Anos Incríveis

Por Phillippe de C. T. Watanabe

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Protestos se espalham pelo país. Conflitos armados se aprofundam no mundo. O choque das diferenças culturais e políticas respinga sangue em todos ao redor. As famílias dissolvidas não podem fazer nada diante dos poderes massacrantes das nações que não se entendem; restam o constante sentimento da perda e a breve esperança de um futuro menos cruel. Aqui é 1968…2015. São Anos Incríveis.

Anos Incríveis (The Wonder Years, 1988-1993), criada por Carol Black e Neal Marlens, é política, cultura, música; é um olhar tão íntimo no coração da sociedade que chega a causar nostalgia. Kevin Arnold, o narrador adulto (Daniel Stern) e invisível que olha para si criança (Fred Savage) e, saudoso, conta o seu percurso da infância até a vida adulta, provoca isso em nós ao falar de forma tranquila e amistosa sobre o passado.

Na série, a voz, em especial a voz-over, torna-se um instrumento poderoso. Além de nos guiar visualmente – é ela que relembra e, por isso, faz tudo acontecer –, é ela também que nos dá o sentido do que se passa na tela. A voz-over que narra a trama, a todo momento, explora os significados daquilo que estamos vendo. No episódio piloto, após conhecermos o protagonista e vermos um típico jantar da família Arnold, que, em instantes, transforma-se em briga graças à figura quase sempre estressada e autoritária de Jack Arnold, a voz do narrador já guia nossas ideias. “Eu acho que esse foi meu último verão de infância pura, plena”. A outra ponta da voz que se mostra essencial na série é a música.

Os anos se passavam e, enquanto inúmeras outras séries e filmes eram lançados em DVD, Anos Incríveis permanecia como algo a ser visto pela internet ou, no máximo, em algum canal que se dispusesse a transmiti-la. O sucesso da série, que frequentava quase anualmente o Emmy Awards e o Globo de Ouro – levou os Emmys de Melhor Série de Comédia, Melhor Roteiro em Série de Comédia, Melhor Direção em Série de Comédia, e o Globo de Ouro de Melhor Série de Comédia/Musical em 1990 – não parecia condizente com a demora para o lançamento de seus DVDs. Descobriu-se, então, que Anos Incríveis pagava o preço por sua vasta trilha de época, repleta de músicas icônicas principalmente da segunda metade do século XX. Sem a liberação de direitos autorais das músicas o lançamento era impossível.

A icônica abertura de Anos Incríveis já demonstra todo o poder explosivo contido na série. Sua pólvora vem pela voz rouca de Joe Cocker cantando uma música dos gigantes Beatles em um dos maiores eventos simbólicos da contracultura – Woodstock. As referências superlativas são a demonstração, já logo de cara, que qualquer acontecimento referente a Kevin Arnold e seus amigos não é um acontecimento qualquer. O dia em que houve um protesto dos alunos contra a Guerra do Vietnã não é um dia qualquer. Uma noite em frente à TV, com homens em preto e branco trajando roupas estranhas e capacetes e dando seus pequenos passos, não é uma noite comum. A vida no final dos anos 60, não é uma vida comum.

Os roteiristas da série, ao tratarem de um momento de forte ebulição política e cultural, procuraram caminhos simples e acertados. Kevin e seus amigos, em nenhum momento, tornam-se inverossímeis. A tentativa sempre é os aproximar o mais da realidade, transformando-os em protagonistas de suas próprias vidas, mas coadjuvantes, figurantes no momento histórico que vivem. O contrário do que acontece, por exemplo, em Forrest Gump, no qual o protagonista participa ativamente e influencia a história mundial.

Talvez pensando exatamente em não “destacar” o protagonista, tornando-o centro das atenções do seu cotidiano, fizeram dele o filho mais novo da família Arnold. Sua irmã mais velha, a hippie Karen Arnold (Olivia d’Abo), parece ser um dos focos de atenção da casa. Seu posicionamento e engajamento político no cenário vivido a fazem a personagem de destaque e atenção dentro da família. Jack (Dan Lauria) – a figura do pai sempre nervoso, relacionando tudo ao trabalho e à dinheiro – é o que mais se afeta pelas ações de Karen. Sua parcela de conservadorismo de subúrbio entra constantemente em choque com a liberdade defendida pela filha. Norma (Alley Mills) – a presença materna que está sempre pronta para ouvir todos os lados e apaziguar os ânimos – parece entender melhor os anseios da filha. Finalmente, Wayne (Jason Hervey), o irmão do meio que, além das preocupações em relação ao fraco desempenho na escola, só costuma proporcionar, dentro e fora de casa, provocações a Kevin e barulhos oriundos de seu sistema digestivo.

Com o quadro fotografado da família Arnold, fica a impressão de um retrato raso, igual a tudo mais que já se fez sobre o subúrbio norte-americano. Contudo, assim como em Revolutionary Road, Beleza Americana, Mad Men, entre outros, o subúrbio e seus componentes são questionados e desmontados. O papel de pai severo, que não escuta sua família e só dá ordens, é rasgado quando Kevin, em uma visita ao escritório do pai, vê Jack sendo duramente repreendido por seu chefe que, aos gritos e sem se importar com a presença do garoto, interrompe cada tentativa de explicação. Nesse momento, parece ficar mais claro para Kevin o motivo do bordão recorrente de Jack: “Trabalho é trabalho”. O papel de mãe, que existe somente como tal, é amassado e jogado fora quando Norma se depara com as dificuldades da dupla jornada – seu emprego e mais o trabalho em casa, já que a divisão de tarefas é algo que parece acontecer em pequena escala na residência Arnold –, além da resistência, dentro da própria casa, a sua verdadeira ocupação profissional. O trabalho não apreciado vem acompanhado da busca frustrada por satisfação pessoal. Quando Norma tenta se divertir e se mostra contente com suas atividades – como as aulas de cerâmica –, sente-se completamente ignorada e desmotivada pelo pragmático Jack. Afinal, “Artesanato não te levará a lugar algum”.

O círculo de personagens principais de Anos Incríveis se completa com Paul Pfeiffer e Winnie Cooper. Enquanto Paul teme o mundo todo, e parece ser alérgico a ele, Winnie tem ímpeto para explorar possibilidades – o que se revela, de modo mais intenso, no final do último episódio. Grandes temas da série passam pela garota, como mudanças nas estruturas familiares e a Guerra do Vietnã. Os três juntos formam o núcleo da maior parte das aventuras de ser uma criança e adolescente nos anos 60/70.

Anos Incríveis é uma série que continuará a marcar e influenciar pessoas. Os assuntos de que trata se refletem em cada um, no nosso dia a dia, nas nossas famílias e amizades. Anos Incríveis, no fim, trata do principal ponto na vida de todo ser humano – nossa relação com a história. Mostra o que a história pode fazer na vida de uma pessoa, e o que uma pessoa pode fazer na história.