As filhas de Jane Austen

Por Felipe Cruz

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Quando um artista, independente de sua linguagem, opta por caminhar os trajetos misteriosos da simplicidade são muitos os riscos que ele passa a correr. Enquanto pode ser chamado de superficial por alguns, não será difícil que seja considerado um “reducionista” por outros, que se entregarão com vaidade e generosidade implacáveis à missão de “problematizar” aquilo que foi feito de modo simples demais.

A simplicidade, como consequência dessas tendências, vem rareando; daí que observemos a proliferação de diretores como Christopher Nolan e de séries de TV como Breaking Bad – produtos que tem a coragem (ou será oportunismo?) de problematizar (ou, talvez, fetichizar?) as questões com as quais nos debatemos desde sempre.

É praticamente impossível, portanto, imaginar hoje a estreia de uma série como Gilmore girls, que foi ao ar entre 2000 e 2007 e pôde contar, por seis temporadas, com a força criativa de uma das últimas grandes escritoras de sutilezas a trabalhar na TV, Amy Sherman-Palladino. Ambientada em uma idílica cidadezinha chamada Star Hollow (que, em si, já representa o que de melhor o sarcasmo e a doçura do seriado têm a oferecer), a série acompanha a relação entre Lorelai (Lauren Graham) e Rory (Alexis Bledel), mãe e filha que, nas palavras da criadora “happen to be more like best friends than mother and daughter”, no que a diferença de 16 anos de idade entre ambas parece ajudar bastante. Uma série doméstica, imaginamos – no entanto nunca no sentido melodramático de Desperate housewives, por exemplo, mas no tom sensato, irônico e algo melancólico de Jane Austen, uma escritora que, assim como a roteirista de Gilmore girls, nunca esqueceu que a mesa de jantar é dos campos de batalha mais antigos, acirrados e exigentes da história da humanidade.

Podemos atribuir esses adjetivos principalmente à dicção inteiramente autoral que Amy Sherman-Palladino conseguiu forjar com suas palavras, bem como com seus silêncios, pois durante os seis anos que permaneceu no programa (por uma dessas crueldades do destino, Amy foi desastrosamente dispensada do último ano da série) não houve registros que lembrassem uma impostura tendendo à preguiça no desenvolvimento de seus personagens ou à insensibilidade na expressão de suas conflituosas necessidades.

Mesmo ao espectador mais desatento, assistindo à série da forma mais condescendente, não devem escapar instantes de profunda angústia que apontam para a impossibilidade de alguma redenção (ou mesmo de mínima comunicação), tão comuns ao seriado quando suas duas maiores personagens entram em rota de colisão – pois apesar de o coração da história ser declaradamente Lorelai e Rory, este coração expõe suas feridas de maneira mais vulnerável sempre que o abismo de frustração e mágoa que existe entre Lorelai e sua mãe, a aparentemente gélida (e essencialmente solitária) Emily Gimore (Kelly Bishop) se mostra. É tarefa estéril procurar por algo na TV que supere Gilmore girls no modo devastador como retrata o violento contato entre gerações, mais estéril se torna quando acrescentamos a lição sherman-palladiniana por excelência: essa violência emana do espelhamento implacável que uma filha representa para sua mãe, e o desenvolvimento das relações em Gilmore girls se alimentará daquilo que Lorelai reconhecerá de seus erros em Rory, enquanto – relutantemente – vê-se cada vez mais nas inseguranças controladoras de Emily, a mulher que (discordem-se dos métodos) a criou. Por isso acompanharemos muito mais o processo de Lorelai para aprender a ser filha do que para compreender qual a sua função de mãe e, também por isso, a série tem como ponto de partida o ano em que Rory completa 16 anos (idade em que Lorelai deu à luz): as garotas Gilmore são evidência de que estamos não só destinados à repetição, mas também ao reconhecimento dos movimentos circulares do tempo.

Tome-se como exemplo o aparentemente inofensivo episódio em que Rory concorda em participar de uma festa de debutantes para saciar o desejo por reconhecimento social de sua avó. Passando por uma crise em seu casamento, Emily esforça-se para recriar para si e o esposo o mundo ainda ordenado de quando Lorelai tinha 16 anos e sua gravidez ainda não havia desestruturado definitivamente o núcleo familiar – logo, acompanhamos mais uma de suas tentativas em usar Rory (nome que é apenas um apelido, importante lembrar que a neta também se chama Lorelai) como um dispositivo de redenção e reparação, no que a personagem só poderá deparar-se com o desamparo. Enquanto desenvolvem-se os diálogos rápidos e afiados de praxe, eis que uma cena floresce em exposição de todos os conflitos encobertos pelos vestidos de debutante e luvas de pelica: após uma amarga discussão com o marido, Emily assiste, enfim, Rory descendo as escadas em companhia do pai: ela é a mais bela do baile e está resgatando o nome da família Gilmore diante daquela sociedade frívola. Com o olhar perdido em um horizonte que não se vê, a mãe-avó (duas vezes duplicada) dirige-se a Lorelai (que admira na filha a pessoa que nunca poderia ter sido) e implode nessas palavras: “Era para ser você ali; nada está acontecendo da maneira como deveria”. Saindo de cena, Emily abre espaço para um leve movimento de câmera que enquadra Lorelai de olhos baixos enquanto, ao fundo, meninas de 16 anos dançam sua juventude. A protagonista sempre tão verborrágica, borbulhante de piadas, independente e orgulhosa cede, nessa cena, ao peso de suas decisões e à sua impossibilidade de restabelecer o mundo como, certa vez, ele poderia ter sido. O episódio se chama Apresentando Lorelai Gilmore.

Sylvia Plath poderia ter escrito essa cena, mas o ensinamento é definitivamente de Jane Austen: não há convenção social que, ao ser olhada de perto e com atenção, não traga à tona nossa insistência em negar quem realmente somos.

Em sua afetuosa aparência de feel-good tv show é provável que poucos, pouquíssimos, tenham ido tão longe quanto Gilmore girls na investigação dos laços de família com tamanha profundidade e prazer em contrabandear sentimentos tão densos e, não raro, trágicos. Mas a contravenção maior da série é, inequivocamente, melhor representada por seus diálogos, e não apenas em razão das páginas e páginas de referências à cultura pop e erudita que contribuíram para a fama do programa, e sim, antes, pela dualidade intrincada de cada frase dita pelos atores: enquanto presenciamos um dos roteiros mais articulados e prolixos dos tempos recentes, também somos atingidos por aquilo que as palavras revelam à medida que encobrem, e é esta a herança austeniana melhor assimilada por Amy Sherman-Palladino, que compreende que não se trata de obrigar seus personagens ao diálogo quase compulsório para sublinhar aquilo que não podem dizer, mas antes de ter a paciência e o rigor necessários para fazer de cada inflexão uma expressão clara daquilo que é dito o tempo todo, no entanto sem a utilização das palavras mais fáceis e acomodadas. Quantos programas de TV podem se orgulhar, hoje, de tamanha sofisticação?

Quando se forma no ensino médio, Rory faz um discurso em que lembra que sua mãe sempre preencheu a casa com exemplos de mulheres a ser admiradas e completa: “Não sei se ela percebeu nesse tempo, mas a pessoa que eu mais quero ser é ela”. Nas lágrimas de Lorelai reconhecemos que, mesmo aterrorizados diante da reiteração dos mesmos erros, é essa repetição que pode nos oferecer algum senso de continuidade – e, não há como negar, de amor.

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