Vale Tudo

por Álvaro André Zeini Cruz

Vale a pena ser honesto no Brasil?

Em 1988, a pergunta era lançada aos escombros de um país recém-liberto de 21 anos de uma ditadura militar que reverbera até hoje. 37 anos depois, a trama da filha-falcatrua, que passa a perna e deixa a mãe a Deus-dará, volta ao ar na mesma emissora, nessa coisa — por muitos considerada meio jurássica — chamada TV aberta. A roupagem é outra. Mas… e o Brasil?

Vale Tudo volta sob a mesma interrogação, mas o tempo é outro. O tom, também. A começar por Raquel, que, reencarnada por Taís Araújo, parece uma mulher mais palpável, de uma honestidade mais crível. Friso essa verossimilhança porque, para a Raquel de Regina Duarte, não bastava só ser honesta; era preciso autoproclamar-se honesta em alto e bom som e reiteradamente, como uma catequista histriônica que tentava arrebanhar fiéis na base do grito, mas não convencia nem a própria filha. Era moralista, enquanto a de Taís — ao menos na estreia — aparenta ser uma mulher moral. Aliás, o sofrimento desta Raquel já nos compadece antes mesmo da venda da casa: a cena entre ela e o genial Júlio Andrade — uma briga de sentimentos soturnos em meio à sala enevoada pela luz matinal — não só foi um belo abre-alas ao melodrama, como plantou uma promessa: a de que, talvez, Raquel tenha ensaiado com Regina para ser de Taís.

Se a heroína convenceu-se de que não está em campanha por sua canonização, Maria de Fátima, se não é o diabo, o tem no olhar. Parece uma vilã menos sonsa do que a de Glória Pires porque tem uma malemolência incontida ou mal treinada, ao menos até aqui. Calculista, a Fátima dos anos 1980 tinha um autocontrole que deixava poucas brechas aos atos-falhos. Esta — talvez porque seja cedo ainda — deixa-se escapar. Não contém nem o olhar sobre César/Cauã Reymond; devora o cara sob a luz do dia, à beira da piscina, sob os olhos de quem quiser ver (só faltou cantarolar Daniela Mercury, “eu como, eu como, eu como, eu como, eu como, você). Na pele de Pires, Fátima fingia-se bonequinha de porcelana, enquanto esta nova é uma espécie de fênix com fogo e gasolina; deve queimar, inclusive, a língua dos detratores apressadinhos da atriz Bella Campos.

Fechando a casa quase vendida dos Acioly — “um nome tão simpático”, diria o Eugênio de Sérgio Mamberti —, Antônio Pitanga surge na participação que antes foi de Sebastião Vasconcellos, como o avô que usa a energia que lhe resta ralhando com a neta. Deseja juízo numa cena e, na outra, encara — com dedo em riste e olhos indignados — a petulância mimada de Maria de Fátima, que, diante de nós, deixa a anterior para trás — desiste de ser modelo para ser influencer. É postar e ganhar dinheiro, resume Fátima, personificando muito do dinheiro ganho por aí (quero dizer, por aqui). A última aparição do avô idoso — andar curvado e marmitinha na mão para trabalhar horas a fio, de pé, na aduaneira — abre esse abismo que, antes de ser geracional, é moral. Estava lá há 37 anos. E antes. E antes…

A pergunta se renova porque não foi resolvida, tampouco superada. Sob a pena de Manuela Dias, Vale Tudo estreia com ritmo de novela que se contenta em ser novela, sem pretensão de qualquer outra coisa. A direção de Paulo Silvestrini vibra nas cores, mas tem seus melhores momentos quando combina essa nova característica à certa claustrofobia da original. Afinal, é uma história de um país vibrante, mas onde nem sempre é fácil enxergar saídas (quem dirá chegar a elas). Vale Tudo volta ao ar, de novo, num momento de reconstrução. Se há frescor no texto, é porque há também ventilação no contexto — pela primeira vez, militares estão sendo julgados. Mas há tramoias que não envelhecem: a novela que se perguntou “vale a pena ser honesto no Brasil?” depois de uma criminosa anistia, retorna justamente quando a palavra volta à baila. A novela que “passou o país a limpo” reestreou no dia em que, há 61 anos, foi dado um golpe. Talvez caiba a esta Vale Tudo pressionar, pelo poder da ficção, para que a pergunta que antes era tragédia não se repita como farsa.