Sementeiras

por Álvaro André Zeini Cruz

Acordei pensando em Sementeiras, curta-metragem que venceu o prêmio de melhor filme ambiental no último Filma Bauru. Mais especificamente em detalhes reiterados nos planos de duas personagens: a sigla NYC estampada em uma camiseta branca de mangas longas, e o Mickey Mouse — acompanhado de seu fiel escudeiro Pluto — a postos em uma blusa vermelha.

Seria um dado imagético desimportante se estivéssemos diante de uma ficção contemporânea, sobretudo se alinhada ao classicismo de determinados gêneros, como a comédia ou infanto-juvenil. Mas Sementeiras é um documentário que transporta essas formas, industrializadas pela reprodutibilidade técnica, a um universo distante de certo imaginário concatenado sobre Nova Iorque ou sobre a Disney. É no peito de duas trabalhadoras assentadas que essas imagens aparecem como um punctum contrastante, intruso.

As letras garrafais em estamparia padronizada se impõem na roupa de Arayana Fernandes, mas contrastam o chapéu estilo pescador cujo capuz protege a nuca da exposição ao sol. Em um pequeno galinheiro feito de tábuas e lençóis, Arayana apanha ovos, colocando-os com cuidado num cesto plástico cor-de-rosa. Está na companhia da sogra, Bete. Juntas, falam sobre as diferenças entre galinhas caipiras e poedeiras, e da labuta nessa criação; pelo menos até serem interrompidas por uma das galinhas que está “subindo para botar”. Bete pontua: “elas são bem artistas”. 

A palavra artista desponta entre a ingenuidade e a ironia, lado a lado do símbolo que representa a mais representada das metrópoles, sem que ela de fato apareça. Nova Iorque pode se insinuar em alguma lembrança, como Anne Hathaway e Meryl Streep sob peles finas entre as ruas de Manhattan, ou pelo verão quente e sufocante que abre o primeiro parágrafo de Redoma de Vidro, mas, ali, está confinada a esse tipo de contraste pouco visto, pouco pensado, mas que a imagem revela a quem quer ver.

Para quem frequentou as aulas de Geografia, não é segredo que a globalização retroalimenta uma lógica competitiva global em que signos hegemônicos escamoteiam ideologias, ao passo que cooptam sonhos e atenções a partir da fetichização do produto (claro, trago a globalização não por um ponto de Poliana-desenvolvimentista, que atende aos anseios do capitalismo, mas pela visão mais crítica de teóricos como Milton Santos). Nova Iorque é, sem dúvida, a cidade-fetiche do cinema estadunidense, o que por si só é um contrassenso, já que esse cinema é, primordialmente, realizado na outra ponta do país, e a metrópole do Empire State Building é, hoje, quase sempre produzida no Canadá. Mas, em Sementeiras, NYC está no Juquery, no assentamento Dom Tomás Baldino, nessa imagem que a reduz a uma representação gráfica tão intrusa quanto aleatória (fosse outra diária, seria outra peça de roupa, outra estampa), numa conjugação que, se por um lado, revela o trânsito e a persistência hegemônica, por outro, a soterra sob a vida do plano — os fenômenos rotineiros, os discursos sobre o trabalho, o star system usurpado pela galinha exibida.

Quantos signos como este, sub-reptício, não se apresentam em nossas imagens em decorrência de sua intrusão massiva no mundo real? Quantos não nos são praticamente invisíveis por uma falsa naturalidade cotidiana? Quando filmei Palhaços, ignorei completamente a infiltração de uma garrafa de Coca-Cola numa cena de almoço; precisou outro olhar me apontá-la ali, quase “ocultamente evidente” entre a conversa conjugal à mesa. Talvez isso tenha tornado para mim o Mickey Mouse um punctum, esse detalhe capaz de rasgar a imagem e atravessar antes o olhar. Estendendo um osso a Pluto, Mickey está na camiseta de Maria Vilma dos Santos, mas o depoimento dela, em meio à mata, não fala de castelos como os dos parques e da vinheta que abre as animações, mas do início daquele assentamento, quando, primeiro, moraram em barracas, antes mesmo de terem energia elétrica.

Fiquei imaginando: o que pensaria Mickey Mouse se tivesse ali energia própria, autoconsciência? Quais as experiências que o camundongo animado poderia ter tido análogas as daquelas mulheres, que ali, na tela de cinema, mostram os frutos da cumplicidade e do trabalho em cooperativa? Talvez Mickey só pudesse se lembrar dos infortúnios vividos em “O Pequeno Furacão”, ou ainda fazer uma breve aproximação com o plantio em “Mickey e o Pé de Feijão”. Não se pode dizer, no entanto, que Mickey Mouse é um sementeiro, muito embora a licença de sua imagem o imprima em panos de preços variados, fazendo do simpático roedor essa erva daninha espraiada dos parques de diversão às lojas de departamento; das crianças ricas aos corpos como o de Vilma, que personificam labutas árduas, lazeres contidos e direitos sonegados.

Não é a primeira vez que um personagem intruso capta meu olhar em um filme que não lhe é próprio: em meu texto sobre Noites Alienígenas, falo sobre a contraditória participação de um herói da Marvel no primeiro longa-metragem acreano. Em Sementeiras, Mickey e Pluto sorriem, aparentando indiferença quando Vilma fala da fome e de outras faltas, mas é possível também serem sorrisos embaraçados por descobrirem que “It’s not a small world after all”. Ou, simplesmente, por presenciarem sonhos que podem parecer-lhes pequenos, embora não o sejam de fato. Se, no meio do filme, Vilma diz que seu sonho era ter um pedaço de terra, no desfecho, sentada num sofá rente à parede simples de tijolos à vista, ela afirma que seu futuro está ganho. Então, num passe de mágica, Mickey Mouse é reduzido a uma presença irônica, invasora dessa outra terra dos sonhos, que nada tem a ver com aquela propagandeada de inúmeras formas por Walt Disney. De quebra, a apropriação do personagem por um curta documental brasileiro, interiorano, produzido por um coletivo de mulheres, sobre mulheres sem-terra, lembra que fazer cinema não é levar Ingrid Guimarães a Nova Iorque ou Eduardo Sterblitch a Orlando; é trazer Mickey Mouse ao Brasil, lembrando-o de sua devida posição invasora, sem permitir que haja conquista, colonização. Se olho para Mickey é porque o quadro cinematográfico o transmuta em hematoma. Afinal, cinema não é sobre marcas; é sobre cicatrizes.