por Álvaro André Zeini Cruz

Se Jung (e Campbell, Vogler, Hudson e cia.) nos ensinam que arquétipos são máscaras universais, Mariana é sujeito sem-face, cuja identidade é escorregadia; na falta de um habitus, tal qual o “monstro” de Hayo Myiazaki, ela entra em consonância com as adjacências imediatas, replicando e prolongando as identidades próximas. Isso não interdita a existência de uma história: vítima da guerra entre coronéis, Mariana fora ejetada desse universo antes mesmo de existir, na geração que a antecede. Desse passado lacunar, só o que se sabe é que as dificuldades culminaram numa tragédia urbana, que a catapultou de volta a esse berço das bonanças usurpadas. Surge, portanto, por vingança, mas muda de ideia. Apaixona-se por João e ama José; ou vice-versa. Transita entre a casa-grande do Jequitibá-Rei e a casa da quenga que virou lembrança, mas deixou como permanência o afresco da Iara com os seios livres. Hospeda-se na fazenda dos horrores e se estabelece na venda dos humores, ajudando Norberto a agenciar os secos e molhados, os tocaiadores e entocaiados.
Mariana é uma espécie de evidência exibicionista do sujeito pós-moderno na acepção de Stuart Hall, isto é, tem identidades movediças, múltiplas e contraditórias, acionadas conforme necessidades e situações. Seu capital cultural incorporado, no entanto, é incipiente, porque Mariana é muitas num só espaço, e mora em muitos espaços como Marianas. Nessa volatilidade da face, acaba sem querer, criando uma espécie de contradição estrutural: ou é aquilo que guarda nas profundezas — o trauma de ter o patriarcado castrado de si, e que, ironicamente, faz com que ela deseje a casa, e não as terras —, ou é qualquer outra coisa: frágil, decidida, dissimulada, enciumada, divertida, infantil, fatal.
Mariana é muitas; já era sob a pele de Adriana Esteves, embora lá, andasse em círculos externos e internos. Remoedora de ressentimentos, era a Radcliff daquele planalto do sol ardido, enquanto agora, feita por Theresa Fonseca, oscila entre graça e rancor com desprendimento, mas age, mesmo que pelas beiradas (como disse Eliana), entre intrigas ao pé do ouvido típicas do melodrama. Aliás, agiu inclusive nas bordas do quadro, mais especificamente no extracampo. O flashback nos surpreende: é ela (não Marçal, como pressuposto; nem Damião e Deocleciano, como na anterior) quem atirara em Egídio para salvar João Pedro. É ela quem atrai o pica-pau puxando-o pelo bico, atraindo-o à arapuca que se conecta ao início, à história do marido de Cândida, suicidado por enforcamento. É nessa cena que Mariana, talvez inspirada pela Iara de Jacutinga, veste sua derradeira máscara, ainda mais arcaica e universal. Ela desce ao submundo por um momento. Ela é Perséfone.
A neta de Belarmino veste, circunstancialmente, a máscara da deusa da agricultura e da fertilidade, que passa parte do ano entre a Terra e o submundo. É para lá, para o inferno, que Mariana atrai Egídio. Não um inferno qualquer: aquele outrora aceso pelo sadismo do coronel para queimar Marçal. No mesmo espaço, o inferno de Mariana é apagado, desprovido de fogo, mas não de sol. Um facho recai sobre o rosto de Mariana, e essa Perséfone se vinga de Hades justamente com o sol proibido no submundo, usando a luz para hipnotizá-lo, para que o rosto amarelo ardente seja a última miragem vista pelo coronel com lenço, mas sem óculos escuros. A mulher sem-face — mas que veste todas as outras — posiciona o rosto para acendê-lo em meio à escuridão, como se tivesse roubado de Eliana a máscara de femme fatale, como se viesse de um filme de Bava ou Argento.
Tião, que viu sombras platônicas em sua prisão, escapa da morte de 1993, passando-a àquele que foi seu algoz nas duas versões. Dependurado, Egídio é metade de um corpo, visto de longe; as pernas pendem como vermes na boca de um cano. O lenço cai; não há mais suor a ser enxuto, nem imagem a ser recomposta. De diabólica, Mariana segue aos pés da Santa, onde se revela uma anti-Dantès, que nos deixara à parte de seus planos e feitos. Desmascara-se como protetora, justo ela que chegara ali ansiando ser protegida. Talvez esta seja sua única verdade, além da outra entregue por José Inocêncio: ao salvar a vida do filho, ela salvou, de certa forma, a do pai, que terá continuidade naquele que mais se assemelha a ele, que melhor o imortalizará. Age como Deusa da fertilidade.
Mariana ama Inocêncio e se apaixona por João Pedro porque, no fundo, são o mesmo homem. Ela, por sua vez, é todas e nenhuma, santa e diaba, menina e mulher, heroína e tocaia. Entre o céu, o inferno e tudo o que há no meio, veste a máscara que pode. Sem-face de todos os rostos, raptada pelo ódio de homens-Hades a esse chiaroescuro solar. Perséfone de todos os arquétipos.