paraty, numa festa dessas a la Manoel Carlos, que atravessam capítulos. A novela segue no ritmo “coração ligado, beat acelerado” e, entre uma batida e outra, deixa passar uma coisa ou outra. Por exemplo: toda a ideia e preparação em torno das caixas de bombom já era; em pleno 2025, é preciso ir direto ao ponto — nesse caso, Freitas devorando os bombons para dar lugar aos dólares de Marco Aurélio. Luis Lobianco, aliás, faz desse capacho de colarinho branco um sujeito mais solto do que era o de João Camargo, e a química com Alexandre Nero é das poucas coisas já consolidadas até agora. A preparação do plano — a compra dos bombons — era um evento que tinha relação causal com outro, mais adiante, na original. Até aqui, a supressão não traz nenhum grande prejuízo narrativo, mas corrobora a sensação de uma trama que tem pressa,  que parece aterrorizada com a possibilidade de entediar o telespectador.

Também escapuliu do roteiro uma das tramoias de Maria de Fátima, que armava para afastar uma das assistentes da Tomorrow para conseguir uma vaga no hotel do evento. Desta vez, a sorte ajudou a malvada a ser menos malévola; o incidente de um vazamento no apartamento de Suzana deu conta desse upgrade. Assim, Fátima pode se dedicar a traquinagens mais visuais, como o truque da barata no banheiro. Também à profissão de influencer, para a qual não tem o mínimo traquejo ou paciência, muito embora tenha se autoelogiado há pouco — “eu sou tão espontânea”. Vale uma olhada no perfil da influenciadora para notar tamanha espontaneidade; essa bem-sucedida transmidiação, por sinal, traz tintas cômicas à personagem. Feita por Bella Campos, Maria de Fátima já foi devidamente desvendada em textos e comentários aqui e acolá: a de Glória Pires era cheia de ambição e, por isso, devidamente calculada e calculista; esta, personifica ideias vazias e age em impulsos passionais, o que diminui um bocado sua capacidade de dissimulação. O Afonso de Carrão — muito mais vivo do que o de Cássio Gabus Mendes — já percebeu, e Fátima terá que cortar um dobrado para conquistá-lo.

E por falar nos Roitman, duas boas cenas aconteceram entre o apartamento descomunal de Marco Aurélio (que, com tendências comunistas inconscientes, o divide com Renato) e a mansão de Celina: a primeira foi a briga entre pai e filho, momento tenso, mas feliz na construção do texto, que fez a discussão passar da voz ao físico de maneira surpreendentemente rápida, mas ainda assim orgânica. A cena só escorrega quando, na sala, Renato diz ao público (e a Marco Aurélio, mas o público é mais importante) que Thiago não é um “macho tóxico”. O didatismo, certamente, dará um belo corte para as redes, muito embora a dramaturgia em si esteja antes e depois: falo agora da cena entre o ex-casal em que as frases soam como balas perdidas, e Marco Aurélio acaba revelando a Thiago que Heleninha foi responsável por incendiar a casa com o filho dentro (e me corrijam se eu estiver errado, mas a revelação neste momento é nova, não?!). A cena é breve, mas recupera o típico “climão” que estava sempre à espreita na mansão dos Roitman. Mais do que isso, afasta Nero do vilão cômico (reaproximando-o do cinismo original) e permite que Paolla Oliveira brilhe mesmo quando calada pelo estarrecimento — o esforço da atuação dela se divide entre os olhos e o pescoço, que engole como se contivesse um vômito.

Na cena seguinte, o perdão entre mãe e filho tem respiro, tempo entre o contracenar, além de uma boa utilização da música instrumental melodramática (cujo uso ainda é desigual). Ah, sim, Eugênio estava em cena, em sua nova função decorativa. Esta semana, o ápice da participação do mordomo foi anunciar que aproveitaria as sobras da pipoca da patroa para ver desenho animado, curiosamente, um gênero televisivo que, há anos, está ausente da programação Global (ou seja, a referência não serve nem para retroalimentação do fluxo televisivo, a não ser que Eugênio veja algo no Gloob). A cena em si não existiu, mas nos lembrar do mordomo cinéfilo e nos fazer imaginar o Eugênio de agora assistindo Tubacão é espezinhar o noveleiro raiz (por favor, não nos maltrate, Manuela Dias).

Entre idas e vindas de Raquel e Ivan — com direito à participação de Breno da Matta e da personalidade “maníaco do networking”, que começa a despontar no mocinho —, o proprietário desse bloco de capítulos foi Rubinho, que cativou o público, mesmo repetindo o texto da conexão com o piano. Arrisco dizer que o trabalho de Júlio Andrade foi mais árduo do que o de Daniel Filho, que mantinha seu Rubinho sempre na mesma escala, enquanto Andrade o faz em diferentes volumes, indo do grave (a dura cena do primeiro capítulo) ao agudo, do staccato ao legato mais melódico. Rubinho, esse homem com defeitos, tem um sonho, encapsulado durante a ditadura (na novela original), latente num Brasil em que parte da população baba ao ouvir “Lei Rouanet”. É possível ser artista no Brasil?, é a pergunta que Rubinho planta dentro da moral de Vale Tudo. No que diz respeito ao audiovisual, a dificuldade é grande, e as possibilidades se apertam entre a uberização das profissões, a desregulamentação dos streamings e o excesso de pudor das televisões abertas (entre muitas outras coisas). Faço o gancho que traz de volta Daniel Filho, que, em seu Circo Eletrônico, batia na tecla de que cada capítulo precisava ter uma ou duas cenas trabalhadas com maior esmero. É o que merecia a cena em que Rubinho toca New York, New York, reduzida ao tatibitate dos campos e contracampos mais comuns, quando pedia a dobradinha completa das músicas (Sá Marina e NY, NY), uma câmera que entendesse a espacialidade como extensão do personagem, um tempo que dilatasse o momento singular dessa participação breve, mas marcante. É possível ser artista no Brasil?

A pergunta é ampla e complexa, mas a telenovela sempre respondeu permitindo que a indústria se infiltrasse pela arte. Tá aí um valor moral que a telenovela deveria tomar como atemporal, no qual deveria ser inegociável um Vale Tudo.

Capítulos 7 a 12

A segunda semana de Vale Tudo começa com o embate verbal entre Raquel e Maria de Fátima, marcado pela repetição — quantificada pelas redes sociais — da palavra “pobre”. Era uma cena mais dura na primeira versão, mas a palavra — apesar de também repetida — me parecia mais nuançada, diferente daqui, em que “pobre” recai com um peso reiterado, abrindo uma ambiguidade na cena: se por um lado, o diálogo fica entre a autoconsciência e a paródia, por outro, a música instrumental planifica o melodrama. Havia um toque fino na original: Maria de Fátima despejava suas barbaridades tendo, na profundidade de campo, um dos anões ornamentais da casa de Aldálio e Aldeíde. Aqui, o espaço raso reduz a atenção às personagens e, consequentemente, às palavras; e é provável que a falta de respiro entre réplicas e tréplicas tenha acentuado uma impressão de dosimetria equivocada, ou de um texto que poderia ter sido mais bem lapidado. A verdade é que entre as atualizações desatualizadas, uma se evidencia por uma questão contextual: Maria de Fátima reclama do nome de pobre no instante em que é midiatizado o caso do juiz que se autointitulou britânico, com nome e sobrenomes nobres. Minha sugestão é que Fátima não se intimide e passe a assinar como Mary de Faty (como já a chamam na internet) Crawley Branson Pelham, com a possibilidade de emprestar outros sobrenomes da aristocracia de Dontown Abbey.

Brincadeiras à parte, é verdade que alguns diálogos, apesar de atualizados aos dias de hoje, soam excessivamente… atualizados aos dias de hoje. O que quero dizer é que Manuela Dias, na ânsia de posicionar algumas questões contemporâneas — e de se posicionar como autora através delas — peca pela falta de sutileza em determinados momentos. É o caso de algumas das conversas entre o trio Afonso, Solange e Sardinha, cujo engajamento carece de uma diluição mais natural, para não soar como delivery de lacração (de novo, as redes sociais foram as primeiras a diagnosticarem esse sintoma). Não é uma questão de “o que” — não há problema (muito pelo contrário) em Solange discutir o machismo estrutural, ou Afonso falar da precarização do mercado de trabalho —, a questão é como colocar isso em falas que exponham essas visões de mundo de maneira orgânica, carregando, inclusive, as contradições de cada personagem. Nesse sentido, o texto derrapa numa armadilha contemporânea, que excede os limites de Vale Tudo: de novo, a infantilização do público é o que atravanca a progressão de diálogos que demandam tempo de construção e coragem para usar o subtexto. Se as novelas de Gilberto Braga expunham toda a dialética, é preciso cuidar para que não se recaia no canto da sereia-síntese, que anula um sistema complexo (tese e antítese) para que o espectador se deleite nas microcatarses de encontrar concordâncias prontas.

Essa hipótese aliás se estende à direção. “Parece uma novela das 7”, comentou uma leitora. De fato, há uma economia temporal e uma espacialidade restrita a abrigar as ações, uma conjugação que talvez impressione essa agilidade das 19 horas (ainda que o horário costumasse trazer uma velocidade mais ousada, caótica). A rapidez — movida pela necessidade de estimular a “criançada” diante da TV — é outro sintoma que assola as novelas atuais, que entenderam que não são séries, mas tampouco descobriram o que é comunicar-se “novela” nos dias de hoje. De novo, não é uma questão restrita a Vale TudoRenascer (2024) ia ao extremo oposto e, apesar de conquistar uma audiência fiel, não conseguiu se colocar no panteão das novelas lembradas como bem-sucedidas. A direção de Paulo Silvestrini arrisca pouco se comparada a de Gustavo Fernandez (de Renascer e Pantanal) ou a nomes de um passado recente das novelas Globais, como Rogério Gomes ou José Luiz Villamarim (que hoje comanda o núcleo de teledramaturgia, mas não dirige títulos específicos). Também contrasta a direção de Dennis Carvalho e Ricardo Waddington, que fizeram da Vale Tudo original uma novela, justamente, contrastada, em que a dicotomia desse país abismal se traduzia num jogo de luzes e sombras. Para a Vale Tudo de agora, a impressão é de um briefing apontando Vai na Fé; mas vai com calma, com cuidado. Transparece o típico remake com falta de tutano (para usar uma palavra cara a Gilberto Braga), em que o temor em tocar a original organiza uma obra apaticamente bem cuidada, uma novela que “funciona”.

Na história das artes — e do audiovisual —, o maneirismo nos ensina que, na impossibilidade de superar a obra original, é preciso profaná-la. Silvestrini faz o contrário: reencena um pastiche de trabalhos anteriores num estilo excessivamente denotativo, modestamente expressivo, sem muita brecha às camadas simbólicas e decorativas (a exceção, na semana, talvez tenha sido o plano de Maria de Fátima num espelho de maquiagem). Dias, até aqui, faz uma atualização funcional, preocupada em narrar com um ritmo que agrade noveleiros, tiktokers e tudo o que há no meio (de preferência, fazendo as camisetas do Cauã viralizarem). Carece ainda de um toque autoral; ao mesmo tempo, dispensa o que considera perfumaria da autoria anterior, ainda que fosse dos perfumes mais finos de Gilberto Braga (nesse sentido, o mordomo Eugênio é o personagem mais atingido).

Deixando de teses e antíteses e indo logo a uma síntese, a segunda semana teve boas cenas entre duplas: Ivan e Rubinho (sorte das Raqueis que os Rubinhos morrem logo, ou o casal de Vale Tudo seria esse), Aldeíde e Consuelo, Poliana e Raquel, Raquel e Gilda; esta, aliás, uma mudança promissora tanto pelo novo perfil, quanto pelo perceptível talento da Letícia Vieira. Ah, e como bem reparou Mauricio Stycer, o primeiro beijo respeitou a regra de Janete Clair: tem que acontecer antes do 16º capítulo (aqui foi no 9º).

No mais, é uma Vale Tudo feita com apostas conservadoras, em que o risco, a distorção, a profanação do original acaba partindo, pontualmente, dos atores: é o que Taís Araújo faz, brilhantemente, ao desconstruir a caricatura utópica de Regina Duarte, criando uma Raquel mais realista, mais palpável. É o que Paolla Oliveira começa a fazer ao recuperar o ritmo dos gestos e das falas de Renata Sorrah, mas realocando-os a outro tom e olhar; o olhar vidrado que Sorrah imprimia, agora é perdido, melancólico, evidente na cena em que ela e Celina conversam sobre o passado de Heleninha e Marco Aurélio. É o que espero que Débora Bloch traga em sua Odete Roitman, uma personagem para a qual só há dois caminhos — ou pela contenção que se despoja completamente da caricatura original, ou pela aposta dobrada, uma outra volta no parafuso. De uma forma ou de outra, até aqui, a promessa autoral da nova Vale Tudo não vem dos master minds, mas do “chão de fábrica” — dos atores.

Capítulo 6

No dia da semana em que a audiência costuma ser mais baixa, Vale Tudo entrega seu capítulo mais mal aparado. A impressão é de que Manuela Dias apertou o pé para fechar esse primeiro bloco no ritmo do espectador-dopamina, esquecendo-se daquilo que a novela original tinha de melhor (e que Gilberto Braga, especialmente, fazia muito bem) — o ritmo cadenciado entre novos conflitos e conflitos desdobrados, trabalhando as sobreposições e reflexões entre eles.

A começar pela tal festa, restrita a poucas cenas e uma participação tímida de Maria Padilha (que merecia mais tempo de tela). A sequência dividiu a ação em dois arcos circunstanciais: de um lado, Maria de Fátima, que conheceu Afonso, mas também César, quer dizer, o caráter de César (não que fosse algo muito camuflado); do outro, Heleninha e Celina, que, mais uma vez, cruzam Marco Aurélio. A Nero o que é de Nero: se na pele de Reginaldo Faria, Marco Aurélio era um sujeito ontologicamente desagradável, que não se esforçava, tampouco se orgulhava disso, Alexandre Nero faz do diretor da TCA um mau-caráter que saboreia o próprio sadismo. Isso se explicita no tom e na dicção com que pronuncia a palavra “clássica”, quando reclama que Thiago se tranca no quarto para ouvir música clássica. Surge também o primeiro atropelo textual: Heleninha pula uma construção lógica e vai logo pressupondo a associação alheia entre música clássica e homossexualidade. Sabemos que essa é, de fato, uma questão para o diabo de Prada (ou troglodita de Armani), mas é uma construção de diálogo afobada, que pula alguns beats e tira a progressão orgânica da cena. Vai-se logo ao núcleo, quando seria mais esperto que Heleninha deixasse Marco Aurélio entregar o próprio preconceito. No frigir dos ovos, ela abre brecha ao punch cruel, que automaticamente a leva a um copo de whisky no banheiro (outro lance apressado).

A apresentação da icônica Lucimar também padece desse jogo da lebre (ainda é cedo para ela jogar no bicho), além de uma ordem equivocada. Agora, Lucimar tem um núcleo para chamar de seu; uma atualização pertinente à dimensão que a personagem ganhou na original. O problema é que a primeira vista dessa mulher é junto ao filho, entre afazeres domésticos e tarefas escolares, quando, na verdade, a cena seguinte deveria ter vindo antes: Lucimar, na casa de Poliana, se inteirando do assunto Raquel/Maria de Fátima. Seria mais crível ver essa personagem inserida num contexto social — entre personagens que já conhecemos — para, depois, vê-la na vida privada, agora com espaço e drama próprios.

Aliás, se a cena na casa de Poliana traz um gene da Vale Tudo original — as sequências de montagem das fofocas, em que a moralidade é sempre o assunto —, é de se estranhar que todo mundo ali comente em pé de igualdade o drama da protagonista, como se todos fossem velhos conhecidos ou tivessem convivido igualmente com Raquel. Lucimar e Jarbas (que tem uma ótima cena com Ivan e Rubinho) dão pitacos com a mesma intimidade que Poliana, Aldeíde e Consuelo. Essa impressão se repete no gancho, quando, ao invadir a casa, Maria de Fátima tem seu primeiro atrito com Lucimar, que a enfrenta como se todas ali tivessem contracenado desde segunda-feira.

Deixando a pressa de lado, com um olhar mais calmo, é possível se deter nos detalhes: Aldeíde, Poliana e Consuelo amontoados no sofá trazem o aconchego daquela casa acolhedora. A conversa com cafés no copo, e Raquel e Rubinho circulando pelo apartamento (do batente ao piano, depois ao sofá) até ela tirar o copo dele e levar à cozinha, mistura aflição e intimidade, diluídas com naturalidade nessa ocupação do espaço. É o tipo de verdade essencial a Vale Tudo, porque é o que contrasta e condena o mundo posado, de queijo brie a bordo de veleiro, com Alice Wegmann num contraluz solar, pudico e publicitário. Um mundo tão impalpável, que fez Mariana bufar ao meu lado, antes da pergunta retórica — vale a pena a novela mostrar esse tipo de vida, esse mundo tão distante?

Vale, porque são vidas e mundos que existem; o desafio é continuar, como na primeira versão, retratando-os como condenáveis e absurdos, especialmente num momento em que se volta a naturalizar abertamente — inclusive nos discursos — as desigualdades e imoralidades. É uma novela que tem que acertar para não ficar em débito com a outra. Para isso, é preciso uma verdade que a telenovela soube e sabe fazer (quando quer, quando há coragem e não há boicote de colarinhos brancos) e calma para que se mostre essa história sem que seja um encadeamento de microcatarses nostálgicas, para não recair na aceleração alienante que Roitmans, Musks, Zuckerbergs e cia desejam, nos distraindo enquanto eles consomem o resto mundo. Como em tudo, o ritmo em Vale Tudo não é só uma questão estética; é também ética.

Capítulo 5

Rubinho é um personagem de vida curta, o que não o impede de ser um dos mais comoventes de Vale Tudo. Feito por Daniel Filho, era um sujeito falastrão, simpático, que guardava um ressentimento inofensivo, transmitido — e “aperfeiçoado” — à Maria de Fátima pelo habitus. A ganância de Fátima começa com o rancor pela vidinha em Foz, mas, antes, talvez tenha vindo pela ambição — essa proto-ganância — paterna que, falha, produz outras pequenas falências. Fátima carrega esse presente de um pai ausente (“eu sou mãe, não sou pai para esquecer que tem filha, não”), mas só um pedaço, porque diferente dela, Rubinho tinha um sonho — seguir a carreira de pianista nos EUA. Um sonho quase adolescente, de um homem que, em 1988, ao 50, parecia tentar recuperar a juventude tomada pelo Brasil das décadas anteriores. Era como se Rubinho tivesse ficado em suspenso naqueles anos ditatoriais em que os meros mortais não prosperavam, pois a escolha que havia era entre morrer ou sobreviver. Rubinho sobrevivia, acreditando que tinha ainda a vida pela frente. Mas o destino, essa peça típica do melodrama, prega das suas e dá uma passagem inesperada ao sujeito com o passaporte nas mãos. Havia uma energia ingênua, quase utópica no Rubinho de Daniel Filho. O de Júlio Andrade surge em cena árido, calejado. Será, no mínimo, interessante presenciar o nascimento e a morte do sonho desse Rubinho de palavras duras, diretas, cujo único acarinhamento talvez seja o diminutivo no nome. Os encontros com Maria de Fátima prometem escalar. A relação com Raquel parece estar mais orgânica, com as memórias e mágoas mantidas.

Se o pai pobre encarou a filha — e é provável que Rubinho a enxergue porque vê nela algo de si —, o pai rico acudiu o filho, vítima de um dos males mais comuns na juventude (mas não só) contemporânea: a crise de ansiedade. A cena em que Marco Aurélio e Helena — esse ex-casal com nomes de imperador e Deusa — se encaram foi o ápice do capítulo. Alexandre Nero, em especial, rege a ação ao se colocar na ponta oposta para falar com uma agressividade amansada no tom, mas perigosa na dicção, na articulação silábica. A postura ereta, inabalável, contrasta com os olhos, que lutam para permanecer firmes, mas carregam a memória desse filho sensível, antítese, mas único amor desse homem que se crê Deus, e é chamado assim.

No reencontro entre mãe e filho, uma curiosidade: a música melodramática vem num arranjo instrumentalmente mais simplório do que se tem ouvido (vale escutar a trilha original de Renascer, Amor de mãe ou Éramos seis para efeito de comparação), remetendo às trilhas dos melodramas de Manoel Carlos entre os anos 1990 e 2000. Uma estratégia vai se evidenciando: Vale Tudo quer articular sua complexidade temática à uma forma de teledramaturgia mais direta e frontal, que não quer explicitar sua construção, muito menos uma impressão de rebuscamento. Novela com cara e som de novela.

Para não dizer que não falei das mães, Raquel chega à Maria de Fátima, graças a Rubinho e Ivan. Antes de dar de cara com a filha (e com o gancho), um detalhe, que pode parecer bobo, diz muito sobre o quase casal: enquanto a aflita Raquel aguarda para subir ao apartamento, Ivan tenta convencer o porteiro a liberar a entrada. Ele se aproveita de uma brecha para subornar o sujeito. Que brecha foi essa? Raquel dá às costas aos dois, preservando sua honestidade desse auxílio condenável. Ivan aproveita para dar seu “jeitinho”; por uma boa causa, mas na malandragem. O romance, que nem começou, já está, simbolicamente, fadado à separação, que virá em dólares.

Capítulo 4

Marco Aurélio flagra Thiago emocionado diante de A Bela e a Fera, de Jean Cocteau, e se coloca em frente à televisão justamente no plano do monstro, compondo um mise en abyme de feras. Quando, finalmente, entende a emoção do filho e olha para trás, é Bela quem está na tela, mas Marco Aurélio não a reconhece, porque é a Fera que só valoriza a beleza atrelada ao dinheiro, e que, por isso, seguirá amaldiçoada. Thiago bem que poderia aparecer em cena emprestando ao pai o livrinho de Didi-Huberman, “Que emoção! Que emoção?”; seria interessante ver um sujeito como esse lendo sobre os limiares entre o riso e o choro. Por ora, Thiago enfrenta Marco Aurélio com uma indignação quase debochada, o que já coloca uma relação mais horizontal; o Thiago que ouvia Beethoven oscilava entre o temor paralisante e o rompante rebelde na relação com o pai.

Desse mau pai (que não necessariamente é um pai mau; se havia algo genuíno em Marco Aurélio era o amor pelo filho), passa-se à boa mãe, à procura da filha: Raquel abre o coração aos irmãos Candeias, e faz a cena-coração do capítulo, aquela que instala os alicerces entre eles, que traz profundidade a essas relações. A ideia de que contracenar envolve reagir à ação do outro aparece com um primor minimalista na distinção das personalidades de Aldálio e Aldeíde: Raquel conta sobre a morte do pai e segue a história, mas é obrigada a parar quando percebe que Aldálio-Poliana ainda lida com a perda dela. Ele, então, estica a mão a ela e, nesse gesto de sentimentos, conta que também perderam o pai. Aldeíde, em contrapartida (e no contracampo), corta o irmão com sua fala acelerada, trazendo um outro tempo à cena — ela quer saber logo a história de Raquel. Para além do tempo, há também uma questão dos espaços: quando o diálogo prioriza Raquel e Poliana, os campos e contracampos se dão em espaços rasos, com pouca profundidade de campo, como se se criassem uma espacialidade única a esse encontro singular, que se estabelecerá numa relação fraterna. Aldeíde, por sua vez, entra em campo no conjunto com Raquel e com o fundo em foco, sugerindo uma relação mais prática e cotidiana. Ah, os anõezinhos estão por ali, só não vi o Mickey Mouse!

Nenhum deles foi convidado à festa da Tomorrow, por onde circulam Fátima, César, Solange e o recém-chegado Afonso Roitman. Humberto Carrão interpreta, pela segunda vez, um personagem que foi de Cássio Gabus Mendes, mas este me parece mais difícil do que o simpático Luti (de Ti-ti-ti), justamente porque o charme de Afonso dura até que ele se veja minimamente contrariado. A partir daí, ele se tornava um príncipe meio desencantado, azedo, um bocado machista. É cedo para saber por onde irá este Afonso, assim como não foi preciso ficar até tarde na festa para achá-la meio miada. Não me levem a mal, a pirotecnia estava ótima, mas, já há algum tempo, a Globo anda meio muquirana com a figuração. O pobre Cauã ficou marcado como bicão logo de cara por causa daquela meia dúzia de gatos pingados ali na frente da balada concorridíssima. Faltou chegar uma Maria Clara Diniz para trazer o vucu-vucu e os flashes da época de Celebridade. Bem fez Celina, que tomou uma champa e chegou cedo em casa. Por sinal, Malu Galli faz dessa personagem uma promessa, assim como João Vicente de Castro vai insinuando características mínimas, mas novas, que deixam seu Renato em suspenso.

Capítulo 3

A câmera parte da paisagem panorâmica para revelar, ombro a ombro, pai e filho no escritório. Em poucos segundos de cena, o rapaz sugere — depois, explicita — que não liga para nada daquilo; tudo o que vale para o pai. Com a cidade à vista, Marco Aurélio não entende como o rebento Roitman, podendo ter mais do que ele — porque tem o sobrenome —, não querer dispor da cidade, do horizonte, do mundo, como um brinquedo. Começam ombro a ombro, mas se separam, são diferentes. À frente da TCA, o pai se acha Deus e tem, de fato, amplos poderes, mas carrega consigo picuinhas do pequeno poder, como a atitude de não se dirigir diretamente às secretárias. O filho, desta vez, parece mais entediado do que intimidado pelo pai. Quer ver a mãe, a quem Marco Aurélio despreza, ainda que, paradoxalmente, se chegou ali, foi por causa de Heleninha, que vive pequenos cárceres, enquanto o ex-marido faz a cidade de tela e voa horizontes abertos. No pouco que se pode ver, Thiago segue sensível, mas menos frágil, uma correção de caráter bem-vinda, principalmente porque repetia muito Heleninha.

O brunch dela e Celina serviu, aliás, para apresentar Renato, que, dali, seguiu para a Tomorrow. Mas não é pelo dono  que conhecemos o espaço físico da agência, mas por Fátima, essa outsider invasora, curiosa como nós — uma jogada típica de apresentação de universo, que alinhava nosso olhar ao dela, todos entrando pela primeira vez na ex-revista (agora Lab de conteúdo). E se Fátima parece ser fogo, não significa que ela seja boa em soar falsos alarmes de incêndio; se esforçou demais, tirou nota 7 e passou raspando na dissimulação vilanesca. Excesso de Stanislavski.

Na Vila Isabel, a bolsa de Raquel vai, mas volta pelas mãos de Ivan, que deu um jeitinho. O caso movimenta o capítulo, mas sem que a mocinha se descabele; ela também não vocifera — com intensidade digna de Pérpetua — “sangue de Jesus tem poder” na hora de agradecer (que o sangue de Jesus tenha o poder de nos deixar longe desse bordão). Retribui aceitando um convite para o almoço com esse Ivan que me faz morder a língua: Renato Góes livra Ivan de certa empáfia posta por Fagundes, que, provavelmente, tentava fortalecer mais um de seus homens fracos escritos por Gilberto Braga (vale a leitura da biografia do autor para entender). É um personagem menos seguro de si, mas que luta para passar a imagem de pilar ao pai, à família (o Ivan de Fagundes tratava o filho quase como um pet). A artimanha do destino que junta os protagonistas é uma típica situação gilbertiana (furto de bolsa, atropelamento de cachorro). Raquel se interessa, mas não se deslumbra, talvez porque não tenha o fantasma de uma viúva Porcina, assombração — em maior ou menor grau — de todas as personagens posteriores de Regina. Taís não era para ser Helena, personagem vivida em variações por Regina. Taís nascer para ser Raquel.

Capítulo 2

Novelas começam pelo conflito posto em sua forma mais bruta: e se uma filha passasse a perna na própria mãe?, diz a premissa, delineando o núcleo da ação. Raquel e Maria de Fátima; a tese da honestidade e a antítese, a certeza da imoralidade (ou seria o contrário?). Certo mesmo é para que essas personificações se movam, é preciso o combustível do entorno, as figuras que, ao as orbitarem, iluminam o bem e o mal de cada uma delas.

Ergue-se a TCA no mesmo capítulo em que a casa-catapulta é desmontada. Desta vez, Raquel não escorre pela parede; é a câmera que escorrega entre os cômodos vazios e as vozes fantasmagóricas do pai morto e da filha, essa desconhecida, não se sabe se de agora ou antes. A casa estende a protagonista, mas, ao que tudo indica, Raquel a levará nessa construção em retalhos, nos figurinos. Chegará amanhã à vila aberta hoje, apresentada por Aldálio — mais conhecido como Poliana — e pela dupla dinâmica que transita entre os polos: Aldeíde Candeias e Consuelo Galhardo. As secretárias de Deus — ou melhor, Marco Aurélio — continuam afiadas como antes, evocando as antecessoras sem se aterem a um jogo de imitações; nesse sentido, Belize Pombal trabalha entre olhares e sobrancelhas erguidas, enquanto Karine Telles brinca de dar coesão (inclusive na cor) à uma figura desde sempre espalhafatosa.

Nero, como Marco Aurélio, muda o tom do imperador: há agora um deboche mole, de bocas e entonações maleavelmente sádicas, enquanto o de Reginaldo Faria era uma estátua de Marfim (e o drone do helicóptero deveria ter sido seu plano de apresentação). Além dele — e de seu fiel escudeiro, posto numa escalação que promete elevar o humor de constrangimento que emerge entre os dois —, entram em cena Celina, Heleninha e a mansão Roitman, devidamente arejada aos tempos, sem aquela cenografia de taberna moderna que reinava nos núcleos ricos dos anos 1980. Paola Oliveira, ao menos nessa apresentação, para querer homenagear Renata Sorrah nos gestos e tiques (a mão levada ao pescoço), mas injeta um fundo doce, que atenua um certo delírio da Helena anterior. O mordomo Eugênio já está a postos, mas não fala mais de filmes (poderia, então, falar de novelas, oras!), enquanto Celina, sob Malu Galli, aparenta uma mulher menos medida nas emoções, pronta a ter sua própria história. Aliás, duas boas sacadas do casting: reunir Galli e Taís Araújo, parceiríssimas em Cheias de Charme (e próximas em Amor de mãe), e reparar o deslize de Da Cor do Pecado, novela na qual Araújo e Nachtergaele interpretavam melhores amigos, mas pouco contracenavam. Insinua-se um triunvirato do bem, que promete dar trabalho aos vilões marcantes de Vale Tudo.

Ah, sim: entre o detalhamento e pitadas nostálgicas, a cenografia luxuosa talvez explique a pobrezinha da novela anterior. Afinal, é uma firma só, e a impressão é que alguém disse “dá uma economizada nessa porque a próxima vai ser cara”. Vale Tudo enche os olhos a ponto de quebrar o fluxo, o rastro deixado pela trama anterior. E se a hipótese do “corta aqui pra pôr ali” estiver certa, valeu todo centavo.

Capítulo 1

Vale a pena ser honesto no Brasil?

Em 1988, a pergunta era lançada aos escombros de um país recém-liberto de 21 anos de uma ditadura militar que reverbera até hoje. 37 anos depois, a trama da filha-falcatrua, que passa a perna e deixa a mãe a Deus-dará, volta ao ar na mesma emissora, nessa coisa — por muitos considerada meio jurássica — chamada TV aberta. A roupagem é outra. Mas… e o Brasil?

Vale Tudo volta sob a mesma interrogação, mas o tempo é outro. O tom, também. A começar por Raquel, que, reencarnada por Taís Araújo, parece uma mulher mais palpável, de uma honestidade mais crível. Friso essa verossimilhança porque, para a Raquel de Regina Duarte, não bastava só ser honesta; era preciso autoproclamar-se honesta em alto e bom som e reiteradamente, como uma catequista histriônica que tentava arrebanhar fiéis na base do grito, mas não convencia nem a própria filha. Era moralista, enquanto a de Taís — ao menos na estreia — aparenta ser uma mulher moral. Aliás, o sofrimento desta Raquel já nos compadece antes mesmo da venda da casa: a cena entre ela e o genial Júlio Andrade — uma briga de sentimentos soturnos em meio à sala enevoada pela luz matinal — não só foi um belo abre-alas ao melodrama, como plantou uma promessa: a de que, talvez, Raquel tenha ensaiado com Regina para ser de Taís.

Se a heroína convenceu-se de que não está em campanha por sua canonização, Maria de Fátima, se não é o diabo, o tem no olhar. Parece uma vilã menos sonsa do que a de Glória Pires porque tem uma malemolência incontida ou mal treinada, ao menos até aqui. Calculista, a Fátima dos anos 1980 tinha um autocontrole que deixava poucas brechas aos atos-falhos. Esta — talvez porque seja cedo ainda — deixa-se escapar. Não contém nem o olhar sobre César/Cauã Reymond; devora o cara sob a luz do dia, à beira da piscina, sob os olhos de quem quiser ver (só faltou cantarolar Daniela Mercury, “eu como, eu como, eu como, eu como, eu como, você). Na pele de Pires, Fátima fingia-se bonequinha de porcelana, enquanto esta nova é uma espécie de fênix com fogo e gasolina; deve queimar, inclusive, a língua dos detratores apressadinhos da atriz Bella Campos.

Fechando a casa quase vendida dos Acioly — “um nome tão simpático”, diria o Eugênio de Sérgio Mamberti —, Antônio Pitanga surge na participação que antes foi de Sebastião Vasconcellos, como o avô que usa a energia que lhe resta ralhando com a neta. Deseja juízo numa cena e, na outra, encara — com dedo em riste e olhos indignados — a petulância mimada de Maria de Fátima, que, diante de nós, deixa a anterior para trás — desiste de ser modelo para ser influencer. É postar e ganhar dinheiro, resume Fátima, personificando muito do dinheiro ganho por aí (quero dizer, por aqui). A última aparição do avô idoso — andar curvado e marmitinha na mão para trabalhar horas a fio, de pé, na aduaneira — abre esse abismo que, antes de ser geracional, é moral. Estava lá há 37 anos. E antes. E antes…

A pergunta se renova porque não foi resolvida, tampouco superada. Sob a pena de Manuela Dias, Vale Tudo estreia com ritmo de novela que se contenta em ser novela, sem pretensão de qualquer outra coisa. A direção de Paulo Silvestrini vibra nas cores, mas tem seus melhores momentos quando combina essa nova característica à certa claustrofobia da original. Afinal, é uma história de um país vibrante, mas onde nem sempre é fácil enxergar saídas (quem dirá chegar a elas). Vale Tudo volta ao ar, de novo, num momento de reconstrução. Se há frescor no texto, é porque há também ventilação no contexto — pela primeira vez, militares estão sendo julgados. Mas há tramoias que não envelhecem: a novela que se perguntou “vale a pena ser honesto no Brasil?” depois de uma criminosa anistia, retorna justamente quando a palavra volta à baila. A novela que “passou o país a limpo” reestreou no dia em que, há 61 anos, foi dado um golpe. Talvez caiba a esta Vale Tudo pressionar, pelo poder da ficção, para que a pergunta que antes era tragédia não se repita como farsa.