Matar. Vingar. Repetir.

Fábio Fernandes

De tempos em tempos, surgem filmes que têm tudo para ser clássicos cult. Filmes de baixo orçamento, mas com ótimos roteiros e atuações impecáveis. Infelizmente, a dinâmica da distribuição e recepção dos filmes hoje é tal que a maioria esmagadora deles nem chega mais às salas, e se perde na vastidão de opções (quase todas de gosto duvidoso) dos canais de streaming. 

Matar, Vingar, Repetir (Redux Redux) é um desses filmes. A produção de 2025, escrita e dirigida pelos irmãos Kevin e Matthew McManus, protagonizada pela irmã deles, Michaela (conhecida do público brasileiro por séries como One Tree HillLaw and Order: Special Victims Unit e The Orville) não passou nos cinemas daqui e foi direto para o streaming (HBO Max). E foi ali, por recomendação de um amigo, que eu, que nunca tinha ouvido falar desse filme, o assisti.

E me surpreendi. Pode parecer bobagem em tempos de uma certa baixa da crítica e ascensão dos influencers que são convidados ao cinema em troca de mimos e elogios superficiais aos filmes, mas é muito bom ver um filme e se sentir genuinamente feliz – e sem medo de usar adjetivos como instigante, porque neste caso eles são absolutamente (advérbios também valem) adequados. 

A cena de abertura é impactante e tem tudo para entrar para a história – e, claro, por isso mesmo eu não posso descrevê-la aqui: é algo que você tem que ver para sentir. Mas eu posso falar sobre o resto do filme (sem spoilers, claro): Irene Kelly perdeu a filha, que foi brutalmente assassinada por um cozinheiro de lanchonete vagabunda chamado Neville. E ela sai em busca de vingança. Até aí é um filme como tantos outros.

A diferença é que Irene arruma um jeito de viajar entre universos paralelos. Seu objetivo é matar TODOS os Nevilles, de todos os universos possíveis, porque matar um só não satisfaz a fome de vingança (ou justiça, sejamos francos) dessa mulher que perdeu a vontade de viver com o feminicídio da filha. E ela de algum modo tenta compensar essa perda matando os Nevilles. As mortes variam de acordo com as circunstâncias: ora sufocamento, ora queimado vivo, ora afogado. Mas o modus operandi mais comum é mesmo encher o corpo do assassino a bala. 

Num filme bom (diga-se filme com roteiro competente) as coisas nunca correm como os protagonistas gostariam que corresse. E por isso a missão de Irene dá com os burros n’água quando ela, ao tentar matar mais um Neville, descobre na casa do sujeito uma outra jovem amarrada e machucada, que seria a próxima vítima dele. Mia, uma garota de apenas quinze anos, acaba sendo resgatada por Irene, que então se vê na obrigação de levá-la de volta para casa. Mas Mia não tem casa: é uma garota que fugiu da instituição onde morava e não vai voltar para lá nem amarrada. E, claro, ela também quer vingança contra todos os Nevilles. É então que percebemos que Irene já está ficando cansada de guerra e talvez queira pendurar as chuteiras depois de tanto sangue que ao fim e ao cabo não vai lhe devolver a filha morta. Só que, se ela já acabou de se vingar, Mia ainda nem começou – e esse é um dos grandes conflitos do filme.

À medida que o filme avança – principalmente da metade para o fim – a trilha sonora, que até então era discreta, quase inaudível, vai aumentando em volume e em presença, criando uma atmosfera oitentista à base de sintetizadores que lembram John Carpenter e James Cameron em seus melhores momentos. Enfim uma utilidade para essa homenagem saudosista que vai além do mero decalque de Stranger Things, por exemplo: Em Matar, Vingar, Repetir o som adquire a profundidade subjacente à tensão provocada pelo ritmo do filme, que não deixa o espectador em paz – como a própria Irene, que a certa altura do filme declara que nem sabe mais quem é ela, de tantos universos que percorreu em sua busca. Que, se não é uma busca inútil como a da personagem da canção Ronda, de Paulo Vanzolini, acaba se tornando igualmente uma busca sem fim, mesmo com todas as mortes bem-sucedidas.

Mas Matar, Vingar, Repetir não é um filme moralista. Ele tem um arco narrativo muito bem desenvolvido, com excelentes atuações. O destaque vai para Stella Marcus, que faz Mia – uma atriz muito jovem que ainda tem poucos filmes no currículo, mas que recentemente estreou no circuito off-Broadway com Curse of the Starving Class, peça de Sam Shepard com Christian Slater e Calista Flockheart no elenco. O roteiro é bem amarrado, sem furos (a sequência da busca de peças para a máquina de viagem entre universos, por exemplo, é ótima). 

Enquanto via o filme, eu me dava conta de uma coisa: ele tinha tudo para ser um novo Terminator. Embora a história seja diferente, o feeling (inclusive de desesperança) é bem parecido. Sem contar a protagonista forte, que em vários momentos lembra Linda Hamilton: o cartaz de lançamento nos cinemas dos EUA inclusive aposta nessa leve semelhança da atriz com Linda Hamilton, colocando-a com óculos escuros (que ela pouco usa no filme) e uma arma na mão. Se o efeito que eles queriam provocar era uma comparação com O Exterminador do Futuro, pelo menos para mim eles conseguiram: Redux Redux é um filme que tem tudo para ser um clássico cult. Mas, em tempos de streaming e pulverização extrema da audiência, acho muito pouco provável que isso aconteça.