Sobre encarar abismos

Por Felipe Cruz

finding-dory

(…)

No centro do seu corpo irrompe um precipício

de duas bordas que se tornam estranhas uma à outra.

Sobre uma das bordas, a morte, sobre outra, a vida.

Aqui o desespero, ali a coragem.

(…)

Autonomia, Wislawa Szymborska

 

É inspiradora a maneira como Procurando Dory extrai da condição pouco lisonjeira de continuação de um grande sucesso financeiro o centro nevrálgico de sua estrutura dramática: é na repetição de situações com as quais o público se familiarizou na última década que a animação dos estúdios Pixar acolhe o viés trágico de Dory que, em um golpe certeiro de roteiro do filme original, tornou-se tão amada a ponto de garantir a existência dessa sequência.

Enquanto dispositivo narrativo, a repetição é compreendida com impressionante inteligência e sensibilidade por Andrew Stanton, que retorna à direção: as situações que em Procurando Nemo eram, em sua maioria, gatilho para um humor, principalmente, de gags, retornam agora redimensionadas em sua potência para a melancolia e o desencanto; e desde os primeiros momentos do filme compreendemos que a personagem que tanto nos fez rir 13 anos atrás é, na realidade, um indivíduo desprovido do elemento fundador de qualquer identidade: o senso de história.

Dory não consegue lembrar o essencial – de onde veio; no entanto é assombrada pela certeza de que esqueceu algo que não poderia ser perdido em hipótese alguma, o que não apenas coloca em jogo sua capacidade mental, como também sua limitação brutal para estabelecer laços de afeto (aqueles, que tudo constroem).

Assim Stanton opta pelo caminho de, como no filme original, desconstruir seu protagonista para reduzi-lo àquilo que o distingue – e o que distingue Dory é uma deficiência; e não como a de Marlim, que podia e devia ser superada no primeiro filme, mas uma condição com a qual ela será obrigada a conviver, submetendo-se às suas incontornáveis limitações.

Essa leitura da narrativa pode passar a ideia de que, mais uma vez, fala-se de uma produção da Pixar com aquela aura algo fetichista de produções que, apesar de seu apelo mercadológico, atingem uma excelência lírica inegável, a ser melhor percebida pelos adultos do que pelas crianças. É fácil impor essa perspectiva a filmes de estilo mais autoral (como Ratatouille e Divertida Mente), mas Procurando Dory dificulta esse procedimento ao deixar muito claro que, para Andrew Stanton e sua equipe, não se trata de definir dois níveis de leitura para a obra – trata-se, antes, de alcançar certo efeito narrativo reconhecendo que a tentativa só é possível por estarmos assistindo à continuação de um sucesso de bilheteria que, aparentemente, a maioria esmagadora do público guarda como uma preciosa memória afetiva.

A estrutura conservadora da animação não surpreende se considerarmos que Procurando Nemo jogava de acordo com o cânone narrativo que reconhecemos desde a mais alta antiguidade, mas chama atenção em Procurando Dory a radicalidade com que o filme se aprofunda no drama de sua protagonista, constantemente em busca de representações orgânicas para as sensações conflituosas de Dory.

Observe-se o esquematismo com que é apresentado o cotidiano que Dory cria para si: são blocos de cenas que, na repetição de informações básicas (“Oi, meu nome é Dory”, “Continue a nadar”,etc), evidenciam a impossibilidade de a personagem perceber a evolução do tempo, justamente pela incapacidade de compreender que sua vida é uma contínua repetição da mesma cena, do mesmo começo. Ela não pode ir adiante enquanto não trouxer à tona o seu passado, e é quando surge a memória seminal de sua vida que ela adentra, violentamente, o fluxo do tempo, da vida e da morte (tão bem representados pelas correntes marinhas que os personagens percorrem e contra as quais nadam). Em oposição a essas cenas repetitivas (primeiro engraçadas, depois aflitivas e, por fim, trágicas) temos o longuíssimo plano escolhido para registrar o instante em que Dory recebe a notícia da morte dos pais: ao invés do corte ágil que evidenciaria o esquecimento típico da personagem, Stanton opta pela duração aterrorizante de um plano-sequência que parece não ter fim – em uma atmosfera de pesadelo, Dory é atirada de um recipiente a outro, depois ao chão, ao esgoto e, finalmente, ao fundo do fundo do mar e, em nenhum instante, seus olhos se fecham; aquilo não poderá ser esquecido – criou-se uma memória e, a partir dela, a personagem é introduzida ao sofrimento.

O lema tantas vezes repetido pelas personagens durante a animação (“O que Dory faria?”) não é apenas a celebração das capacidades de sobrevivência surpreendentemente bem desenvolvidas de uma personagem deficiente, é antes o reconhecimento de que compreende melhor a vida aqueles que mais se debateram contra ela: não à toa o último plano de Procurando Dory mostra sua protagonista ensinando a um amigo como se olha para o abismo que nos rodeia a todos – com respeito, delicadeza e sem piscar.

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