Por que amamos Odete Roitman?

por Álvaro André Zeini Cruz

Na chamada de Vale Tudo, a voz de Débora Bloch anunciava: “as pessoas amam odiar Odete Roitman”. A parte do “odiar”, aparentemente, caiu por terra. Passados dois meses da estreia de Vale Tudo, a pergunta que não quer calar é: afinal, por que o Brasil ama a nova Odete Roitman?

A hipótese intrincada demanda várias frentes. É preciso pontuar que a história da telenovela corrobora esse fascínio pela vilania: das mais lembradas, como Carminha e Nazaré Tedesco, às que diminuíram, mas não se apagaram na memória coletiva — como Laurinha Figueiroa, Sandrinha, só para ficar nos diminutivos “carinhosos” —, não são raros os casos em que as vilãs (mulheres, sobretudo) se tornaram símbolos das tramas em que estiveram. 

É também verdade que o interesse pela vilania precede a telenovela: na literatura ou na dramaturgia, é comum que a ação imoral irrompa como um trasbordamento potencializado daquilo que recalcamos. Podendo ser mais realistas ou mais alegóricos, vilãs e vilões agem quase que unicamente em prol dos seus desejos, desvencilhando-se do supergo, das restrições psíquicas e sociais colocadas aos heróis (e à maioria de nós). A vilania, portanto, é uma espécie de representação catártica do instinto, sem qualquer amarra, propícia a ser saboreada na representação, dentro do limiar seguro do espetáculo.

Interpretada por Beatriz Segall em 1988, Odete Roitman tornou-se uma vilã icônica ao personificar a barbárie com etiqueta, um contraste por si só interessante, não fosse também um tipo bem brasileiro (ainda que a sessão de ontem no Senado transpareça o prevalecimento da barbárie). Se por um lado Odete fascinava, por outro, nunca deixou de ser o diabo. Sua reencarnação contemporânea tem dado o que falar, justamente porque, na percepção do público, o mal parece atenuado. Apesar dos desaforos, para muitos, Odete aparenta ser uma mulher coerente e sensata. Mas, por quê?

A primeira especulação gira em torno da própria Odete; mais especificamente, do discurso que ela performa tanto no ambiente familiar quanto no social (o que, por si só, já impressiona coerência). Odete defende, com unhas e dentes, o trabalho como forma de ascensão social, num país que, em negação, não enxerga uma sedimentada dificuldade de mudança de classe (por isso mesmo, Faoro fala em estamento) e que crê na meritocracia. Esse mesmo país, portanto, se torna apto a reconhecer-se na fala de Odete, que cumpre o papel de “pai ideal” (remontando a ideia de Maria Rita Kehl) ao articular esse tipo de discurso, que, por sua vez, se fia numa má compreensão da democracia como promessa e garantia de igualdade. Nesse sentido, Odete reproduz a típica identificação interclasses da cordialidade: uma vez que ela enriqueceu trabalhando — ou seja, fazendo o que nos é inescapável —, é gente como a gente. Assim, ela se torna uma ilusão aparentemente palpável e uma crença mais agradável, já que infere que é possível subir só com as próprias pernas (e embora não anule completamente suas conquistas, Odete pouco fala da consciente transação matrimonial que a catapultou).

O segundo ponto me parece mais determinante e me faz evocar outra obra audiovisual recente. É sabido que a série Succession influenciou os figurinos quiet luxury dos Roitman 2025 (e, desconfio, a trilha musical), mas é possível que essa influência atinja também a relação entre pais e filhos. Na premiada série da HBO, Logan Roy (Brian Cox) é um empresário da mídia que, sem qualquer escrúpulo, cria um jogo acerca da própria sucessão, usando os próprios filhos como peças a serem manipuladas. Em contrapartida, Kendall (Jeremy Strong), Shiv (Sarah Snook) e Roman (Kieran Culkin) se deixam controlar quase cegamente por esse pai, que, mais de uma vez, diz — “vocês não são pessoas sérias”. A frase do patriarca surge sempre que ele coloca em xeque a visão de mundo limitada desses rebentos, que enxergam o mundo da perspectiva em que foram criados — como imagem, algo tão impalpável quanto ilusório. Em um dos textos que escrevi sobre Succession, retomei o pensamento de Vilém Flusser sobre um mundo codificado que perde seus referentes, no qual a conexão passa a se dar diretamente entre a representação e o significado. É sob essa transmutação que os filhos de Logan Roy foram criados, e que, portanto, estendem e personificam. É nesse mesmo mundo que Afonso e Heleninha Roitman parecem ter reencarnado.

Em 1988, os filhos de Odete eram uma amálgama entre carência, ressentimento e insegurança, mas essa conjunção de fraquezas parecia resultar da vida pregressa, de um confronto anterior com o mundo real. Era como se, antes da trama começar, Afonso e Heleninha já tivessem partido, não se encaixado e, por isso, voltado à segurança da casa de tia Celina. Em 2025, os personagens de Humberto Carrão e Paolla Oliveira parecem seres criados sob uma redoma de vidro, pela qual não se tem acesso ao mundo exterior sequer pelo olhar. É como se essa redoma fosse espelhada para refletir a si próprios e aos espaços suntuosos que ocupam. Nesse sentido, são parentes de Kendall, Shiv e Roman, com a diferença de que não almejam sequer lutar por uma sucessão (afinal, dá trabalho). Ficam, então, pelos cantos, sorumbáticos, lamentando tanto a autoridade materna quanto a do mundo lá fora (“Ó, céus, por que minha pobre namorada tem que trabalhar?”). Refugiam-se como podem: atleta de triathlon, Afonso encara o esporte como um menino encantado por um videogame; já Heleninha tem Ivan como seu boneco Ken (devidamente comprado pela mãe), que, aliás, já começa a dar defeito por mau uso.

Com esses dois alecrins dourados de estufa, que parecem nunca terem tocado o dedo mindinho do pé na crosta terrestre, fica fácil entender porque o Brasil ama a nova Odete Roitman: porque, apesar das barbaridades, ela, aparentemente, já pisou o chão que pisamos, teve em seus pulmões o ar dessa mesma atmosfera que nos contorna, bebeu da mesma água que nós, e sem bandeja (aprende, Maria de Fátima!). Odete nos parece, minimamente, uma mulher real, com alguma noção do mundo prático e concreto. Entre mambos no ateliê e corridas acompanhadas por seguranças brutamontes, Afonso e Heleninha podem, a qualquer momento, virar, sei lá… o Sonic e o Papa-léguas (acelerados e autocentrados, sem olhar ao redor). É por essas (e, provavelmente, por outras) que é impossível não ter alguma empatia por Odete Roitman.