Prova de redação n° 2

por Álvaro André Zeini Cruz

A pesquisa em comunicação contemporânea se debruça sobre questões epistemológicas levantadas pelo multiculturalismo e pela crítica decolonial, compreendendo e defendendo a necessidade de um olhar vigilante, que desnaturalize o olhar eurocêntrico, colonial e patriarcal. Nesse sentido, visa o que Jensen chama de “uma encruzilhada interdisciplinar”, que busca repensar a complexidade da comunicação a partir de uma mudança na correlação de forças entre o que Jesús Martín-Barbero chama de poder hegemônico e subalternizados.

Segundo Shohat e Stam, o eurocentrismo é uma epistemologia ocultada por poderes hegemônicos, um modelo de mundo colonizador que segue operante, introjetado sob as superfícies, reduzindo a diversidade da experiência humana a uma perspectiva única e paradigmática. Para os autores, o eurocentrismo se sustenta sobre uma trajetória histórica linear do trânsito de poder (Grécia-Roma-Europa), na amnésia seletiva das violências e opressões (a queima de documentos relacionados à escravização sendo um exemplo dessa operação no Brasil) e na apropriação cultural, que transforma outras culturas em influências vagas. A aplicação desse eurocentrismo gera um modelo de binarismo entre o “centro” e o periférico (reduzido, segundo Rita Segato, ao exótico ou folclórico), gerando como sintoma outros binarismos: nação/tribo, religião/superstição, arte/artesanato. 

A superação desse modelo eurocêntrico deve se dar, justamente, pela diluição dessas dicotomias artificiais, e é nesse sentido que Rita Segato defende a antropologia como uma ciência “por demanda”, onde a pesquisa deixa de ser sobre o outro e passa a ser com o outro e a serviço do outro. Assim, a pesquisa dispõe suas ferramentas teóricas e metodológicas a serviço de projetos de autonomia, da luta por direitos e da sobrevivência, entendendo o informante não como “sujeito vivo”, mas como um interlocutor, representante de uma cultura que não é estanque, mas entendida como vetor de um passado e de um futuro compartilhado. A “antropologia por demanda” de Segato vai ao encontro do que Jean Rouch, no cinema, chamou de “antropologia compartilhada”. Em filmes como “Crônica de um Verão” e “Eu, um Negro”, Rouch retrata as personagens com uma horizontalidade que as reloca ao papel de interatores dos filmes.

A ideia do informante transformado em interlocutor também aparece no trabalho de Roberto Cardoso de Oliveira, que defende que esse movimento proporciona uma fusão de horizontes semânticos, isto é, de saberes que se encontram, se tensionam e se modificam mutuamente. A alteridade se dá entre “iguais teóricos”, num movimento que visa superar assimetrias de poder.

O esforço comunicacional não é, portanto, por um pluralismo que mistura e tolera vozes, mas mantém uma relação de dominação, é por um multiculturalismo policêntrico que entende o mundo como vários centros dinâmicos, com historicidades, epistemologias e critérios de valor próprios. Assim, a pesquisa em comunicação deve analisar mídias e plataformas como campos de batalha simbólicos, disputa de representações num espaço que não é neutro. Autores como Tarcísio Silva e Gisele Beiguelman exemplificam essa não neutralidade ao abordarem a questão do racismo algorítmico, reflexo de um racismo estrutural histórico. No livro organizado por Silva, a autora Ruha Benjamin defende que, para desvelar a “imaginação carcerária” racista, codificada em bancos de imagem e sistemas informacionais, é preciso tomar como ponto de partida a experiência — segundo Jorge Larrosa, “o que nos passa, o que nos acontece, o que nos toca” — do sujeito racializado, produzindo resistências numa “Aquilombagem digital”.

É preciso retomar que a ciência não é estanque; pelo contrário, como defende Popper, é feita da possibilidade da falha, da lacuna, aberta a contestações. Feyerabend avança contra o cientificismo e na defesa de um fazer científico que reconheça outras formas de conhecimento. É nesse sentido que se coloca o pensamento de Eduardo Viveiros de Castro, que defende que se encare a sério o pensamento nativo como uma metafísica outra, que possibilita uma práxis da descolonização permanente do pensamento. O pensamento de Viveiros de Castro vai ao encontro do fazer científico, principalmente no conceito de uma “equivocidade controlada”, que advoga assumir o equívoco, o ruído, a falha entre dois mundos conceituais para permitir que os conceitos do outro sejam deformem e transformem nosso dispositivo conceitual. Dessa forma, Viveiros de Castro conversa com o que Edgar Pêra chama de “espanto” no fazer científico e educacional, uma ruptura que nos leva a deixar a arrogância e a criar novas imagens de nós mesmos.

É preciso, portanto, que a pesquisa interdisciplinar em comunicação seja, como defende Morin, transdisciplinar para contornar dinâmicas de poder que, hoje, se consolidam, sobretudo, como o que Zuboff chamou de “capitalismo de vigilância”. Nesse sentido, é preciso aplicar o que Jensen chamou de “hermenêutica da suspeita”, recusando a superfície gentil das mensagens para buscar os motores ideológicos profundos. É no movimento de curadoria e veto, defendido por Flusser, que a comunicação pode caminhar rumo a uma sociedade telemática dialogante, onde os sujeitos não só apertem botões, mas que hackeiem sistemas e discursos dominantes para que, dessa operação, todo e qualquer sujeito deixe de ser mero objeto ao olhar (do outro, da máquina). Para que a comunicação se dê por e para sujeitos com autonomia, no sentido freiriano de ser e pensar.