The Bear, a comédia

por Álvaro André Zeini Cruz

The Bear estreia sua 3ª temporada com a notícia de recorde de indicações ao Emmy na categoria em que concorre, além do retorno de uma polêmica — comédia?! A verdade é que, em tempos de streaming e narrativas complexas, não há mais sentido pensar a fórmula 60 minutos=drama, 30 minutos=comédia, uma vez que gêneros e formatos não são mais subservientes a essas associações estanques. Pode-se, no entanto, pensar The Bear como comédia a partir de uma perspectiva tão anterior que só há indícios dela no livro que restou, A Poética. O que quero dizer — e tentar defender — é que é possível pensar The Bear como comédia pelo que restou da concepção aristotélica. 

Há uma série de dissensos e controvérsias sobre o livro faltante, contraparte da Poética, em que Aristóteles privilegia o gênero, segundo ele, superior — a tragédia, imitação das ações nobres. O que se pode inferir acerca da comédia é que Aristóteles tratava-a como gênero de humanos e atos não nobres, baixos, ordinários, típicos de sujeitos não idealizados, possíveis. Comuns. Leandro Saraiva e Newton Cannito, numa interpretação que me parece ir ao encontro das brechas deixadas por Aristóteles, descrevem a comédia como um entrecruzamento de olhares postos em determinadas situações que, por sua vez, não são irreconciliáveis, ou seja, a reconciliação e o reequilíbrio são possíveis. Defendem que a comédia seria o que entendemos hoje por realismo.

Ari Hiltunen, num trecho de seu Aristotle in Hollywood, avança ao diferenciar o drama sério da comédia: segundo ele, no primeiro caso, a tensão dramática é reequilibrada por um reconhecimento, sem que haja perda da dignidade dos envolvidos no conflito. A comédia não tem esse apreço pela dignidade humana; pelo contrário, ela escava e encontra as protocolares indignidades do dia a dia: Sydnei (Ayo Edebiri) escovando os dentes na pia da cozinha para que o pai, acometido por uma súbita dor de barriga, use o único banheiro da casa. Carmy (Jeremy Allen White) preso na câmara fria na grande noite de inauguração de seu restaurante. Privadas explosivas, tetos mofados, famílias disfuncionais, amores que morrem. Indignidades desse troço a que chamamos de vida.

Esse conjunto de pequenas indignidades, somadas às personalidades faiscantes, está na cena que atravessa o segundo episódio desta terceira temporada. Obsessivo, Carmy estabelece uma série de parâmetros, escritos da maneira mais humana possível — num pedaço de papel, a mão, com direito a erros de grafia. A crise com as sócias e com o primo Richie é deflagrada com a notícia de que o Chef cogita mudar o cardápio diariamente. A discussão civilizada, mas veemente, entre Carmy e Sydney, logo descamba para a gritaria dos costumeiros palavrões quando Richie entra na jogada. Como quase sempre, não há banho-maria; a fervura logo transborda para as outras dimensões/direções dessa família na qual os afetos se entrelaçam ao trabalho. Quando o elétron pula do menu ao romance rompido (naquela que é a grande chave de conflitos da série — a instabilidade entre monólogos e diálogos), a discussão prossegue, mas em outro tom, com pitacos e colheradas dos que vão chegando e se queimando. Quando Marcus (Lionel Boyce), que recém perdeu a mãe, chega, diz que só o que quer estar ali, naquele pequeno inferno, mas que é seu, de todos os dias.

O que sustenta esse microcosmo de caos e organização em constante retroalimentação, é justamente a comida, o alimento, aquilo que nutre de maneira mais fundamental as existências altas e baixas (usando os termos aristotélicos), que gera energia tanto às ações mais nobres, quanto às mais ordinárias (na polissemia da palavra). É nessa ação basilar de cozinhar — ordinária no sentido de comum e incontornável —, que The Bear luta para que, das situações episódicas-cotidianas, despontem as nobrezas dos caráteres, os desafios às mediocridades mais inatas, as belezas e sabores capazes de afetar sentidos e sentimentos. A jornada de Carmy, Sydney e seu staff é para transmutar a nutrição desses corpos, destacados da multidão da cidade, em experiência de alma, pequeno céu nesse lugar de outros que, a um só tempo, são o andar de baixo e a salvação. 

Esse trajeto de pequenas brigas terrenas, feitas de apertar parafusos numa mesa (e fazer o que resta, conversar), fica evidente na transformação do discurso do pai de Sydney: no início da 2ª temporada, ele desconfia da sociedade oferecida à filha e sugere à Chef um emprego no aeroporto — “é uma desgraça diferente”, diz, deixando claro que trabalho, para quem sobrevive dele, é sofrimento incontornável. Quando, no último episódio daquela temporada, se reencontram, ele diz — “você nasceu para isso” (no inglês, um singelo “That’s the thing”). 

Nascer para isso. Sydney não sobrevive; ela vive. Talvez seja a beleza dessa crença que The Bear quer reavivar em nós, que somos dessa maioria que nasce e vive no mundo baixo da comédia. Nascer como esse homem grande, melancólico e desajeitado, cujo desafio é seguir processos que o façam descobrir alguma delicadeza nos dias, mesmo que seja para servi-la aos outros. Como esse primo brutamontes que descobre que cada segundo importa e, por isso, dirige e esgoela Love Story, música teenager de Taylor Swift que, a princípio, parece incongruente àquele sujeito, mas que, na cena, encontra todo um sentido. Como Sydney, que vai às feiras e foodtrucks reencontrar o mundo dos sabores para, depois, criar mundos dentro da cozinha.

É nesse duelo dos dias que The Bear se ergue como uma série sobre nutrir para viver as pequenas tragédias. E tentar rir disso. Comédia, portanto.