Novela a pique

por Álvaro André Zeini Cruz

Mania de Você é uma novela costeira-oceânica que nunca navegou; pelo contrário, desde o início, sobrevive a um moroso naufrágio, no qual os primeiros compartimentos inundados foram o da lógica e o da consistência das personagens. Esta semana, no entanto, uma cena anunciou que o bateau mouche de Angra dos Reis está vindo a pique, e o staff de socorristas já não se encontra a bordo. Agora é salve-se quem puder (sem Daniel Ortiz), desde que não gastem dinheiro com o resgate.

Falo da cena que virou piada: aquela em que Mércia (Adriana Esteves) cai em mais uma armadilha de Dick-Molina-Vigarista e quase se afoga em alto-mar. Mércia, uma vilã tão consistente quanto o Bocão da Royal, não sabe nadar, mas cede aos caprichos do amante que já tentou matá-la afogada antes. Aliás, é até possível alguma leitura simbólica dessa mania de homicídios aquáticos, nenhum bem-sucedido (a não ser o de Henrique, na plot Parasita, do qual ninguém lembra), mas não creio que, a essa altura, alguém se disponha a tentar espremer alguma semiótica daí. Lidemos, portanto, com as superfícies: Mércia, nessa canoa/boia furada, clamando socorro ao amante diante de um céu emprestado de wallpaper do Windows XP. O chroma-key é tosco? É, mas muito já se falou sobre, e isso é só mais um detalhe no conjunto da obra. Pode-se dizer que a cena equivale à quebra do Titanic, aquela que ocasiona o apagar das luzes antes do fim.

Nessa reta final de uma novela que uniu 19 pontos de audiência na mania de falar mal, lançaram Adriana ao mar, numa cena sem qualquer coerência espacial. Se no stablishing shot, a impressão é de que Mércia e Molina estão próximos — um plano aberto mostra Mércia (de costas) na água, perto de Molina, que está na popa do iate —, ao longo da cena, esse estabelecimento vai por água abaixo. Ao perceber que a boia se esvazia, Mércia implora ajuda, mas Molina finge não ouvi-la, como se estivessem distantes ou como se ela tivesse se afastado; a mise en scène, no entanto, não indica ou constrói nenhuma dessas coisas. Até porque não há espacialidade para além do rosto de Mércia, espremido entre o vai e vem da boia e o céu digital. Articula-se a isso uma imagem subaquática (que parece emprestada da abertura) e o contracampo de um ator que, incluído aos 45 do segundo tempo, vive um vilão inexplicável, que, entre bons drinks, resolveu debochar sadicamente da comparsa de quem precisou e ainda precisa. Entre risos e gestos excessivos, Rodrigo Lombardi explicita essa caricatura com profundidade de piscina infantil, uma máscara vilanesca que cobre a superfície — ou seja, é o vinil da piscininha. 

Entre campo e contracampo, mentirinha e exagero diluem a tensão numa edição que serviria a Bazin para uma continuidade de seu Montagem proibida. Afogada em farsas que vão da cena em estúdio às motivações das personagens, Adriana Esteves, a estrela da casa, entrega o que pode, que é pouco, ainda que mais do que a novela mereça. Esteves amarga uma figura cuja biruta deu cambalhotas ao longo da trama para que o jogo, supostamente, pudesse virar o tempo todo. No sistema meritocrático das vilanias, Mércia e Molina devem figurar lá nos últimos lugares da fila do pão seco, buscando um desengasgo depois de engolirem muita água. A esta altura, aparentemente, nem fazem questão de nadar tanto; a impressão é de que há uma consciência de se estar a Deus-dará, sem bote, batendo as pernas por instinto e sem grandes preocupações, porque nem os tubarões ficaram.

Para uma novela bater, é preciso existir uma verdade transversal, que parte lá da sinopse aprovada para navegar entre atores, diretores, equipes, até ancorar na rotina do telespectador. Não há cliffhanger de plot twist que funcione sem esse gancho maior, essa âncora de uma crença compartilhada que atravessa a todos, impondo uma verdade universal. E se é para falar a verdade, que seja dita: Mania de Você é uma novela abandonada antes de zarpar; uma trama esquenta-banco, como a última de Lícia Manzo (que era melhor), brifada para não gastar muito, nem perder tanta audiência. Justiça seja feita, deve ser um inferno escrever assim. A julgar pela cena desta semana, a Globo não quer gastar mais nenhum tostão para salvar a pele ou a honra dos envolvidos, nem que seja com coletes salva-vidas jogados da praia. Os atores fazem o que podem, cumprindo contrato, trabalhando quase como violinistas obrigados a tocar um repertório nonsense, não no Titanic, mas no casco do baleeiro de Arthur Gordon Pyn.