The White Lotus

por Álvaro André Zeini Cruz

Inconformado com a hospedagem na segunda suíte presidencial do The White Lotus (a que tem vista para praia, mas não piscina privativa), Shane (Jake Lacy) barganha com o gerente Armond (Murray Barlett) um jantar para que ele e a esposa tenham um momento romântico “num lugar de Instagram”. Ele não é o único com problemas com o quarto: de férias com a família, a empresária Nicole (Connie Britton), passa os dias mudando a disposição dos móveis em busca do background perfeito para suas videoconferências com a China. É provável que esses personagens não tenham a consciência de que estão sendo movidos por um dos princípios básicos da Gestalt: a percepção da figura depende da sua relação com o fundo. 

O fundo é o resort paradisíaco que intitula a série. A arquitetura arejada, as várias vistas para a praia e até uma suposta harmonia com a cultura local compõem essa mise-en-scène do carpe diem dos que muito podem. Os que não podem, se sacodem. É o que faz o staff do local: da trainee que esconde a gravidez (e entra em trabalho de parto em meio à jornada trabalhista de todos os dias) à sempre solícita Belinda (Natasha Rothwell), os funcionários tentam seguir o mandamento do gerente – “desaparecer por trás das máscaras de funcionários comuns e simpáticos”; estar atrás do background. Contudo, o próprio Armond falha quando entende que os hóspedes têm mecanismos próprios que gerenciam, conforme suas necessidades, a visibilidade ou transparência daqueles a quem subjugam – no caso, os que estão ali para trabalhar. Essa epifania, somada a uma bolsa esquecida na praia, abre a brecha para que o gerente decida passar os próximos dias drogado. Instável, ele rasga o fundo para se tornar figura. Figura humana, com necessidades fisiológicas.

É verdade que esse paisagismo do paraíso tinha desde o princípio uma nota fora do tom: a fotografia transforma o clichê do calor tropical num amarelo obsessivo, como se o publicitário de uma agência de viagens tivesse feito a colorização da série e perdido a mão. Essa plasticidade fotográfica se une à arte, que, no limiar entre o chique e o kitsch, resulta numa espécie de resort-modelo patrocinado pela Pottery Barn (a Phoebe, de Friends, não aprovaria). Assim, a nuance tonal desse paraíso é reduzida a uma atmosfera rançosa de ameaça iminente, como se toda a pasmaceira luxuosa estivesse fadada a um tsunami anunciado pela inserção crescente dos planos das ondas revoltas.

Nesse ambiente em que tudo vai se reduzindo a um jogo de superfícies (pulseiras, massagens, capas de Nietzsche e Ferrante, merda sobre roupas bem passadas), há Paula, que acha que pode transitar entre mundos, sem perceber que foi cooptada pelos ricos. E há Tanya (Jennifer Coolidge), que está menos preocupada com os horizontes ao redor do que com a própria verticalidade, com suas camadas internas: ela acha que seu amor de praia (paradisíaca) não irá além do embarque na primeira classe, uma vez que é inevitável que seu affair conheça suas camadas, sua verdade. Curiosamente, ela descreve a si mesma através de uma metáfora recorrente no estudo das narrativas seriadas – a do personagem como uma cebola, a ser descascada ao longo dos episódios e temporadas. A apreensão de Tanya faz sentido: em The White Lotus, a complexidade dos personagens não está na exposição das ambiguidades humanas, mas na apresentação de um mosaico de características desagradáveis, explícitas desde a superfície; são raríssimas as exceções em que há algo a ser admirado nessas figuras. A surpresa é que nem a verticalidade descobre as contradições orgânicas, humanas; pelo contrário, a descida faz com que se volte ao horizonte, aquele que serve meramente para destacar as formas básicas da figura. 

Tanya fala da cebola, enquanto Shane é obcecado pela suíte abacaxi. Como descobre Belinda, pouco importa cebola ou abacaxi, Tanya ou Rachel (Alexandra Dadario): fato é que a camada abaixo é uma perfeita réplica da anterior. Nesta alegoria das classes, os que servem são bagaço, enquanto os que são servidos têm no núcleo o mesmo material da casca. E, convenhamos: é possível, mas é preciso muita criatividade para se usar a casca.