por Álvaro André Zeini Cruz

“Mas será o Benedito?”, soltou uma espantada Josefa (Arlete Salles) ao flagrar a invasão Rivaldo (Augusto Madeira) e da esposa, Alaíde (Juliana Alves), à suíte da vilã Arminda (Grazi Massafera) em Três Graças. “Não, é o Aguinaldo”, replicou nervoso o porteiro do prédio da frente, completando a metalinguagem ligeira com os nomes de Benedito Ruy Barbosa e Aguinaldo Silva, novelistas consagrados no horário nobre; este último, um dos autores da atual novela das 9.
A cena foi ao ar após uma tríade de capítulos em que a dramaturgia reiterou pela ação a fala de Rivaldo — é o Aguinaldo. Das novelas regionalistas às urbanas, Aguinaldo Silva é conhecido por tecer tramas populares, com bordões e personagens que caem na boca do povo. Inclusive dois de sua fase mais recente deram o ar da graça na novela de agora — o mordomo Crô (Marcelo Serrado), que, antes, foi de Fina Estampa às salas de cinema; e o jornalista de fofoca Téo Pereira (Paulo Betti), que veio diretamente de Império para repercutir o flagrante de Zenilda (Andreia Horta) nos amantes Ferette (Murilo Benício) e Arminda.
Não que Três Graças precise de tais empréstimos, pois tem tipos bem fortes: depois de expropriar a escultura-título, a mocinha justiceira Gerluce (que virou verbo, “gerluçar”) vive uma construção marxista transversal (passando por classe, gênero e raça), compartilhando o protagonismo com a fiel escudeira Viviane (Gabriela Loran) e com Zenilda, responsável pelas catarses mais recentes da novela. Além delas, Arlete Salles lava a alma depois do papelão que lhe propuseram em novela anterior, o casal “Louquinha” é um sucesso, e o time de vilões conta com Massafera-megera-mexicanizada, Fernanda Vasconcellos como uma psicopata bem melhor do que as de Glória Perez, e Murilo Benício obviamente se divertindo, ora evocando trejeitos de um personagem cômico do passado (o Arthur de Pé na Jaca), mas também indo a outras referências — no palanque desses capítulos, seu Feretti encarnou Silvio Santos ao ter que interagir com um grupo de crianças.
Aliás, o festejo em praça pública me remeteu a um Aguinaldo anterior, dos primórdios, da novela em que sua autoria foi meio Porcina (às avessas) — um autor que nunca foi, apesar de ter sido. Falo de Roque Santeiro, novela projetada por Dias Gomes, mas que teve a maior parte de seus capítulos desenvolvida por Aguinaldo Silva, num claro caso de co-autoria. Era 1985 e Aguinaldo havia acabado de sair de uma trama urbana (Partido Alto, assinada com Glória Perez) para herdar a Asa Branca de Dias Gomes; cidade cinematográfica (habitada por artistas e lobisomens) televisionada, que lançou luz aos cenários subsequentes do autor (Santana do Agreste, Tubiacanga, Greenville). Asa Branca, cidade devota ao “homem debaixo de um santo”, que morreu defendendo seu canto, mas, que como Rogério (Eduardo Moscovis), desmorreu. Na trama de Gomes & Silva, Roque (José Wilker) volta “vivinho da silva” para desmascarar os poderosos (o coronel, o prefeito, o padre, o vendedor de medalhas) e revelar à cidade a farsa de sua morte e do consequente mito criado, iniciando um jogo de ameaças e recuos que envolve ir à praça para confessar a verdade. Como bem interpretam Michèle e Armand Mattelart no livro O Carnaval de Imagens, Roque Santeiro pontuava décadas de ditadura, desencarcerando a telenovela das alcovas domésticas e conduzindo a narrativa à praça pública, espaço de possibilidades sociais, políticas e culturais efervescentes que deveriam ser inerentes e inalienáveis; lugar onde Roque ameaçava reiteradamente implodir o próprio mito, numa dilatação típica da telenovela.
Em menor grau, Três Graças fez esse trânsito nas últimas semanas: se Feretti começa a ruir dentro de casa — no jantar catártico em que sua misoginia é confrontada por Viviane e Lorena (Alanis Guillen) —, extrapola agora para praças públicas distintas — a virtual, ocupada pela fofoca de Téo Pereira, e a material, construída em meio à favela da Chacrinha —, em capítulos que reuniram, entre o púlpito e a rua, diversas tramas e nomes do elenco. Kasper (Miguel Falabella) está por ali a postos para descobrir a escultura expropriada; Gerluce e Viviane põem em prática o engodo dos brincos à dupla de diminutivos Paulinho (Rômulo Estrela) e Juquinha (Gabriela Medvedovski), enquanto Joélly (Alana Cabral), inadvertidamente, é cercada pelos traficantes de crianças, uma trama que, ao que tudo indica, não está tão distante da principal, que acontece no palco (sob a mira incansável de Belo). É lá que Zenilda “desmorre” Rogério publicamente, e Moscovis dá o texto carregado de uma autoconsciência televisiva, mas também “memética”, já que remete à fala de Bianca Bin em O Outro Lado do Paraíso. Na novela de Walcyr Carrasco, a vingativa Clara saboreava a frase “vocês não sabem o prazer que é estar de volta”. Dispensado pela Globo — segundo ele próprio, sem muita cerimônia —, Aguinaldo teria motivos para emprestar a frase ipsis litteris, mas substituiu o “prazer” pela “alegria” na fala de Rogério. Talvez porque, nesse sentido, Três Graças tenha pouco de Roque Santeiro (o personagem): não é uma novela movida a acertos de contas extradiegéticos, mas intradiegéticos. Ainda assim, a luta de classes movida por Gerluce tem alegria e honestidade tão frontais que não só rememora as melhores obras de Aguinaldo Silva, como faz justiça até à memória de Gilberto Braga e Leonor Bassères, companheiros de Aguinaldo em Vale Tudo, cujo remake se restringiu a um pastiche acovardado. Isso porque, ao contrário da antecessora, há um Brasil em Três Graças. E há, agora, a praça, essa herança de Roque Santeiro, que movimentou capítulos recentes e respondeu à pergunta de Josefa — mas será o Aguinaldo? Sim, é o Aguinaldo, e em sua melhor forma.