Sem Coração & Saudade fez morada aqui dentro

por Álvaro André Zeini Cruz

Os adolescentes usam o cercado à beira da praia como um trepa-trepa de parquinho; sobre as madeiras, posam imóveis, quase como se estivessem no plano final de O Passo Suspenso da Cegonha. Então, no canto direito do quadro, um dos garotos avista algo no extracampo. Interrompendo a imobilidade posada, grita — “ô, Sem Coração!”. Antes do ponto de vista dele, vemos o close de Tamara, posto ali justamente para usurpar a subjetiva seguinte: é pelos olhos dela que vemos, distante, uma garota entrar em quadro pedalando, o vermelho da blusa e da bike compondo-a como um ponto contrastante diante das palmeiras imensas e verdejantes, vivas sob a ação do vento.

Sem Coração acompanha um grupo de Capitães da Areia mais diverso do que é o bando de Jorge Amado, com crianças e adolescentes de diferentes classes sociais. Expostas a um sol rançoso, que dá uma aura pasmacenta aos dias, essas adolescências convivem sob (e não “com”) um rigor plástico que sintetiza personagens e espaços, tornando-os uma coisa só. Com algum mal-estar, são meninos e meninas que parecem lidar com uma consciência sorrateira de que as escolhas e os desejos tornam aquele um verão derradeiro, ponto final melancólico a um coming of age dado a alguns, não a todos. Desbravam locações que são mais paisagens do que cenários; nesse sentido, antes de serem desbravadores, são elementos visuais dessas composições meticulosas, que guardam uma distância segura, encarando a adolescência também com uma paisagem; o tempo submisso à espetacularidade da luz e dos espaços.

Saudade fez morada aqui dentro também representa adolescências, mas sob o registro de uma câmera propositalmente desleixada (o propósito não anulando o desleixo). É até possível conjecturar que, numa trama sobre um garoto que perde a visão, o trabalho de câmera tenta priorizar um caráter mais háptico, mas as texturas, a visualidade tátil não são exatamente uma preocupação do filme (a não ser, talvez, nas cenas na pedreira). Assim, a direção se rende ao contemporâneo registro dos rostos rentes, crendo numa espécie de proximidade orgânica, como se o melodrama precisasse disso para comover ou para se tornar familiar. Como se a atuação de Bruno Jefferson precisasse de uma lupa para ser devidamente vista e sentida.

É a interpretação do garoto que estabiliza o filme, que move e comove, a despeito dessa câmera que tudo quer olhar sem saber o que ver. De certa forma, é uma câmera cega, que tem a sorte de encontrar um novo sentido no trabalho sensível dos atores. Aliás, para além da adolescência, o que conecta os filmes é, justamente, a escalação certeira de elencos jovens que conseguem contornar o rigor, engessado em sentidos opostos, das duas direções. Maya de Vicq, Eduarda Samara e cia. desfibrilam essa mise en scène de sol frio e contemplação distanciada e recuperam, a Sem Coração, alguma pulsação. Junto dos também jovens Ronnaldy Gomes e Angela Maria, Jefferson transita entre o melodrama e o naturalismo; constrói uma atuação vertebral, que se desvencilha dos borrões da câmera, devolvendo ao filme um centro e, consequentemente, um olhar. 

Curiosamente, ver Sem Coração e Saudade fez morada aqui dentro em sessões próximas deixa a impressão de que o que falta aos filmes é (se fosse possível) uma mútua “contaminação”: falta a Sem Coração o desassossego, a arritmia formal que sobra no filme de Haroldo Borges; o travelling circular que encerra Saudade fez morada aqui dentro seria ainda mais contundente se a câmera tivesse apresentado antes, ao longo do filme, um contraste, um conjunto de planos com a estabilidade distante e imperturbável da direção de Nara Normande e Tião.