Norberto, de Renascer

por Álvaro André Zeini Cruz

Norberto. Nascido em 1993 pela fita de carbono da máquina de Benedito Ruy Barbosa, e encarnado por Nelson Xavier com uma matreiragem discreta, quase indolente, que por vezes dava brecha a uma saudade singela, feita no subtexto. Renascido em 2024 na pele de Matheus Nachtergaele (couro original de fábrica, disse dia desses), com uma esperteza solar que, agora, irradia e corta, a ponto de atravessar a tela em olhares, gestos e palavras.  A saudade de sua Jacutinga (Juliana Paes) ressurge nessa mesma toada: não é mais sentimento revolvido internamente, mas a ausência marcada nesse corpo presente que guarda da casa à peruca deixada para trás. Saudade tão cheia que não sobra espaço à tristeza, consciente de que a falta é parte da vida.

Norberto é esse comentarista do tempo, homem do armarinho que costura passado e presente, vislumbrando as hipóteses de futuro. É, portanto, a personificação da novela dentro da novela, a “grande fofoca” (como dizia Daniel Filho) com corpo encontrado. Corpo que, desde o primeiro capítulo, surge de esguelha na pinimba dos coronéis, não sem antes lustrar o balcão de sua venda com uma boa cuspadela. Norberto atravessa as fases, dispondo-se generosamente como âncora desse universo, porto seguro nessa Bahia interior, das plantações de cacau. Contudo, não basta a esse comentarista do nordesten brincar com as horas tão singulares de uma trama que segue em outro compasso. É preciso viajar pelos espaços, entrar de maneira excepcional e exponencial nas casas das pessoas…

Na primeira vez em que quebra a quarta parede, Norberto comenta sobre Venâncio (Fábio Lago) — “é que nem se diz por aí: pra quem já era estranho, aquele ali tá cada dia mais esquisito”. De lá para cá, já estivemos em todos os lugares dessa mercearia, ouvimos comentários, tivemos ganchos antecipados e até enxotados com o pano de prato já fomos. Inúmeras vezes, de diferentes formas, flagramos os olhares que nos são lançados não como derrubada uniforme da quarta parede, mas como marretadas que nos convidam ao jogo e à dança. Pois além de tornar-se cada vez mais íntima nesse desenrolar do novelo (da novela), a cumplicidade que Norberto nos propõe é provocativa — em que ponto da cena ele estenderá o balcão e nos colocará na conversa? Façam suas apostas. Norberto do “tem tudo”, faz de tudo, inclusive reforma; faz de toda casa brasileira um puxadinho da venda. Faz da própria venda essa máquina do tempo arrojada, que interliga também os espaços de um país continental.

Figura memorialista, Norberto conjuga com José Inocêncio (Marcos Palmeira) e Rachid (Almir Sater) uma espécie de triunvirato da oralidade, das histórias passadas no boca a boca. A relação com Rachid é ainda mais particular, já que ambos conjecturam uma masculinidade singular nesse universo onde os homens são a lei, e a aplicação das leis são as tocaias. Nessa aliança de comerciantes, há o mascate, que viaja para salvar e suprir as necessidades pontuais, e este outro sujeito, que se enraíza sem plantação, sem pé de cacau, mas nesse alicerce inabalável, que sustenta e guarda dos duráveis aos perecíveis, suprindo as casas e as vidas ao redor. Não à toa, causou comoção a despedida de Rachid, cena em que o libanês avisa — Norberto não pode ir embora. Quem vai cuidar da vila? Da rádio fofoca? Ambiente que estende e retroalimenta Norberto, a venda é, a um só tempo, espaço de trânsito e estabelecimento, ponto de encontro e porta de acolhimento àquele mundo. Norberto é um guardião do limiar desse entre-lugar comunitário, meio público, meio privado. Um convite dele é também a melhor das tocaias: a conversa, a prosa, a língua amolada, instrumento/colheitadeira que Norberto usa para apaziguar esse mundo de barril de pólvora, para aconselhar e preparar os seus, aqueles a quem quer bem.

A escalação de Nachtergaele é tão afiada quanto o personagem, pois se aproveita de uma autoconsciência da imagem do ator, de um memorial televisivo  carregado de outras figuras sagazes — Cintura Fina (de Hilda Furacão), Teodorico Raposo (Os Maias), pai Helinho (Da Cor do pecado), Carreirinha (América), Olegário Maciel (Cine Holliúdy). Mas evoca, sobretudo, a memória transmídiática, nascida na televisão, consolidada no cinema e assentada nos retornos/reprises à TV: retoma a figura de João Grilo, esse outro contador safo que, de alguma maneira, está internalizado e amadurecido em Norberto, e que, por uma sincronicidade, está prometido para reaparecer logo, meses depois que Norberto nos deixar (ao menos como figura televisiva diária).

Isso porque desconfio que Norberto está, mais do que nunca, indissociável de Renascer. Se antes, quando eu mencionava estudar a novela de 1993, era comum ouvir “é a novela da Buba” ou “a novela do Tião Galinha”, agora deve somar-se a essas sínteses uma outra: a novela do Norberto, aquele que falava com a gente, que nos chamava pelo pronome “tu”, como se conversasse com cada espectador. Novela de Norberto, cuja etimologia diz “ilustre do Norte”, ponto cardeal que aqui se coloca mais a leste, mas invoca  também um imaginário a oeste, do dono do saloon. Norberto que norteia a trama como bússola capaz de transitar entre espaços públicos e privados, entre cultura popular e massiva, sem perder esse magnetismo que, diariamente, estilhaça a tela. Norberto, de Renascer.