Projeto Renascer

por Álvaro André Zeini Cruz

Apresentação

Esta semana, a Globo anunciou oficialmente, na Rio 2C, o remake de Renascer, novela das oito de Benedito Ruy Barbosa, dirigida por Luiz Fernando Carvalho e exibida entre 8 de março e 14 de agosto de 1993.

Renascer foi meu objeto de pesquisa de doutorado, que resultou na tese intitulada Renascer: narrativa cordial e estilo maneirista na telenovela brasileira.

Já há algum tempo, percebo certa curiosidade pela novela e acho que esse interesse se dá por diferentes motivos. Alguns deles: a nostalgia como valor em voga no audiovisual, o fato de Renascer entremear dois dos trabalhos mais lembrados de Barbosa — Pantanal (1990) e O Rei do Gado (1996) —, além de ser a estreia de Luiz Fernando Carvalho na direção geral de uma telenovela.

Por conta desses “renasceres” acerca da novela, decidi remexer na tese, tentando sintetizar algumas das principais questões por mim trabalhadas, readequando-as à linguagem das redes. O objetivo é produzir um material que será dividido numa série de posts, que serão veiculados tanto no meu Instagram pessoal, quanto nas páginas da Revista Pós-créditos.

Enquanto a nova versão não chega, voltemos à saga original de José Inocêncio (que está na Globoplay) e seus quatro filhos — três Josés e um João…

Bem-vindos ao Projeto Renascer.

Parte 2

Renascer está entre minhas mais antigas memórias televisivas: a imagem de Antônio Fagundes numa cadeira de rodas, transitando pelas terras de cacau de seu personagem, na televisão de meus avós. Na sala de estar, uma rotina bem brasileira: minha família (como tantas outras) assistia ao coronel José Inocêncio desafiar aqueles “confins de mundo” vastos e misteriosos, que marcaram o Álvaro de 5 anos de idade.

A reprise do canal Viva, em 2012, possibilitou que eu voltasse à Renascer e suprisse as lacunas em torno daquela imagem perdida da infância. A desconfiança de que aquela era uma trama especial se confirmou com o deslumbramento pelas imagens baseadas num espaço e tempo muito singulares, diferentes das de tantas outras novelas.

Quando decidi estudar Renascer, parti, então, do que havia me encantado — o estilo. Segundo o teórico do cinema David Bordwell, o estilo é “a textura das imagens e sons” (2013), “porta de entrada para […] nos movermos na trama, no tema, no sentimento” (2008). De forma mais pragmática, pode-se dizer que o estilo se constrói a partir da direção (da mise en scène, mas isso é assunto para mais adiante), da montagem e do som.

Na televisão, o estudo do estilo tem sido subestimado. O teórico Jeremy B. Butler atribui esse descaso ao fato de que a TV tem uma estética da espontaneidade. Isso não significa que as imagens televisivas sejam realmente espontâneas, muito menos que tenham que parecer assim (e, apesar de seguirem um estilo recorrente, as telenovelas estão longe de serem espontâneas!). Na História das novelas, há títulos que seguiram determinados padrões, assim como há os que os romperam.

Com muitas cenas externas, e uma decupagem baseada em planos longos e movimentos de câmera, Renascer esteve entre as tramas que romperam certos padrões das telenovelas (e não só nos primeiros capítulos, como de costume). Esse estilo próprio serviu para apresentar um universo narrativo incomum de se ver (até então) no horário das oito.

Mas a trama é assunto para um próximo post.

Glossário:

Decupagem: é o processo no qual o diretor transforma o roteiro em planos, que irão compor as cenas. Decupar envolve a decisão de onde colocar a câmera (e em quantas “vistas”) e por quanto tempo deixá-la até o corte (isto é, até o próximo plano).

Montagem: processo realizado ao final da gravação, em que são escolhidos e organizados os melhores planos para “montar” a narrativa. No caso da novela, planos montam cenas, que montam capítulos. Também conhecida como “edição”.

Plano: unidade mínima da imagem em movimento. Envolve o enquadramento (distância entre a câmera e o ator) e o tempo de registro da ação (há planos curtíssimos e muito longos, muitas vezes chamados de planos-sequências).

Bibliografia:

BORDWELL, David. Figuras traçadas na luz. Campinas: Papirus, 2008. 

___________, David. Sobre a história do estilo cinematográfico. Campinas: Unicamp, 2013. 

BUTLER, Jeremy G. Television style. Londres: Routledge, 2010. Kindle ed. 

Parte 3

Antes de irmos à trama de Renascer, precisamos contextualizá-la considerando a importância da telenovela na cultura brasileira. No ar diariamente desde os anos 1960 e assistida por milhões de espectadores (aqui e no mundo todo), a telenovela tem variado entre espelho e retrato da sociedade brasileira.

Nem sempre foi assim: as primeiras novelas nada tinham a ver conosco (basta dar um Google em O Sheik de Agadir para entender do que estou falando). Mas, a partir de Beto Rockfeller (1968), elas estiveram mais atentas a personagens e questões da realidade brasileira, como as diferenças sociais e a vida nas cidades.

A urbanização, aliás, foi tema recorrente nas novelas das oito: enquanto o horário das seis priorizava tramas rurais e adaptações literárias, e o das sete, histórias cômicas e ligeiras, a novela das oito trabalhou junto ao Jornal Nacional para construir a “identidade nacional” de um país que se modernizava.

O conceito de “identidade nacional” se relaciona com o que o autor Benedict Anderson (2008) chama de “comunidade imaginada”. Numa síntese já aplicada ao nosso contexto, trata-se de uma construção cultural que cria a ilusão de que uma nação como o Brasil é uma comunidade horizontal, onde mesmo os que não se conhecem, se reconhecem. No nosso caso, a cultura é responsável por imaginar — e mostrar! — um país em que o tamanho continental e o caráter pluricultural são atenuados para que se crie uma impressão de unidade e modernidade. 

É preciso assinalar que essa identidade nacional televisionada é complexa: se por um lado, permite com que nos reconheçamos na tela, por outro, promove agendamentos — e, às vezes, simplificações — de temas, questões, culturas. A uniformização e a modernização, por exemplo, foram valores sublinhados em nossa identidade nacional para atenderem à ditadura militar — afinal, um país que se vê a partir de “ordem e progresso” é mais fácil de ser controlado.

Mas a telenovela é um corpo complexo, uma vitrine de comportamentos, desejos e consumos (HAMBURGER, 2011), que negocia entre ser uma “fantasia reconfortante” (BALOGH, 2002) e “um fórum de debates do país” (LOPES, 2003). A palavra negociação não é colocada aqui à toa: ela é valor central na abordagem dos Estudos Culturais, que empresto em minha análise de Renascer.

Nessa perspectiva, a telenovela não é só boazinha ou só malvada, só progressista ou só conservadora. Ela é de tudo um pouco, porque negocia antenada com a sociedade e com a própria televisão. Renascer, por exemplo, nasce de uma negociação com a trama anterior de Benedito Ruy Barbosa — Pantanal. Mas isso é história para depois…

Por ora, fiquemos com as palavras de Sr. Rachid, personagem Luiz Carlos Arutim em Renascer: “novela é muito importante”.

Bibliografia:

ANDERSON, Benedict. Comunidades imaginadas: reflexões sobre a origem e a difusão do nacionalismo. São Paulo: Companhia das letras, 2008. 

BALOGH, Anna Maria. O discurso ficcional na TV: sedução e sonho em doses homeopáticas. São Paulo, SP: EDUSP, 2002. 

HAMBURGER, Esther. Novelas e interpretações do Brasil. Lua Nova, São Paulo, v. 82, p.61-86, jan. 2011. 

LOPES, Maria Immacolata Vassallo de. Telenovela brasileira: uma narrativa sobre a nação. Comunicação e Educação, São Paulo, v. 26, p.17-34, jan. 2003. 

XAVIER, Nilson. Teledramaturgia. Disponível em: http://teledramaturgia.com.br. Acesso em: 18 abr. 2023.

Parte 4

Recentemente, em um evento acadêmico, apresentei a comunicação Pantanal: textos e contextos, traumas e tratamentos. Escolhi esse título tentando dar conta não só da trama, mas do trauma (e das subsequentes remediações) que a primeira versão de Pantanal (1990) representou para a TV Globo.

Escrita por Benedito Ruy Barbosa — então autor do horário das seis —, a sinopse de Pantanal foi pensada para o horário nobre da Globo, mas a principal emissora do país rejeitou o projeto alegando a dificuldade de realizá-lo. Contudo, uma emissora menor, a Rede Manchete (1983-1999), topou a empreitada e produziu a saga de José Leôncio (Claudio Marzo) e Juma Marruá (Cristiana Oliveira), que ia ao ar assim que a novela das oito Rainha da Sucata acabava. Foi um sucesso!

Pantanal marca o início de uma década em que a Globo não perde sua hegemonia, mas passa a viver uma série de instabilidades na audiência (o livro A Deusa Ferida narra essa história). O êxito da novela foi atribuído à aproximação de uma linguagem cinematográfica, que, a partir de uma câmera que passeava “lenta e amorosamente sobre os amanheceres e entardeceres do Pantanal” (BALOGH in SOUZA, 1995, p. 42), rompia “com o esquema fácil da novela em estúdio” (BECKER in RIBEIRO; SACRAMENTO; ROXO, 2010, p. 243).

A primeira versão de Pantanal rompeu também com o que Raymond Williams (2016) chama de fluxo televisivo. Para o acadêmico britânico, a televisão se organiza num fluxo audiovisual que se retroalimenta a partir da fragmentação e de uma “intertextualidade delirante, porém calculada” (SOBRINHO, 2016), cujo objetivo é fidelizar o espectador. Entretanto, vez ou outra, o espectador precisa ser surpreendido com o rompimento desse fluxo e foi isso que Pantanal fez frente às habituais novelas urbanas no horário nobre (Roque Santeiro Tieta foram exceções nesse quadro).

Para além do contexto televisivo, Pantanal entrou no ar no mesmo mês em que o então presidente Fernando Collor de Mello confiscou as poupanças de milhões de brasileiros, inaugurando um momento delicado do país. Diante da decepção com a modernidade prometida por Collor, as paisagens atravessadas por sucuris, onças e tuiuiús (eles não podem faltar em textos sobre Pantanal!) serviram como escapismo ao público, que estava sem suas economias e via a inflação invadir os supermercados e as imagens jornalísticas.

Mas o que isso tudo tem a ver com Renascer?! Oras, Pantanal não só garantiu a volta de Benedito à Globo, como sua promoção ao horário nobre. E apesar de situar essa nova trama na região cacaueira de Ilhéus, a história de José Inocêncio e seus filhos ecoa personagens e conflitos da saga familiar anterior (tanto que várias matérias jornalísticas sobre o remake recente apontaram essas semelhanças).

Em resumo, Renascer assimilou a bem-sucedida experiência de Pantanal, readequando-a ao “Padrão Globo de Qualidade”. Além disso, propôs uma linguagem ainda mais arriscada, experimentando um maneirismo estilístico que serviu para que a Globo demonstrasse superar os desafios da novela da Manchete (mas isso é história para outra hora). 

Um dos maiores sucessos da Globo na década de 1990, Renascer tentou remediar o trauma de ter negado Pantanal, mas a “cura” mesmo só veio recentemente, com a versão recém-exibida, estrelada por Marcos Palmeira. E que, de novo, abre brecha para uma nova Renascer

Glossário:

Intertextualidade: Diálogo que há, dentro de um texto (que pode ser literário, audiovisual etc.), com textos anteriores, de forma implícita ou explícita, a partir de réplica ou absorção, operando a afirmativa, recusa ou crise desses outros textos.

Bibliografia:

BALOGH, Anna Maria. Minha terra tem Pantanal onde canta o tuiuiú: a guerra de audiência na tv brasileira no início dos anos 90. In: SOUZA, Mauro Wilton de. Sujeito, o lado oculto do receptor. São Paulo: Brasiliense, 1995. p. 135-150.

BECKER, Beatriz. O Sucesso da telenovela “Pantanal” e as novas formas de ficção televisiva. In: RIBEIRO, Ana Paula Goulart; SACRAMENTO, Igor; ROXO, Marco (org.). História da televisão no Brasil: do início aos dias de hoje. São Paulo, SP: Contexto, 2010. 

BORELLI, Silvia Helena Simões; PRIOLLI, Gabriel. A Deusa ferida: porque a Rede Globo não é mais a campeã absoluta de audiência. São Paulo: Summus, 2010. 

SOARES, Angélica. Gêneros literários. São Paulo: Editora Ática, 2007.

SOBRINHO, Gilberto Alexandre. Fluxo: para a compreensão da programação televisiva. Rebeca, São Paulo, v. 5, n. 2, p.1-7, dez. 2016. 

WILLIAMS, Raymond. Televisão: tecnologia e forma cultural. Belo Horizonte: PUC Minas, 2016. 

XAVIER, Nilson. Teledramaturgia. Disponível em: http://teledramaturgia.com.br. Acesso em: 23 abr. 2023.

Parte 5

Em “Dramaturgia de televisão” (2012), a autora Renata Pallottini compara a telenovela a uma árvore: enquanto a trama principal é uma espécie de tronco, as chamadas tramas paralelas são como galhos que ajudam a novela a crescer por muitos e muitos capítulos.

Renascer teve (em sua exibição original) 216 capítulos, e, curiosamente, começou sua história com uma árvore — o Jequitibá-Rei. Foi diante dele que o jovem José Inocêncio (Leonardo Vieira) fincou um facão e fez um pacto; jurou que enquanto o facão estivesse na terra diante do Jequitibá, ele e a árvore não morreriam “nem de morte matada, nem de morte morrida”.

A apresentação de José Inocêncio é decupada — isto é, pensada em imagens e sons — apresentando esse protagonista de forma enigmática: ele aparece como uma silhueta em meio à luz da floresta. Quando vê o imponente tronco do Jequitibá, a câmera subjetiva (que assume o olhar do personagem) angula gradualmente para cima (o que chamamos de contra-plongée), revelando a imensidão do Jequitibá. O rosto de José Inocêncio se sobrepõe ao Jequitibá (numa técnica de montagem a qual chamamos de “fusão”) e a altura da árvore é reiterada por uma câmera à pino (de cima), rente ao tronco que se estende até José Inocêncio, lá embaixo… 

Essa primeira cena já instaura o western, gênero que está nas novelas desde Irmãos Coragem (1970), e que tem como um dos temas o confronto entre o Homem e a Natureza (BAZIN, 1991). Mas novela é sempre melodrama, e os acontecimentos do mundo não demoram a se contrapor ao herói (CANNITO; SARAIVA, 2004). Assim, mal termina o discurso e o “coronelzinho” tem esse compromisso testado: é pego e “depelado” numa tocaia preparada pelos capangas do Coronel Belarmino (José Wilker). Mas o pacto está firmado, e José Inocêncio é salvo e costurado pelo mascate libanês Rachid (Luiz Carlos Arutim).

Salvo e “renascido”, José Inocêncio agradece ao “turco”, que, ao corrigi-lo, diz o primeiro bordão de Renascer — “nós não é turco. Nós é libanês”. Fim do primeiro bloco. Hora de conhecer Maria Santa.

No entanto, antes de conhecermos o rosto de Maria Santa (Patrícia França), conhecemos o olhar dela; isso porque nossa identificação com a moça começa por seu confinamento. Mantida dentro de casa pelo pai Venâncio (Cacá Carvalho), ela espia a festa do Bumba-meu-boi por uma janelinha. Mas o pai, miolo do Boi, é brabo e censura a filha só de olhar!

Mas quando o festejo sai em procissão, Maria Santa acompanha e, de fita no cabelo, roda para encontrar o olhar de… José Inocêncio. A montagem rítmica, em que o movimento dentro do quadro impulsiona o corte de um quadro a outro (EISENSTEIN, 1990), combina o rodopiar da saia e o giro do Boi, que ataca o coronelzinho em suas próprias terras. Um novo conflito surge: a paixão é proibida pelo pai, agregado de Belarmino. Da contenda pela terra surge esse “galho” do conflito romântico, que sustentará toda a primeira fase.

Sim, como PantanalRenascer é dividida em duas fases (mas o então vice-presidente de operações da Globo José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, decidiu que esta só teria cinco capítulos). Estrelada por Leonardo Vieira e Patrícia França, a primeira fase de Renascer narra o início das aventuras de José Inocêncio, junto a seus aliados, para a consolidação de seu império do cacau. Ali nascem seus quatro filhos; ali, morre Maria Santa. De qualquer forma, o sucesso do casal foi tanto que os atores logo protagonizaram outra novela juntos — Sonho Meu, às seis da tarde.

Bibliografia:

BAZIN, André. O cinema – ensaios. São Paulo: Editora Brasiliense, 1991.

CANNITO, Newton; Leandro, SARAIVA. Manual de roteiro ou Manuel: o primo pobre dos manuais de cinema e TV. São Paulo: Conrad, 2004. 

EISENSTEIN, Sergei. A forma do filme. Rio de Janeiro, RJ: Zahar, c1990. 

PALLOTTINI, Renata. Dramaturgia de televisão. São Paulo: Perspectiva, 2012. 

Parte 6

Além do conflito romântico entre José Inocêncio (Leonardo Vieira) e Maria Santa (Patrícia Santa), que tem como empecilho o pai da moça Venâncio (Cacá Carvalho), a primeira fase de Renascer é marcada pela disputa de terras entre o protagonista e Berlamino, personagem de José Wilker que, numa participação de poucos capítulos, emplacou o inesquecível bordão “é justo, é muito justo, é justíssimo” (uma ironia na boca de um vilão que faz as próprias “leis” na bala).

No gancho entre o 2° e o 3° capítulo de Renascer, José Inocêncio sofre um atentado pelas mãos de Belarmino, mas o pacto com o Jequitibá e o corpo fechado pelo cramunhão na garrafa (sim, como o de Pantanal) faz com que o coronelzinho sobreviva. Inocêncio, então, arma uma arapuca engenhosa para contra-atacar: finge a própria morte, encena o velório e manda que seus fiéis empregados Deocleciano (Leonardo Brício) e Jupará (Gésio Amadeu) convidem o assassino para “bebê-lo”. Lá, Belarmino confessa o atentado ao “morto”: “não existe corpo fechado, existe má pontaria”.

Esse falso velório de José Inocêncio marca uma das cenas mais tocantes da 1ª fase: o rito em que Deocleciano, Jupará, Inácia (Solange Couto) e os empregados circundam o caixão e a sala da casa cantando “Birin birin” (“meu sofrimento”), canção-lamento angolana que a pesquisadora Amanda Palomo Alves (2021) aponta como típica da tradição popular. A letra não deixa de ironizar as circunstâncias e os destinos desses dois rivais em cena.

Birin Birin
(Ai, ai)

Welelele
(O esperto só come uma vez)

Kisangela ngwetu ni mazundu
(Pergunta a quem recebeu o feitiço)

As aparições das canções de lamento e dos cantos de trabalho são representações da cultura popular sempre marcantes em Renascer. O acadêmico colombiano Jesús Martín-Barbero (1997) define a cultura popular como aquela que nasce espontaneamente em comunidades populares a partir do relato, da resistência e da solidariedade.

Assim, se o melodrama é um gênero que surge na cultura popular (e continua central na telenovela), Renascer vai se preocupar em representar ainda esse caráter pluricultural popular brasileiro, mostrando músicas e crenças de matriz africana e representando algo proeminente na nossa cultura — o sincretismo religioso (o próprio Jose Inocêncio fará essa exposição quando, a certa altura da trama, coloca juntas as duas imagens pelas quais tem devoção — uma Nossa Senhora Aparecida e a representação de um Exu).

A trama de tocaias trocadas entre os coronéis culmina neste 3° capítulo, mas reverberará na segunda fase com o surgimento de Mariana. Isso porque a mocinha ambígua de Adriana Esteves voltará, a princípio, para vingar a morte do avô Belarmino. Mariana acredita que José Inocêncio matou Belarmino; o coronel, por sua vez, negará o atentado fatal ao longo da novela. Ele e Mariana acabarão se casando, formando com João Pedro (Marcos Palmeira) o triângulo amoroso central da fase principal. Mas é justo, é mais que justo, é justíssimo que isso fique para outro post.

Bibliografia:

CRUZ, Álvaro André Zeini. Renascer: narrativa cordial e estilo maneirista na telenovela brasileira / Álvaro André Zeini Cruz. – Campinas, SP: [s.n.], 2018.

MARTÍN-BARBERO, Jesús. Dos meios às mediações: comunicação, cultura e hegemonia. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 1997.

PALOMO ALVES, A. (2021). “N’biri Birin” renasce: praticando a descolonização do currículo escolar a partir das canções do grupo “N’gola Ritmos” (1947-1959). Revista Crítica Histórica, 12(24), 200–221. https://doi.org/10.28998/rchv12n24.2021.0009

Parte 7

Na última semana, o jornalismo cultural televisivo percebeu um deslize do entretenimento da Globo na escalação de suas novelas. Isso porque a recém-estreada Terra e Paixão, de Walcyr Carrasco tem no cerne da trama a rejeição do pai Antonio La Selva (Tony Ramos) pelo filho Caio (Cauã Reymond), conflito que se repetirá na novela seguinte, uma vez que Renascer também narra a intolerância de José Inocêncio (Leonardo Vieira/Antônio Fagundes) a João Pedro (Pablo Sobral/Marcos Palmeira). Não para por aí: o ranço dos pais com os filhos envolve o fato de que as esposas morreram nos partos dessas crianças.

É fato que essa articulação de histórias tão parecidas é arriscada, ainda mais quando lembramos que Pantanal(2022) também apresentava uma relação do tipo: por mais que se parecesse com o pai, Tadeu (José Loreto), filho adotivo de José Leôncio (Marcos Palmeira), era preterido em prol de Joventino (Jesuíta Barbosa), filho gerado no matrimônio legítimo. A semelhança continua na recusa do pai pelo filho criado na roça, já que, tanto em Pantanalquanto em Renascer, são os filhos estudados, “dotores”, os primeiros pensados como sucessores do patriarca na manutenção das terras e do patrimônio.

Ao longo dessas novelas de Benedito esse preconceito paterno se desfaz (em Terra e Paixão, de Carrasco, ainda não dá para saber, mas o personagem de Tony Ramos tem tintas vilanescas que não havia nos outros). Em Renascer, nenhum dos filhos Josés de José Inocêncio terá o mesmo gosto ou o mesmo tino do pai para a vida (e a lida) nas plantações de cacau. João Pedro é o sucessor evidente; a identificação intrincada entre pai e filho fica explícita quando João (Pablo Sobral), ainda criança, descobre o facão aos pés do Jequitibá, mas confessa a José Inocêncio que não mexeu no objeto por ter medo do pai morrer. Essa descoberta será uma pista & recompensa importante para o desfecho da trama.

É João Pedro, inclusive, quem faz a transição da primeira para a segunda fase da novela, numa passagem de tempo bastante poética: depois de prometer ao pai que não revelará a existência do facão a ninguém, ele segue até os corredores que passam abaixo das barcaças de secagem do cacau. Antes de atravessar a passagem, brinca num balanço, como se despedisse da infância. Então, a montagem alterna o plano de João Pedro caminhando em direção à câmera (que, por sua vez, recua num movimento chamado travelling out) com a subjetiva dele; isto é, a visão do personagem, que encara a saída desse espaço. É numa dessas subjetivas que a câmera “se perde” para reencontrar João agora crescido (interpretado por Marcos Palmeira), mas ainda com a mania de segurar a medalhinha que leva no pescoço. Um homem de amuletos, de fé. Como o pai.

Quando João olha para trás, o balanço está vazio; a infância passou. O conflito entre pai e filho adultos se complicará com a chegada de Mariana (Adriana Esteves), personagem que merece um post próprio (logo mais). O quanto a trama de Renascer ecoará a de Terra e Paixão é difícil dizer, até porque a novela de Carrasco está só começando. De qualquer forma a coincidência nesse ponto de partida é dada e mais do que constatada; tanto que hoje (17/05/2023), alguns portais de entretenimento noticiaram que Bruno Luperi, autor do remake de Renascer, pediu o adiamento da trama. Se for verdade, Luperi tem razão: se historicamente a telenovela se flexiona entre “padrão” e “inovação”, essa proximidade de novelas rurais tão semelhantes pode dar a impressão de que a Globo está forçando a receita goela abaixo. E se os telespectadores enjoarem, podem querer quebrar esse fluxo…

Bibliografia:

CRUZ, Álvaro André Zeini. Renascer: narrativa cordial e estilo maneirista na telenovela brasileira / Álvaro André Zeini Cruz. – Campinas, SP: [s.n.], 2018.

PADIGLIONE, Cristina. Semelhança de ‘Terra e Paixão’ com ‘Renascer’ põe remake em risco. 2023. Disponível em: https://f5.folha.uol.com.br/colunistas/cristina-padiglione/2023/05/semelhanca-de-terra-e-paixao-com-renascer-poe-remake-em-risco.shtml. Acesso em: 17 maio 2023.