por Álvaro André Zeini Cruz

Manhã de domingo. Entre o café da manhã e a louça na pia (a cobertura perfeita para podcasts), o episódio “Distopia Trumpiana”, do Medo e Delírio em Brasília, traz a correlação entre a insurgência de uma masculinidade misógina cada vez mais jovem e a emergência de uma polícia nazista nos Estados Unidos. Essa interdependência — cuja sinalização não é nova — costuma recair na pergunta: como combater essa masculinidade que, ressentida com o patriarcado em xeque, retroalimenta seus códigos viris e violentos, na tentativa de manter seus privilégios intactos? Pensando nisso, enquanto esfregava as xícaras, me vieram a cena do sabão que Viviane (Gabriela Loran) deu em Feretti (Murilo Benício) em Três Graças, e a aula de Breno a um ensaboado Matheus no Big Brother Brasil.
A novela dos três Silvas deixou para o sábado uma sequência catártica, prometida ao longo da semana. Nela, o vilão Feretti é confrontado pelos filhos — ambos em relacionamentos LGBTQIAPN+ — durante um desses jantares indigestos, que deveriam ser obrigatórios a toda novela que se preze. A inteligência dramatúrgica da cena progrediu o conflito intercalando-o entre os casais Lorena & Juquinha (Alanis Guillen e Gabriela Medvedovski) e Leonardo & Viviane (Pedro Novaes e Gabriela Lohan), mas optando por culminar no óbvio protagonismo de Viviane. Convidada a uma armadilha pelo sogro, Viviane é quem dá o xeque-mate dessa série de disputas (de gênero e sexualidade, mas também de raça e classe), tombando (literalmente) o brucutu incontido em ternos alinhados.
Quando Viviane revela a Feretti que é uma mulher trans, o vilão pergunta: “o que é isso?”. Viviane replica, mas não responde: “eu não sou professora para ficar dando palestra de graça, e nós vivemos no século XXI. Acho que se você quiser descobrir, já que você não sabe o que é uma pessoa trans, vai na internet e pesquisa”. O espectador eventual pode se perguntar: não seria uma boa oportunidade para informar quem está do outro lado da tela? A resposta dos autores, na boca de Viviane, é reveladora em várias camadas. Primeiro, aposta na inteligência do público, pressupondo que o espectador não só sabe o que é uma pessoa trans, como tem se inteirado, pela dramaturgia, sobre as particularidades e universalidades dessa personagem em específico. Assim, a recusa de Viviane em dar uma explicação didática é respaldada pelos aliados cena, mas, sobretudo, pela sensibilidade do público que a assiste — no duplo sentido, de ver e auxiliar — diariamente na novela das 9. A negativa, portanto, é a resposta aos Ferettis, sujeitos que se debatem orgulhosos entre a própria individualidade e ignorância, e que se recusam a ver pessoas como Viviane. Nesse sentido, é também um ato político: se, como nos ensina Antonio Cândido, o tempo é o tecido da vida, Viviane não tem um fiapo sequer a perder com um homem como esse; não para além da relação trabalhista, de onde ela tira o sustento. E se o isolamento lançado por Feretti contra a nora partia de uma questão de classe social (antes de saber que Viviane é uma mulher trans, Feretti a esnoba por ser favelada), Viviane o devolve, emaranhando os fios identitários desse homem, expondo sadismo e burrice como características entranhadas na correlação constante do ser social e do ser indivíduo. Viviane desconcerta e expõe Feretti diante das pessoas da sala de jantar, e ele cai como uma estátua sem nenhuma graça.
A novela termina e vem o reality, esse gênero que bebe na dramaturgia para lapidar conflitos a partir de uma factualidade de laboratório. Negociando Brasis progressistas e Brasis tacanhos, o Big Brother é um reality show constantemente atravessado por questões socioculturais historicamente urgentes, e que, muitas vezes, expõem a imaturidade do próprio programa em lidar com elas (a não expulsão de Pedro sendo um expoente disso nesta edição). Em sua segunda semana, o BBB já acumula conflitos que dizem respeito a gênero, raça e classe social; no mais recente, o brother Matheus sugeriu que as sisters Ana Paula e Milena vivem, respectivamente, uma relação de patroa e empregada. Esse mesmo moço protagonizou outro imbróglio, que rendeu à Globo a segunda confrontação da noite: após estereotipar homossexuais numa suposta brincadeira, Matheus tentou se justificar com Breno, perguntando se o colega, gay, havia se sentido ofendido. Com tom de voz professoral e toda a paciência do mundo, Breno explica: “você estereotipou um comportamento gay […] você brincar com o comportamento estereotipado de um grupo ao qual você não conhece pode ser bastante ofensivo”. A escolha de Breno pelo diálogo parte, provavelmente, de sua personalidade e da necessidade de convivência na casa, mas carrega também a crença na conversa, na troca, como recurso pedagógico construtor de alteridade. Mais reveladora, no entanto, é a postura esquiva do interlocutor, que ora reconhece seus erros, ora os reduz em justificativas míopes, mas quase sempre se coloca nesse lugar muito masculino e muito confortável do “estou aprendendo”. Ao longo da disposição de Breno a ensinar (uma tarefa que não lhe é obrigatória, mas que Breno acolhe, provavelmente porque o outro o delimita como o interlocutor ofendido, sendo incapaz de reconhecer a ofensa coletiva), Matheus diz que não tem amigos gays, mas a namorada tem (o ruim e velho “até conheço gente que conhece”), reconhece que tem que melhorar, mas, logo em seguida, insinua que a maldade está nos olhos dos outros, na interpretação alheia.
Se, como sugere Michiko Katunani, a morte da verdade tem se ancorado numa má-fé no que concerne à relativização entre textos e contextos desde o pós-estruturalismo, essa ideia de que tudo é relativo, tudo é interpretação, vem a calhar a esses discursos masculinos dos que “precisam melhorar”, mas recaem numa adversativa: há sempre um “mas”, um “porém” relacionado ao outro, seja o outro que defende um politicamente correto supostamente castrador (uma ideia que desponta na conversa entre Breno e Matheus), seja o outro que não tem paciência ou não quer ensinar (uma interpretação que pode ser atribuída à recusa de Viviane). Fato é que, entre o produto que moldou uma identidade nacional e o programa que pinça e atrita exemplares identitários de um país diverso, entre os confrontos verbais de Viviane e Breno, hipóteses e evidências aparecem.
Comecemos pelas últimas: em tipos bem diferentes — Feretti, homem rico, branco e fictício; Matheus, bancário (e não banqueiro), negro, real —, despontam, na novela e no reality, exemplos dessa masculinidade que se debate porque vive uma iminente e evidente perda de poderes (que resulta numa redistribuição de direitos, deveres e desejos). Feretti, o patriarca, expulsa de casa a filha homossexual e confronta a nora trans a partir da maternidade (“para que serve a mulher?”, ele chega a se perguntar no capítulo); Matheus, réplica desse patriarcado, relativiza seu texto ao pouco contexto que conhece (ou ao muito que desconhece), reduzindo questões delicadas às relações interpessoais imediatas. Nesse sentido, a subalternização racial que Matheus, um homem negro, enxerga na relação entre Ana Paula e Milena não é provável pelo que o programa mostrou até aqui, mas também não é impossível; é, porém, curioso que, entre tantas amizades, ele tenha escolhido atacar justamente a aliança feita por uma mulher negra que, tida como frágil, tornou-se alvo no jogo. Assim, é provável que haja uma questão de gênero aí. As evasivas na conversa com Breno e a postura passivo-agressiva demonstram que esse homem que precisa melhorar talvez não queira aprender tanto assim.
É nesse sentido que vamos às hipóteses, tratando como possibilidades de enfrentamento os dois modelos pedagógicos propostos na mesma noite, o do BBB e o de Três Graças. Afinal, como desmontar representantes dessa masculinidade ressentida, que se insurge para retroceder progressos e deteriorar democracias? A hipótese de Breno, o professor individual, traz indícios de ineficácia, percebidos graças à natureza de um programa em que a capacidade de encenar é limitada. Matheus interpreta mal o aluno que, cansado de ouvir as explicações do professor esforçado em ensiná-lo, mente que entendeu tudinho, só para escapar logo ao recreio com os amigos legendários. Feretti, na ficção, não ganha aula; pelo contrário, é explicitado como o sujeito com quem não se deve perder tempo ensinando, um homem das cavernas alheio e indisposto à roda e ao fogo. Quando Viviane diz “se vira e aprende”, impõe uma postura que não deixa brechas às relativizações e ponderações, assinalando que, mesmo com todos os meios e oportunidades, a verdade daquele homem é uma só — trata-se de um poço de ignorância. Defendida por Laura Mulvey, a oposição entre fetichismo masculino (aderência a um regime de crença) e curiosidade feminina (desejo por saber e revelar) cabe ao confronto entre os personagens, já que Feretti é o mestre das falsificações (começando pelos remédios) e Viviane tem papel importante na luta pela verdade. Enquanto a cena do reality termina com um aperto de mãos aparentemente farsesco, uma manutenção de costumes, a da novela acaba com o vilão tombado, em colapso diante de todas as outras verdades complexas que lhe escapam, e que ele não pode mais torcer em ilusão.
Uma coisa é fato: a grade televisiva, em dois dos programas mais assistidos da TV aberta brasileira, trouxe evidências — uma fictícia, outra pinçada do real — dessa masculinidade que sempre esteve aí, mas que, graças a um rebote, é vista agora como emergência global (ver a pesquisa recente e assustadora de jovens trumpistas que creem numa ordem em que os homens mandam e as mulheres obedecem) e problema de pesquisa. Se por um lado, Breno aponta, em seu discurso, o aspecto coletivo necessário a essa discussão, por outro, a aula que dá segue sendo entre esses dois indivíduos, um disposto a ensinar, outro talvez não tão disposto a aprender (embora diga o contrário); o que, por si só, dificulta a relação de ensino-aprendizagem, que é sempre mútua e complexa. Assim, o caminho pedagógico traçado por Viviane parece melhor: primeiro, porque obriga o sujeito ao próprio jogo individual ao expor sua debilidade enquanto indivíduo que não se movimenta junto ao mundo. Segundo, porque quando diz “se vira”, relança o sujeito ao mundo, impondo-lhe, de alguma forma, uma consciência mais social do que individual. Por fim, porque se dá pela ficção, terreno fértil às hipóteses e conjecturas; também às utopias, revoluções e rupturas. A derrubada de Feretti por Viviane é pedagógica justamente porque é dramatúrgica e catártica; educa pelo intelecto, pelo fisiológico e pela emoção, democratizando, na novela das 9, a hipótese de que os enfrentamentos precisam ser duros e diretos, precisam reconscientizar a existência do mundo e, principalmente, apontar a ignorância, nomeando-a como tal para, aí sim, atribuí-la individualmente, até que ela se acanhe e mingue coletivamente. Parece pretensioso, mas é uma hipótese, conjectura de uma imaginação (imagem-ação) que nenhum reality pode fazer; cabe somente às veredas das ficções. No caso, a que nos é mais massiva e popular. Como dizia Seu Rachid (de Renascer), “novela é coisa séria”.