por Álvaro André Zeini Cruz

A caixa na moto. As gôndolas do mercado. O freezer. Armazéns.
A comida. O medicamento. A energia elétrica. Combustíveis.
O som. O tímpano. O silêncio. Gritos.
A cidade de produto e barulho. E de trânsito entre essas duas coisas. No primeiro episódio, Balthazar (Juan Paiva) é um entregador obrigado a se tornar “empreendedor” (“dádivas” da reforma trabalhista), pois o patrão Nestor (Marco Ricca) vê nele o batismo bressoniano — Balthazar “de carga”; Balthazar “burro”. Azar.
Azar de Baltazar que nasceu pobre e preto, pensa Nestor. Azar de Carolina (Alice Wegmann), que nasceu sob o patriarcado de um tio (Jayme, Murilo Benício) “que não consegue segurar o que tem dentro das calças”; é o que diz a própria mãe (Julia Lemmertz) de Carolina. Azar de Diuzinho (Alexandre Rodrigues) que, de outra forma, é vítima dessa mesma frase; ele é filho bastardo de um coronel com práticas coloniais, continuadas pela herdeira conhecida, Jordana (Paolla Oliveira), que mata Diuzinho para não ter que dividir seu patrimônio com esse meio-irmão, filho da cozinheira. Azar de Geiza (Belize Pombal), que não consegue dormir, assim como a filha não consegue estudar, porque um filhinho de papai de classe média se instala ali para tirar o sono da periferia, que já costuma dormir menos devido ao tempo no transporte. Som imposto para ensurdecer. E para calar.
O terceiro episódio de Justiça 2 remete a outro de nossa teledramaturgia: o prédio alicerçado em injustiças sociais, erguido por Jorge Andrade em O Grito. Na novela, de 1975, o filho autista de Marta (Glória Menezes) grita nas madrugadas, deflagrando os atritos, maledicências e vinganças entre vizinhos e, sobretudo, entre andares. Em uma época em que a novela das 20 horas elogiava a urbanização, a novela de Andrade, às 22:00, retratava o crescimento da cidade de São Paulo como uma linha de produção caótica, massacrante, produtora dos ruídos mecânicos e impiedosos, geradores das insensibilidades. Ignoram-se os gritos, esses estrondos orgânicos e cortantes que, quase sempre, carregam um pedido, demandam o ouvido (e o olhar) do outro. A novela fez barulho, tanto quanto o final, quando, pela janela, Walmor Chagas encara essa urbe contraditória, já que o grito-metáfora ecoa tanto entre o que é concreto, quanto entre o que é fumaça[1].
Após tentar o diálogo, Geisa grita; tudo em vão. Então, destrói a caixa de som e apanha. Pois só o que contorna a insensibilidade da alma — que na trama se instala da Asa Sul aos satélites —, é a sensibilidade à dor da carne, proveniente das balas, dos tapas, dos chutes, dos estupros (nos dias ao redor da estreia, apareceram imagens de uma agressão policial a uma mulher no metrô, além de uma abordagem violenta feita em endereço errado). Trata-se de uma coisa sobrevivente de outros tempos, quando, antes das cidades, as fazendas eram feudos da produção colhida por corpos torturados em proximidades sádicas. Alimentados de ressentimentos, esses sadismos, agora, dissimulam as caras, disfarçando-se em algoritmos e discursos pseudo-liberais, ilusionistas de uma tal autonomia, mas continuam castigando as mesmas identidades, recorrentes — seja jogando-as para as bordas das cidades, seja trancafiando-as em prisões públicas ou domésticas. Se o meio é dissimulado, o fim não; não há nenhuma preocupação em esconder os quartos de despejos.
A justiça de Manuela Dias transita entre o estoque e trânsito do alimento (o mercado de Jayme, o restaurante administrado por Nestor), mas a comida só se transforma pelas mãos de Santana (Tereza Seiblitz; como é bom vê-la de volta!). No entanto, Balthazar descobre que, para corpos castigados, a entrega da comida não garante o remédio ao alcance (mesmo num país de remediações). Azar o dele. Azar o de Carolina, que tem o remédio da mãe, mas não tem o que anestesia a violência duplicada, relativizada pela própria mãe. Azar o de Milena (Nanda Costa), prova viva que ladrão que rouba ladrão cumpre o dobro de prisão se estiver alguns estamentos abaixo. Azar o de Geiza, que queria alimento para a alma, dela e da filha; queria silêncio, descanso, mas foi exposta ao paradoxo de um som que ensurdece e emudece. Som da classe em eterno trânsito, massa de manobra cuja sina é policiar e tentar abafar todos os gritos.
O grito de Geiza é silenciado não mais no prédio em que vive, e, sim, diante dele, numa ruazinha escura da Ceilândia, cidade-produto da outra, a leste (not too far-a-oeste). Ceilândia que gira o motor do avião planejado, enquanto é vista, do alto, como carga remanescente desde a construção. Manuela Dias leva Justiça às margens de Brasília: 50 anos em 5; 5 séculos nos 64 da capital cravada como modernidade artificial no coração de um país ainda justificado com/por “homens que não conseguem segurar o que têm dentro das calças”. Se em Vale Tudo, Gilberto Braga lançava a pergunta “vale à pena ser honesto no Brasil?”, a autora do futuro remake faz essa espécie de prequel com uma questão mais complexa — é possível justiça social (não uma justiça paliativa, mas uma radical, de cura) num país onde os dados estão viciados há tanto tempo?
A sorte fora lançada lá por volta da chegada de família da Thelma (Adriana Esteves), a portuguesa ressentida de Amor de mãe (também de Dias). Ah, e os gritos são aperfeiçoadamente silenciados por ruídos polissêmicos e volumosos. Geiza grita porque quer dar à filha o silêncio — esse hiato/respiro formador, não “informador” — que pode garantir a ela uma voz. Mas a sorte está lançada e o barulho é furioso. Azar, Balthazar.
[1] Recomendo O Grito de Jorge Andrade, livro de Sabina Anzuategui, para quem quer saber mais sobre a novela “O Grito”.