O Amor é um zoom

por Álvaro André Zeini Cruz

– Por que continua me machucando?

– Não sei. Deve ser amor.

Este diálogo entre Kazuaki (Ayumu Nakajima) e Meiko (Kotone Furukawa) ocorre no primeiro de três episódios de Roda da fortuna e da fantasia, quando Meiko o procura depois de ter conhecido Tsugumi (Hyunri), com quem Kazuaki inicia um romance. Meiko é a ex, a ferida não cicatrizada que volta armada dos detalhes desse novo romance, fornecidos inocentemente pela própria Tsugumi quando o destino quis que elas dividissem um táxi. Encapada em crueldade e ressentimento, Meiko volta a arder, mas essa camada externa é ilusória, visto que o que a move é o amor não superado, a despeito das traições que ela cometeu. Quando o confronto, manipulado por ela num xadrez dialogado em avanços e recuos milimétricos, chega ao clímax, Meiko revela uma ferida recém-aberta: a consciência de que houve magia entre Kazuaki e Tsugumi. E não há nada que possa competir com a magia de alguns encontros.

É através de Meiko que o longa episódico inicia a abordagem desse tema paradoxal, visto que é banal e caro ao cinema de Ryûsuke Hamaguchi: o amor como uma jornada em que a boa fortuna envolve precisões misteriosas, sincronicidades múltiplas, temporais, espaciais, metafísicas. Não basta as escadas rolantes estarem alinhadas, é preciso que, como no terceiro episódio, elas se complementem, disponham as faces frente a frente, coincidam os encontros na dimensão dos segundos, confiando nos mistérios, na fantasia. Consciente da complexidade desse sincronismo, que, se existiu um dia, escorreu-lhe pelos dedos, Meiko fantasia uma mágica própria: quando o ex se junta a ela e a Tsugumi numa mesa de café, Meiko confessa seu amor, fantasiando que esse novo relacionamento é mero condão para restituir o romance que tiveram. Mas não existe “mero” condão, porque tudo na dimensão da magia é único e especial. Resta a Meiko a mágica da mente, da fantasia individual que culmina nas mãos sobre o rosto. Alívio ou vergonha? Só o que há de factual é a irrupção do zoom in, que corta, cutuca, tentando esmiuçar em vão o gesto enigmático. Parece os de Hong Sang-Soo, mas aqui é um zoom extraordinário (tal qual a mágica) e, por isso, mais violento, lembrando que o próprio recurso é uma ilusão ótica, um abracadabra que dá a impressão de movimento.

Quando o zoom recua – com a mesma violência que abre, arde, impede as cicatrizações – é para reestabelecer a realidade terrena e a verdade que se consolida noutro episódio: talvez o reencontro ocorra para lembrar a Meiko a existência de Kazuaki, para lembrá-la que, quando os feitiços não duram ou os encantos simplesmente se desencontram, a consciência de que o outro vive deveria bastar. Neste Hamaguchi, o amor é esse zoom, o impulso que deve ser feito num timing escorregadio, volátil, que, se der certo, faz com que as rodas-gigantes se encontrem e se encaixem como rodas dentadas. Se não, resta a colisão, os pedaços. A questão é essa: o jogo, na maioria das vezes, é de carrinho de bate-bate. Os outros dois episódios aprofundam tudo isso, mas mais palavras são desnecessárias. Até porque corre-se o risco de tentar dar mil palavras ao que é indescritível, seja porque tem magia, seja porque machuca.