por Álvaro André Zeini Cruz
Jesus Cristo! Jesus Cristo!
Jesus Cristo, eu estou aqui
Jesus Cristo! Jesus Cristo!
Jesus Cristo, eu estou aqui
Olho na terra e vejo
A primeira sala,
Era a sala terrível,
A sala mais terrível,
Até o diabo, se entrasse ali, saía em pânico.
Você quer descer do pau de arara?
Jesus Cristo.
Olho no céu e vejo
Eles é que botavam lá,
Eles é que prendiam o arame para dar choque,
Eles é que davam afogamento.
Atinge os nervos…
O cara urra de dor.
Eu estou aqui.
Essa gente não sabe aonde vai,
Batia no meu ouvido ou puxava meu cabelo ou falava bem perto:
Vá se preparando!
Está ouvindo?
Está chegando a sua vez…
Ficaram encapuzadas sentadas num banquinho.
Quem poderá dizer o caminho certo?
Meu Pai…
Jesus Cristo! Jesus Cristo!
Jesus Cristo, eu estou aqui
Jesus Cristo! Jesus Cristo!
Jesus Cristo, eu estou aqui
Em toda esquina eu vejo
O olhar perdido de
Eu não aguento mais,
Eu não sei de nada,
Não façam isso.
Vocês vão matar esse homem.
Aqui é uma guerra. Selva!
No chão daquele que não tem amor
O torturador Hughes começou a pular em cima da barriga dele:
Jesus,
Abdômen de tábua
Hemorragia abdominal
Ruptura hepática.
Sei que repetirei lá na frente o que narrei antes.
Eu estou aqui…
Cristo.
Tais gritos eram de certa forma abafados por um rádio
Jesus não era nenhum senhor, era um jovem! – ela dizia.
Nosso cérebro foi feito para guardar o passado,
Um rádio colocado em alto volume.
A memória é uma mágica não desvendada. Um truque de vida.
Lembra-se perfeitamente que tocavam a música
Jesus Cristo, de Roberto Carlos.
Na mesma voz essa oração.
O fundamental não é a lembrança, mas como você interage com ela
Hoje.
Jesus Cristo! Jesus Cristo!
Jesus Cristo, eu estou aqui
Jesus Cristo! Jesus Cristo!
Jesus Cristo, ainda estou aqui.
—
Da leitura de Ainda estou aqui, de Marcelo Rubens Paiva, assombrou-me o relato – reiterado por diferentes fontes – de que os torturadores militares usavam a música “Jesus Cristo” para abafar as sessões de tortura; informação que, mais uma vez, confirma o sadismo e os métodos abjetos do regime que governou o país entre 1964 e 1985. Este texto embaralha versos da referida canção (composta por Erasmo Carlos e Roberto Carlos), passagens do livro de Rubens Paiva e um ou outro acréscimo de palavras como acabamento.