Mundo da lua – Clássicos da Cultura

por Álvaro André Zeini Cruz

Tudo dá errado no aniversário de Lucas Silva e Silva (Luciano Amaral). O presente que ele gostaria de ganhar não está ao alcance das contas dos pais, os amigos não comparecem à festinha em plenas férias, o bolo esquecido fora da geladeira desanda, a irmã mais velha ganha presentes mais divertidos do que ele. Não faltam conflitos, portanto, acerca desse aniversário de 10 anos, pequeno evento planejado para que o episódio piloto nos apresente o universo desta série infantil — a casa e as pessoas que vivem no Mundo da Lua.

É verdade que o Mundo da Lua pertence a Lucas; é fruto dessa imaginação infantil, que ganha um canal para reverberar. Mas a vida da casa revela um espaço de caos criativo, que responde aos desafios da rotina doméstica com som e alegria: Juliana (Mayana Blum), a filha mais velha, ouve o novo disco de Big Bad Boys, Carolina (Mira Haar), a mãe, expõe seu pragmatismo irônico em frases que atravessam cômodos (“eu não tenho culpa que você nasceu em janeiro”), Rosa (Anna D’Lira), a empregada, conversa com Ney Nunes, o locutor de rádio, combinando com ele um parabéns a Lucas. Há também os convidados, que garantem ao piloto as participações luxuosas de Lucinha Lins, Liana Duval e Laura Cardoso. É numa conversa entre essas duas últimas que a extensão familiar é apresentada nos retratos ao longo da escada, que contrastam Silvas e delimitam os Silva e Silva (sobrenome brasileiríssimo, colocado ao quadrado). Essa família nuclear, de onde emerge a mais genuína imaginação, é também a família mais média, comum, cercada pelos problemas mais ordinários — ressignificados no extraordinário de Lucas — e pelas limitações financeiras.

Pois se numa primeira camada o piloto de Mundo da Lua apresenta o típico conflito infantil da criança que quer ganhar presentes legais (brinquedos, de preferência), no subtexto, retrata a família média-média (ao quadrado) brasileira, estrangulada pela economia do país no início dos anos 90. Assim, os Silva e Silva até conseguem manter uma empregada por conta da precarização desse trabalho à época (situação que só mudou em 2012 com a “PEC das domésticas”), mas voltam de mãos abanando — e com um menino emburrado — com o presente constatado (durante a compra) além dos bolsos. E embora o pai se proponha a comprar outro bolo para substituir o que desandou, diz à Rosa sobre os salgadinhos (também prejudicados) que dê um jeito. Esse pai, aliás, é ninguém menos do que Antônio Fagundes — na época dividindo-se entre Mundo da Lua e O Dono do Mundo —, que compõe Rogério Silva como um patriarca carinhoso, brincalhão e de coração mole. Avesso à posição de autoridade, esse pai “encruzeirado” pede auxílio à paternidade que o antecede — espera que o presente do avô, Orlando (Gianfrancesco Guarnieri) supra as expectativas da Lucas.

Mas o telescópio que o avô fabrica é quebrado (a travessura infantil sabota a invenção adulta), e o presente que resta não é presente; isto é, não é deste tempo, é uma herança de avô para neto. Abre-se a cena central, aquela em que o avô apresenta o dispositivo “mágico”, que grava a voz emitindo sons e piscando luzes spielbergianas. “Você pode contar histórias, você pode inventar”, explica o avô ao neto ajoelhado diante dele, como quem ouve um causo. “Como que funciona?”, pergunta Lucas, numa curiosidade cujo tom talvez só se possibilite na infância. “Tudo por acontecer”, replica esse comovente avô incitador de sonhos, dando a deixa para que Lucas encontre um canto da sala (outra aptidão típica da criança) para reimaginar um aniversário menos desarranjado. Mas, sobretudo, para restituir o poder de compra dos pais.

Ironicamente, a economia do piloto — as demandas da apresentação desse universo narrativo/estilístico — arroxam também o mundo da lua: a imaginação de Lucas é um ensaio breve neste episódio inicial. O voo não é dos mais altos: num movimento de autoafirmação da infância, Lucas fantasia a presença da família (completa) e dos amigos, e os presentes legais (um capacete de astronauta, uma filmadora); presentes que retroalimentam a brincadeira e o registro, nesta série em que contar histórias é ato primordial (em episódios vindouros, Lucas irá à lua, correrá na F1…). De volta à realidade, pais e filhos se preparam para dormir quando, num desfecho mágico (típico dos filmes de Natal, posto aqui no aniversário), chega o tio desajustado, irmão de Rogério, que dá a Lucas um videogame, ainda que precise de alguns cruzeiros emprestados para o táxi. Tio Dudu é interpretado por Flávio de Souza, criador de Mundo da Lua, que usufrui da posição propícia de Deus ex machina para negociar sonho e realidade, dando ao sobrinho um presente complementar ao outro, sonoro. Essa luz (eletrônica) não aparece no episódio, porque importa mais esse pequeno milagre feito pelo adulto infante (e porque qualquer pai diria que é tarde para instalar um videogame); pedacinho de sonho tornado realidade, numa casa que não fica na lua, mas num Brasil com crateras severas.