Nos Bastidores das notícias exclusivas excluídas do telejornal

por Álvaro André Zeini Cruz

Em uma casa de apos… digo, em um escritório no alto de um desses edifícios-refletores-de-nuvens, no coração da Faria Lima, o CEO da financeira percorria, em passos firmes, os corredores entre mesas e ternos em discreto rebuliço, na sala que ele chamava de “baixo clero”. Na verdade, quase todos estavam agitados, menos um sujeito, que parecia estarrecido, um pouco tenso. Surpreendentemente ele não olhava para a tela do computador, nem acompanhava projeções pelo celular. João A. encarava a televisão — aquele aparelho já meio intruso, démodé — com as sobrancelhas passando de uma curvatura preocupada à incrédula.

— Qual é, rapaz? O que você viu vai nos derrubar ou vai nos pôr pra cima?

João A., que sempre tensionava os ombros na presença do Dr. Fontana Barreto, desta vez ouviu-o, daquele jeito; com o devido costume, mas sem registrar sequer a entonação interrogativa.

— Oi? — retribuiu, quase num soluço respeitoso.

— Isso, na TV. Seja lá o que for, pelo jeito só você aqui viu. Vai cair ou vai disparar? É por essas e outras que eu não canso de repetir: um olho no peixe, outro, no gato.

João A. conseguiu entender e tentou se recompor antes de apontar aquela percepção ainda sem base, sem números ou gráficos. Que era ainda uma questão de crença e aposta nesses órgãos meio enganosos que são os olhos e ouvidos.

— É que… Eles não falaram da gente. Nada. Não agora à tarde. Acho que nem pela manhã.

O Dr. Fontana Barreto virou-se como o Robocop dos filmes dos anos 1980, época em que a empresa mandava fax à emissora. Encarou, pela primeira vez sem ser de soslaio, a tela da TV, que resplandecia o semicírculo jornalístico “esporte fino” em debates que pareciam escorrer, como de costume.

— Ora, você não deve ter visto direito — disse o CEO antes de engolir seco. — É improvável que não tenham nos mencionado ao menos…

— Nenhuma. Tenho certeza — respondeu João A., firme como tinha que ser o pessimismo do mercado nestes dias.

— Vai ver usaram um sinônimo. Talvez alguma coisa até mais lisonjeira — ponderou o Dr. — Empresariado, mundo dos negócios. Ou inventaram algum epíteto melhor do que do que essa distorção do nome da avenida.

— Nem Faria Limer, nem “donos da bola”, nem “Capital”. A nossa mão nunca foi tão invisível, Dr. “Mercado”, aliás, não usaram nem na matéria de antes; preferiram entrevistar as pessoas na feira do que num hortifrúti climatizado.

O Dr. Fontana Barreto olhou para uma ponta e, como se sua retina tivesse poderes magnéticos, puxou em passos largos Dona Flávia, sua secretária.

— Dona Flávia, mande uma mensagem para a Érica. Eu sei, eu sei que ela está no ar, mas pergunte se tem alguma inserção programada, papo com algum economista, sei lá. Ela é rápida, responde assim que estiver off.

Acostumada a esse tipo de tarefa, Dona Flávia digitou com a agilidade adquirida para emergências, mas a resposta não veio com a costumeira prontidão. Ou melhor, não veio.

— A senhora mandou no celular de Brasília? No do Rio?

— Nos três celulares, e um direct no Twitter, Doutor. É algum problema sério? — emendou com uma voz acolhedoramente preocupada.

— Me coloque, então, com o Kabal — ordenou o CEO, antes de diminuir o volume. — O rapaz aqui diz que não nos mencionaram o dia todo.

— Impossível — respondeu Dona Flávia, a descrença estampada no olhar de reprovação a João A. enquanto buscava um nome na agenda do celular. — Alô, Jaqueline! Aqui é Flávia, do Dr. Fontana Barreto. Tudo. Ele precisa falar com o doutor Kabal. É urgente.

O Doutor Fontana Barreto está acostumado com que esse tipo de trâmite se resolva rapidamente; Dona Flávia liga, pede, e ele é atendido em segundos que não completam as duas mãos. Mas nesse dia atípico, Dona Flávia foi mudando a feição enquanto ouvia algo na linha.

— É, a Jaqueline, assistente… — disse titubeante ao CEO.

— Eu sei quem é a Jaqueline, Dona Flávia! Diga logo de uma vez.

Dona Flávia achou mais prudente sussurrar o que precisava ser dito; por isso, aproximou-se o bastante para que nem João A. pudesse ouvir.

— O Doutor Kabal disse que não pode atendê-lo agora.

Fontana Barreto se contorceu um pouco, tentando disfarçar a contrariedade.

— Ele disse que horas vai retornar? — perguntou, afrouxando o nó da gravata numa inquietude ainda sóbria, chique.

— Disse para o senhor tentar à noite. Ou vocês se falam no golf, no sábado.

Àquela altura, Dona Flávia adquiria a passos largos a incomum capacidade de gaguejar e estava quase na mesma palidez de João A., que, por sua vez, tentava obedecer a ordem do chefe; um olho no peixe, outro no gato, um na situação, outro na televisão, que teimava em não falar do Mercado.

Outro movimento robocopiano e Fontana Barreto apanhou abrutamente o celular.

— Dona Jaqueline, diga ao seu superior que eu preciso falar-lhe com urgência. [Pausa] Que raio de pauta é essa que ele não pode parar um minuto? Aliás, que pauta é essa que, segundo meu analista júnior, comeu todo nosso tempo de tela, hein, Dona Jaqueline?

João A. e Dona Flávia assistiam ao chefe e puderam perceber que, ao longo da fala incógnita de Dona Jaqueline, ele foi perdendo pouco a pouco a corpulência e murchando alguns anos. Abaixou o celular sem desligá-lo; era como se o braço de um boneco de posto tivesse perdido o ar. Um muxoxo anunciou a fala.

— Não dá para confiar em mais ninguém mesmo — soltou, sentindo-se tão traído quanto cabisbaixo.

Dona Flávia puxou o chefe pelo braço mole com uma intimidade pouco pública.

— O que houve? É o dólar? O ministro? Meu Deus, eles almoçaram com o presidente?!

Atônito, sem se preocupar em esconder de João A. (que parecia ter perdido o ar para fazer vibrar as cordas vocais), Fontana Barreto derramou as palavras como leite morno sobre à mesa, cuja beirada ele usava contra a própria instabilidade ancorando ali as nádegas com sobrepeso.

— Houve uma mudança na linha editorial. Disseram que não há mais espaço na grade… para métricas, macroeconomia, dólar, bolsa, PIB, Banco Central, superávit, nada disso. Retomam esses assuntos um dia, quando concluírem a produção e a exibição de todo o Telecurso de Economia.

Silêncio. Dona Flávia nem sabia que ainda faziam o tal curso. Temeroso de como tudo isso atingiria seu emprego, João A. tomou fôlego e decidiu arriscar: 

— E até lá eles vão falar do que, Dr.?

Dona Flávia não esperou resposta. De supetão, apanhou o telefone. Nervosa, gritou com Jaqueline, a colega que tinha o mesmo cargo que ela, do outro lado da linha:

— Ouviu a pergunta do nosso funcionário, Jaqueline? Viu o que vocês fizeram com o Dr. Fontana Barreto, Jaqueline? Um homem que só pensa no crescimento do país, Jaqueline! O Mercado não pode passar esse tipo de nervoso, Jaque…

Foi a vez de Dona Flávia esvaziar, quase como se ela fosse dona da empresa, como se tirasse mais do que dez mil reais mensais, um plano de saúde com quarto individual e 50% de desconto em camisas Dudalina. 

— O que foi que ela disse? — perguntou Fontana Barreto, lutando contra a disparada do formigamento no braço esquerdo.

Sempre eficiente, Dona Flávia fez o que tinha que ser feito: despejou a verdade dura, nua e crua.

— Ela disse que a pauta agora é a rua. É quem paga a conta.

— O Assinante? — perguntou Fontana Barreto tentando se iludir.

— Não. Os outros.

Doutor Fontana Barreto apoiou-se em João A. e, por um instante, considerou que morreria sem saber o que aquele A. abreviava; sem lembrar sequer o primeiro nome desse funcionário exemplar, que trouxe à tona a expulsão do Mercado das pauta televisiva. Quando Dona Flávia perguntou se o CEO queria o médico, a frase “é quem paga a conta” ainda ecoava como um déjà vu na cabeça do executivo, ao mesmo tempo em que envenenava o sangue azul do sujeito que era também filho de um Dr. Fontana Barreto, neto de outro Dr. Fontana Barreto, todos com títulos auto-outorgados.

Quando — entre fonemas que lutavam para passar pela goela sufocada no colarinho aberto — o Dr. Fontana Barreto conseguiu balbuciar as palavras “pai” e “mãe”, João A. achou que o chefe via espíritos. Mais pragmática, Dona Flávia estranhou o CEO, bem pra lá dos 70, ter pais vivos (e, mais do que isso, ela não saber). Mas Dr. Fontana Barreto logo desfez esses enganos, completando o pedido com suas últimas palavras:

— … de santo.

Seu último desejo foi espantar o encosto do povo.