Shanghai Blues

por Álvaro André Zeini Cruz

1937. A noite da vibrante Shanghai estremece sob um bombardeio. Tung Kwok-man (Kenny Bee) — um compositor que faz bico de palhaço — se abriga debaixo de uma ponte, assim como Shu (Sylvia Chang), uma dançarina de cabaré. Protegem-se e, diante da iminente bifurcação dos destinos (Tung partirá para a guerra), prometem-se sobreviver, ainda que, naquele instante, estejam cercados pelo inferno pictórico de um vermelho artificialmente ardente. O maneirismo da cor anuncia a reconstrução deformada, porque se dá a partir de destroços, que Tsui Hark dirige no reencontro anos depois, quando ambos se reencatam sem se reconhecerem.

É nessa Shanghai labiríntica e pulsante que Hark opera encontros e desencontros, num espaço reerguido aos trancos e barrancos. É uma Shanghai de retalhos vivos, mas com movimentos disformes que propiciam os maus entendidos e as gags. A cena que vai acrescentando personagens incógnitos dentro de um apartamento é a síntese da mise en scène de esconde-esconde onde todos se veem, mas ninguém se enxerga.

A cena começa quando Tung — também conhecido como do Do-Ré-Mi — convence Shu a subir até seu apartamento para arranjar-lhe roupas secas, depois de terem sido apanhados pela chuva. Shu titubeia, mas aceita a oferta. Nenhum deles suspeita que há um Ladrão dentro do apartamento, porque, assim que entram, o sujeito consegue se esgueirar para outro cômodo, separado por uma porta de tábuas mal ajambradas. Mas Shu precisa se trocar, e para dar privacidade a ela, Tung segue para o esconderijo do Ladrão, que, no típico timing de uma fração de segundo, se enfia dentro de um barril. Tung e Shu demoram alguns instantes até notarem que, naquela casa de escombros bricolados, não há privacidade, já que há sempre uma janela, uma fresta ou um buraco à espreita. Dão de cara um com o outro e, desconcertados, correm em convergência; na gag de comédia romântica, tromba-se seminus.

Inicia-se um intrincado jogo de gato e rato, sem que os gatos tenham ciência da quantidade de ratos que há ali, ou que está por vir. Isso porque logo chega a vez de Shu se esconder: ela não quer ser flagrada pela melhor amiga, Stool (Sally Yeh), também apaixonada por Tung (e a situação se torna mais suspeita agora que Shu veste uma camisa dele). Mas Stool é insistente e não basta a Shu manter-se incógnita atrás das paredes; ela se esconde num cômodo-armário, enquanto Stool pula a janela, obrigando o Ladrão — que se escondia sob o parapeito — encontrar outro esconderijo. Agora é Shu quem se esconde, mas observa, com caras e bocas, as outras duas pontas do triângulo pela abertura proporcionada por uma tábua quebrada.

Batidas na porta fazem com que Stool também se esconda; temendo que seja Shu, ela vai para o mesmo armário onde a própria Shu está. As roupas nos cabides — corroboradas pelo pacto com a verossimilhança da farsa — impedem que elas se vejam, uma circunstância improvável sob um realismo rigoroso, mas característica dessa comédia romântica farsesca-marxista; não por conta do velho Karl, mas pelos irmãos homônimos, dados a esse tipo de estripulia cênica (assim como Keaton, Lloyd e Chaplin). Quem chega é o Professor, cujo corpo camufla o Ladrão (antes atrás da porta), que, por sua vez, se esgueira para seu último e mais estapafúrdio esconderijo — uma bacia (penico?), que o sujeito segura ridiculamente sobre a cabeça.

A situação finalmente termina quando o Professor vê Shu pelo buraco e, ao dizer “ladrão, saia!”, revela não a moça, mas o próprio Ladrão a suas costas, sob o penico. É Stool quem, então, sai do armário, e do triângulo amoroso, passamos a um quadrilátero financeiro: Do-Ré-Mi anuncia que o Ladrão de óculos escuros foi quem roubou o dinheiro dela, mas o Professor recém-chegado foi quem o gastou. O Ladrão — o único que tudo viu — anuncia “mais confusão por vir” e revela Shu, sobrepondo o conflito de ordem prática por outro mais complicado — o romântico. O corte rente a um espirro de Shu revela as duas amigas estremecidas, mas Stool, a rival apaixonada, será essencial no desenlace da trama, quando reenlaça esse amor alheio, sobrevivente ao apagamento dos rostos, teimoso em se reencontrar através de identidades mais profundas. Comédia romântica delirante que, entre a farsa e a tragédia, faz rir e palpitar, não nessa ordem, mas pela mise en scène de um caos recalculado.