Marty Supreme

por Álvaro André Zeini Cruz

Uma banheira despenca de um andar a outro; um cachorro é ejetado durante uma perseguição entre carros; um colar — quem diria — salva-se ao escoar ralo abaixo, mas, depois, escapa entre os dedos. A gravidade debocha de Marty Reisman (Timothée Chalamet), desviando-lhe essas “oportunidades” feitas em episódios típicos de uma screwball comedy. Nesta, o talento se restringe às mesas; no que resta da vida, os primeiros saques são boas sacadas de um sobrevivente, mas sobreviventes são afoitos, reativos, desajeitados — não conseguem sustentar a impressão de uma vida plena. Logo, a bola quica para fora da linha, e Marty recomeça o trabalho de nos provar que ele próprio é a força para onde gravitam os olhares.

Uma farsa, claro. Marty é mais um dos personagens intricadamente medíocres pelos quais se interessam os irmãos Safdie (aqui só um deles, Josh). O rompimento entre os diretores não desfaz certa fraternidade: Marty Supreme é um filme-irmão de Joias Brutas, sendo que lá, a fé de Howard (Adam Sandler) circundava eventos externos, atrelados a um destino afortunado pressuposto — e, obviamente, ilusório. Neste, a supremacia está em subordinar o próprio destino, ainda que os eventos dramáticos riam dessa crença do protagonista narcisista.

Tudo começa de fato quando Marty usa os tostões que descola de um jeito ou de outro para pagar o jantar alheio e flertar com Gwyneth Paltrow (na verdade, Kay Stone, uma atriz em baixa na carreira). O incidente incitante se completa quando o marido de Kay vem tirar satisfações com o esportista (ah, sim, Marty é jogador de tênis de mesa), e a conversa irônica acaba abrindo os olhos do empresário não para o esporte, mas para um novo mercado. Afinal, no capitalismo, esse é o jogo, não é mesmo?!

A proposta é que Marty embarque para o Japão como um bem remunerado bobo da corte. Mas um homem, além de ter seu orgulho, tem sua crença, e Marty se julga supremo, senhor do próprio destino. Nega a “oportunidade” e passa o resto do filme lidando com as peças que o destino prega a ele — entre elas, a banheira, o cachorro e o colar. Quando o patrocínio volta à mesa, o faz de maneira etimológica, com o pai-patrono dobrando a aposta da humilhação ao reconduzir Marty, o supremo, ao papel de menino levado. A escalação de Chalamet deixa tudo mais interessante ao enfiar esse imenso sedutor num corpo franzino, que tem como desafio sustentar tamanha segurança em meio aos obstáculos da corrida maluca. O efeito é curioso, já que Chalamet consegue a proeza de retroalimentar crença e frustração, de nos levar a autocensura — “não acredito que estou caindo na desse cara de novo”. Caímos, ainda que seja sempre por pouco tempo.

A farsa desse Don Juan risível não se sustenta, a não ser quando o filme encontra, enfim, uma verdade: o duelo final, quando o esporte, essa presença até então lateral, ocupa a tela. Paradoxalmente, outro engodo se desfaz: Marty Supreme se vende como um filme sobre esporte sem nunca o ser, já que, como escrevi no Letterbox, não é um filme sobre um talento em potencial ou sobre o potencial do talento, mas sobre como, apesar dele, pode-se ser potencialmente fodido. Entre os saques certeiros, estão estes últimos e aquele nos créditos iniciais, sob a ironia de “Forever Young”. Entre esses dois pontos, Marty Supreme é um filme sobre saques que iludem no primeiro encaixe no campo oposto, mas que acabam, inevitavelmente, quicando para além da mesa. Entre diegéticas bolas-foras, é uma bola dentro.