por Álvaro André Zeini Cruz

Dois garotos arrematam a concessão do quiosque de uma piscina pública ao longo do verão. Um summer movie de trampolins ao invés de pranchas de surf, metido no Nebraska, numa dessas típicas cidadezinhas médias norte-americanas. Mas não é numa contemporaneidade de celulares e selfies à beira da piscina que O Quiosque se passa, e sim no ano de 1991, nos últimos suspiros de uma época em que o digital entrava nas casas e nas vidas com parcimônia e, sobretudo, não se enfiava nos bolsos das pessoas.
A.J. (Conor Shery) e Moose (Gabriel LaBelle) são melhores amigos; são também herdeiros de toda uma tradição teen da cinematografia estadunidense. O frescor, aqui, está no contraste entre eles (brecha aberta aos conflitos nas “sociedades”), que se dá mais no detalhe do que no todo: ambos são porra-loucas moderados, desses que bebem, fumam (e, esporadicamente, são perseguidos por viaturas), mas, na hora da bronca, abaixam a cabeça diante dos pais. O pai de A.J., aliás, é um juiz que briga para contrariar o ditado “casa de ferreiro, espeto de pau”, mas consegue, no máximo, que o filho seja um pouco mais inseguro do que seu comparsa (que LaBelle interpreta como um doce alucinado, chave oposta a de seu “Spielberg” Fabelman).
Sociedades, no plural, porque além de dividirem o lucro dos quiosques e alguns baseados, os dois, claro, se encantam pela mesma garota, Brooke (Mika Abdalla, escalação aparentemente consciente da semelhança dela com Danica McKellar, a Winnie Cooper de Anos Incríveis). Brooke retribui o encantamento de A.J., mas enquanto o garoto não se movimenta, ela se diverte com Moose, que beija bem. O triângulo é clichê, mas está num filme inabalavelmente arejado, que não tem a intenção de virar esses adolescentes pelo avesso, de expor-lhes as profundezas, o que lhes é indizível, como Hughes faz — vez ou outra, os espíritos emergem em estilhaços que boiam, mas só. Nesse sentido, a atmosfera lembra mais a de Adventureland, de Greg Mottola, com a diferença de que, lá, uma névoa rançosa parecia se acumular em torno daqueles cresceres finais. Neste, a representação das últimas curvas que levam à vida adulta cabe a Shane (Nick Robinson), o amigo mais velho que age como um mentor ambíguo, ora incitando A.J. e Moose às impulsividades juvenis, ora apontando-lhes a maturidade. Mas Shane não completa a curva à vida adulta. A morte se impõe e é devidamente sentida; não como uma consciência estagnante, mas como mais um movimento das partidas, inúmeras e inevitáveis. A despedida pela morte se coloca como anunciação à outra, menos trágica e mais terna; não menos dolorida, mas viva e para a vida.
O Quiosque retrata um único verão, indicando que verões vem e vão; no entanto, os que atravessam adolescências, compactam e sopram as contradições de se estar ali. É desses filmes em que as peripécias se transmutam na própria atmosfera, em que os conflitos são menos concretos do que as cores, os tons, os rostos e olhares. Nesse jogo de volatilidades tenras, uma contradição discreta se alicerça: o filme se ergue como, provavelmente, o último quiosque de uma adolescência que vinha ao mundo com mais entusiasmo do que medo, entre trânsitos e tramitações, não entre pudores e paralisações. Uma adolescência sem ensaio, desprogramada, pré-algoritmizada. Com sede e fome de hot dogs com “fuck” escrito em ketchup.
Snack Shack
Written by Álvaro André Zeini Cruz
Two boys win the concession to run a public swimming pool snack shack for the summer. A summer movie about trampolines instead of surfboards, set in Nebraska, in one of those typical small, mid-sized American towns. But Snack Shack is not set in a contemporary world of cell phones and poolside selfies, but in 1991, in the last gasps of an era when digital technology was entering homes and lives sparingly and, above all, not in people’s pockets.
A.J. (Conor Shery) and Moose (Gabriel LaBelle) are best friends; they are also heirs to an entire teen tradition in American cinema. The freshness here lies in the contrast between them (a gap open to conflicts in “societies”), which occurs more in the detail than in the whole: both are moderate crazy people, the kind who drink, smoke (and, sporadically, are chased by police cars), but, when the time comes, they bow their heads before their parents. A.J.’s father, by the way, is a judge who fights to contradict the saying “a cobbler’s house, a cobblestone”, but manages, at most, to make his son a little more insecure than his partner (whom LaBelle plays as a crazy sweetheart, the opposite of her “Spielberg” Fabelman).
Partnerships, in the plural because in addition to sharing the profits from the snack shack and some marijuana cigarettes, the two, of course, are enchanted by the same girl, Brooke (Mika Abdalla, casting apparently conscious of her resemblance to Danica McKellar, Winnie Cooper from The Wonder Years). Brooke reciprocates A.J.’s enchantment, but while the boy doesn’t make a move, she has fun with Moose, who is a good kisser. The triangle is cliché, but it is in an unshakably airy film, which has no intention of turning these teenagers inside out, of exposing their depths, what is unspeakable to them, as Hughes does — occasionally, the spirits emerge in floating shards, but that’s it. In this sense, the atmosphere is more reminiscent of Greg Mottola’s Adventureland, with the difference that, there, a rancid fog seemed to accumulate around those final crescendos. In this story, the representation of the last curves that lead to adulthood falls to Shane (Nick Robinson), the oldest friend who acts as an ambiguous mentor, sometimes inciting A.J. and Moose to youthful impulsiveness, sometimes pointing them towards maturity. But Shane does not complete the curve to adulthood. Death imposes itself and is duly felt; not as a stagnant consciousness, but as yet another movement of departures, countless and inevitable. The farewell through death stands as an announcement of another, less tragic and more tender; no less painful, but alive and for life.
Snack Shack portrays a single summer, indicating that summers come and go; however, those that span adolescence, compact and blow the contradictions of being there. It is one of those films in which the adventures are transmuted into the atmosphere itself, in which the conflicts are less concrete than the colours, tones, faces and looks. In this game of tender volatilities, a discreet contradiction is founded: the film stands as, probably, the last kiosk of an adolescence that came into the world with more enthusiasm than fear, between transits and procedures, not between modesty and paralysis. An adolescence without rehearsal, unprogrammed, pre-algorithmic. Thirsty and hungry for hot dogs with “fuck” written in ketchup.