Lascas vistas — por Fábio Fernandes

2026

Hannah e Suas Irmãs: Revisão há muito desejada desse que para mim é um dos melhores filmes de Woody Allen. Aqui ele consegue o feito de equilibrar as obsessões de seus personagens com o humor típica de um comediante judeu nova-iorquino de meia-idade, saindo de Bergman e prestando uma bela homenagem a Três Irmãs, de Tchékov. Mas confesso que me incomodaram as (felizmente poucas) piadas sobre pedofilia, devido à polêmica que envolveria Allen anos depois.

Superman: Vi ano passado no cinema e revi assim que entrou no catálogo da HBO. Esqueçam todo o Synderverse: James Gunn marcou um gol de placa aqui. Este é um filme que mergulha fundo nas referências do super-herói nos quadrinhos da chamada Era de Prata (anos 1950 a 1970), atualizando-as para os tempos de hoje. Então, enquanto por um lado ele traz à tela grande o cão Krypto e nos apresenta uma Fortaleza da Solidão com robôs e um megacomputador ao estilo dos anos 1960, também nos traz alguns superseres criados mais recentemente, como Mr.  Terrific (o elenco todo está muito bom, mas Edi Gathegi brilha) e a Engenheira. Mesmo que você nunca tenha lido as HQs, dá pra entender perfeitamente a trama: afinal, ele foi concebido para ser um filme-pipoca no melhor sentido do termo, e cumpre o objetivo brilhantemente.

The Burmese Harp: eu estava me devendo esse clássico de Kon Ichikawa. Concebido uma década depois do fim da Segunda Guerra, é um daqueles filmes que não precisa fazer esforço para passar sua mensagem: a guerra é insana e só o que importa é a paz. A história do soldado Mizushima, que se perde de seu batalhão no fim da guerra, se disfarça de monge budista e acaba de fato se tornando um, poderia, nas mãos de alguém menos habilidoso, se tornar literalmente uma sátira ao provérbio “o hábito não faz o monge”. Mas Ichikawa trata o drama do soldado com uma honestidade absolutamente devastadora, e isso faz toda a diferença.

Limonov: The Ballad: descobri esta pérola recentíssima de Kirill Serebrennikov no Criterion Channel. Contando com o mesmo estilo narrativo “muderno”/anos 80 (isto é um elogio) do bacaníssimo Verão, o cineasta russo faz aqui novamente uma biografia: se naquele filme ele contava a história do rock star soviético Viktor Tsoi para um público do seu próprio país, em Limonov, seu primeiro filme em língua inglesa, ele conta majoritariamente nesse idioma a mutcholoca vida do dissidente Eduard Limonov, poeta que se autoexilou em Nova York e Paris e voltou após o fim da URSS para fundar um partido radical que flertava com o fascismo. Ben Whishaw está radiante no papel-título. Procurem esse filme e vejam urgentemente.