Matthew Perry e uma televisão

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por Álvaro André Zeini Cruz

Matthew Perry morre afogado na banheira.

Para além de surrupiar a atenção alheia, manchetes jornalísticas têm o condão de provocarem a criação de imagens. Não dessas palpáveis em telas, papéis, mas imagens mentais, imaginadas. Nesse sentido, as manchetes que carregam mortes deveriam ter algum cuidado na maneira como as anunciam, já que, de um mínimo detalhamento, é quase impossível não imaginar essa morte, não a concretizar em imagem mental. Claro, estou sendo Pollyana; se já é do caráter da manchete apelar pela atenção do leitor, em tempos de clickbait, manchetes fúnebres sobre personalidades primeiro sintetizam a morte (como se fosse possível sintetizar o que só conhecemos daqui, da vida) para depois resgatarem algum detalhe controverso da vida encerrada (como o caso da infame manchete da Folha de São Paulo sobre a morte de Rita Lee).

Sorte é que, como já disse em outro texto (reelaborando, em partes, uma ideia do Prof. Ettienne Samain), as imagens são um pouco bolas de sinuca, e esta, da banheira mórbida, proeminente de algum tabloide bem ranqueado no Google Notícias (justamente por ser apelativa), bateu na bola-imagem que carrega outra banheira: aquela em que se apertam Chandler (Perry) e Mônica (Courtney Cox), e ela, em pequenos mergulhos sucessivos, escapa do flagra de Joey (Matt LeBlanc) para que o recém-namorado garanta com o amigo uma boquinha para mais tarde.

As bolas rolam (dentro da caixola) e, desta, passo a uma das cenas mais engraçadas do casal (que, segundo consta, não era para ser casal): quando se esquece de comprar um presente para Mônica, Chandler dá a ela uma mix tape romântica, supostamente gravada por ele. Mônica se encanta com a sensibilidade do presente e até encontra músicas marcantes para o casal, até que… o timbre esganiçado surge na gravação, revelando um duplo esquecimento — a fita era presente de Janice, a ex que dispensa apresentações.

Poderiam ser outras: o embate “sedutor” entre Chandler e Phoebe, o cochilo-passaporte à Tulsa, a aposta da troca de apartamentos, o caso do cheesecake, a comunicação com Joey de dentro da caixa (a graça no gestual do dedo indicador que desponta por um buraco). Dia desses, na gag da porta partida ao meio, peguei-me pensando “como gravar uma queda como essa na dinâmica de set de uma sitcom?”. Há pouco, dei play no “continue assistindo” da HBO Max; rodou o episódio 4 da 6ª temporada, com Chandler/Perry servindo de escada para a plot da hérnia de Joey/LeBlanc, parceiro de cena com quem tinha uma química evidente, a ponto de se tornar uma das marcas mais lembradas de Friends.

Brinco com meus alunos que Friends é minha série de dormir; não porque me cause sono (talvez para as novas gerações, sim; eu recorro à melatonina mesmo), mas porque, a mim, traz uma sensação de que “esta é a minha casa, e esta é a TV da minha casa exibindo aquilo que eu via em outras casas em que morei, em outras TVs que tive, desde a época em que era preciso consultar os horários na revista Monet”. É um misto de memória, conforto e segurança de ter ao alcance algo que restitui a um tempo seguro, longínquo, mas nem tanto (afinal, eu estava vivo). Ao mesmo tempo, traz lembranças bem mais recentes porque são personagens-presenças televisivas e, por isso mesmo, domésticas, em situações que ora podem nos tirar um riso, ora podem, simplesmente, estar ali, como som, imagem, companhia.

Em blazers com ombreiras, camisas listradas, coletes e jeans de cintura alta, a imagem de Perry como Chandler Bing talvez seja (junto com Jerry Seinfeld) uma das principais sínteses da televisão americana nos anos 1990. Uma televisão que começava a chegar ao Brasil nos canais a cabo, numa época em que TV ainda era esse aparelho-fogueira, muitas vezes, aceso à toa, apenas para aquecer (McLuhan que me desculpe), para ocupar, preencher. Para dar a impressão “casa”.

E se o Chandler Bing de Matthew ficou conhecido pelo sarcasmo, Perry o fazia com uma pitada de lovable loser, mas com o cuidado — e habilidade — de não repetir o personagem de David Schwimmer. Assim, criou esse sujeito singular, às vezes ácido e adorável; às vezes, vice-versa. A morte de Matthew Perry é também a morte do astro de uma sitcom (gênero moribundo) sobre jovens adultos de uma televisão que não existe mais, ainda que Friends viva esse paradoxo de estar presente (afinal, permanece no streaming como poucas da época conseguem) e ser passado, brinquedo nostálgico (lucrativo) nas mãos da HBO Max. Morte real e televisiva, que manchete de tabloide nenhum dá conta de sintetizar.