Pluribus

por Fábio Fernandes

No último episódio da primeira temporada de Pluribus, vemos a protagonista, Carol Sturka, lendo A Mão Esquerda da Escuridão, de Ursula K. LeGuin. Nas redes sociais, houve quem tentasse (sem muito sucesso) estabelecer algum paralelo entre esse clássico da scifi e a série da Apple TV cuja primeira temporada chegou ao fim em dezembro. 

Essa tarefa nem é muito difícil: ambas as histórias mostram pessoas deslocadas na sociedade, praticamente os únicos de sua espécie. No caso de A Mão Esquerda…, o diplomata Genly Ai, da Terra, que é enviado ao planeta Gethen a fim de convidá-lo a se juntar ao Ekumen, uma coalizão de mundos humanoides. Em Pluribus, a escritora de fantasia Carol Sturka, descobre subitamente que é uma das pouquíssimas pessoas (apenas 13) sobreviventes após a União, ou seja, a criação de uma mente coletiva unindo todos os seres humanos graças à ação de um vírus extraterrestre. 

As semelhanças, entretanto, param por aí. Genly Ai tem dificuldades para conviver com os gethenianos, seres que podem literalmente mudar de gênero (masculino para feminino e vice-versa), mas que tirando isso são humanos e capazes de estabelecer diálogo e compreensão. Já Carol entra em crise ao tentar assimilar a dimensão do que aconteceu e simplesmente se nega a aceitar os fatos, criando na sua mente duas narrativas: primeira, a de que o que aconteceu foi uma invasão (mas na verdade é um processo bem mais complexo) e segunda, a de que ela é responsável por salvar o mundo. A cena em que ela está no avião do Presidente dos EUA com a maior parte dos sobreviventes – nenhum dos quais é nativo estadunidense – e automaticamente se coloca como a líder natural do grupo é emblemática, apesar de didática demais (mas talvez a América de Trump precise desse didatismo, bem como aqueles de nós que se recusam a calçar sandálias Havaianas).

Essa e muitas outras atitudes fazem de Carol não só um absolute pé-no-saco, mas também (para os novos parâmetros da mente coletiva) uma espécie de genocida, pois a cada confronto agressivo que os Outros (como ela os chama) têm dela, eles entram em choques convulsionantes, que matam dezenas de milhares de pessoas. Mesmo assim, eles não guardam rancor, embora busquem se preservar: eles só querem o bem dela. 

Claro, esse bem está necessariamente atrelado a que ela em algum momento se junte à mente coletiva, tão logo eles descubram por que isso não aconteceu junto com todos os demais habitantes do globo, e consigam encontrar um jeito de resolver a questão. E claro também que Carol (que a essa altura já alienou não só o planeta inteiro – inclusive os sobreviventes – como os espectadores, que querem morbidamente ver onde isso tudo vai acabar, mas não necessariamente torcendo por ela) não está nem um pouco interessada nisso.

Talvez o livro mais importante para se estabelecer um diálogo com a nova série de Vince Gilligan seja um que não aparece na série: O Fim da Infância. Nesse romance de Arthur C. Clarke, a humanidade se torna uma mente coletiva também – com uma diferença: esse é um processo que leva gerações para acontecer, ao longo do qual a humanidade vai sendo guiada por alienígenas ditos benevolentes. Ao contrário de Pluribus, em que a União acontece do dia para a noite, sem nenhum preparo, no susto. Já no livro de Clarke, somos convidados a assistir os últimos momentos da humanidade pelo ponto de vista do último humano, o astrofísico Jan Rodricks, que havia viajado como clandestino a bordo de uma nave alien e só volta para a Terra mais de um século depois, graças às velocidades relativísticas, para testemunhar a grande mudança na raça humana.

Em Pluribus, tudo parece quase perfeito, ainda que haja alguns sérios problemas logísticos, como por exemplo a alimentação de uma consciência coletiva que se recusa não só a consumir carne como sequer a colher frutos das árvores. Mas não há mais guerras. A paz mundial finalmente chegou. Não há mais injustiça, e mesmo os sobreviventes não são deixados de lado, como o mauritano Koumba Diabaté, que literalmente relaxa e goza, passando a viver de modo hedonista (no que tem o apoio dos Outros, que só querem ver todos felizes). Mas a peruana Kusimayu deseja de todo o coração se unir aos Outros, para se tornar uma com sua família, e os Outros não medem esforços para que isso aconteça.

Há quem defenda a personagem de Carol com unhas e dentes e ache que os Outros têm objetivos escusos, ou que seriam simplesmente maus por não serem mais humanos. E Carol, mesmo chata para cacete, não seria somente a voz da discordância, mas sim a única voz lúcida do recinto, por não se render à conformidade da existência do que seria um único organismo vivo.

Por esse ponto de vista, parece uma afirmação muito lógica e coerente. Certo?

Certo?

Mas talvez não seja nada disso: a mente coletiva na qual quase todos os habitantes do planeta se tornaram é benévola e quer o melhor para todos – mas de que modo exatamente isso seria ruim? Ok, não podemos imaginar como seria perder nossa individualidade, ainda mais num cenário como esse, em que a mente coletiva parece reter as informações sobre todos os elementos que costumavam ser consciências individuais antes.

Carol diz que eles não são humanos (sentimento do qual o paraguaio Manousos Oviedo, o único sobrevivente que se isolou completamente do mundo até quase o fim da temporada, compartilha). E daí? Isso quer dizer automaticamente que eles são do mal? Talvez para um escritor estadunidense sim. Mas em se tratando de um escritor do calibre de Vince Gilligan, criador de Breaking Bad, uma série que não pega leve com o espectador que quer um julgamento moral fácil, é muito cedo para assumirmos qualquer lado – ainda mais quando sabemos que haverá uma segunda temporada.

Só quem sabe quem são os mocinhos e os vilões na história (se é que eles existem de fato) é Gilligan, pois ele é o criador da série. Como sempre numa narrativa, quem decide o que é certo e errado é quem a escreve. A história é escrita pelos vencedores, já dizia o antigo ditado. Mas ela também pode ser registrada em documentos subversivos, distribuídos de modo subterrâneo, a serem descobertos num futuro em que a ameaça não exista mais. Afinal, qual dessas histórias Vince Gilligan quer contar?