“Irmão, é preciso coragem”

por Álvaro André Zeini Cruz

Ao longo da programação comemorativa dos 60 anos na TV Globo, uma pergunta martelou minha cabeça: por que agora e não há dez anos, nos 50? Então, o título do livro de Mauro Alencar me veio como uma hipótese — A Hollywood brasileira. A imagem inicial do show que foi ao ar ontem (28/04/2025) transformou a elucubração em tese: sob uma pós-produção P&B, e emulando o batimento da película, o letreiro fincado nas montanhas de Santa Mônica, em Los Angeles, foi o plano de abertura de um plano maior: lembrar ao público de que Hollywood está em Jacarepaguá, com acesso pela estrada de Curicica.

Desde a dramatização com Tony Ramos — compondo Roberto Marinho como uma espécie de Indiana Jones midiático (não basta visão, é preciso coragem) —, o que se viu foi um espetáculo que, entre VTs e ao vivo, costurou os núcleos dessa história: jornalismo, esporte, entretenimento, dramaturgia. Da abertura docudrama passou-se a um jogral musical bem-humorado, com talentos como Rodrigo Lombardi, Eduardo Sterblitch, Lazáro Ramos, Tatá Werneck e Paulo Vieira jogando a bola uns aos outros, numa sequência de montagem inspirada entre Lalaland e as paradas dos parques da Disney. É Sterblitch quem, na melhor passagem, baila com Fábio Assunção e canta: 

“Quem está cotratado, quem é vitalício, quem é obra certa, quem é exclusivo. 
Quem vai pro RH, na segunda-feira, cuidado para não ir pra geladeira”.

Ligeiro, o conjunto de versinhos foi um dos momentos mais afiados da comemoração, já que essa noite estelar foi celebrada por um star system desmantelado, numa Hollywood que segue viva porque se estabeleceu em patamares altos, mas que, obviamente, não é mais a mesma. Nas homenagens, veteranos que vivem reclamando não ter mais espaço (e, de fato, não têm), rostos que já partiram (aqueles de frente das câmeras, reconhecíveis ao público), personalidades e programas icônicos, da balbúrdia de Chacrinha (inexistente entre os atuais auditórios, comportadíssimos) à Rainha dos Baixinhos (a Rainha que não tem programa, e os baixinhos que não têm programação desde a extinção da TV Globinho; e Fátima avisa que a culpa não é dela).

Fora do ar, Fátima Bernardes esteve presente, muito embora (ao que tudo indica) não tenha conseguido emplacar um projeto próprio neste sexagenário. Antônio Fagundes — que, em entrevista recente à Folha, disse que “a Globo jogou a criança fora junto com a água na bacia” — subiu ao palco com Betty Faria (uma veterana que tiram da geladeira a cada 5 anos). Uma das maiores perdas da emissora, a presença de Fagundes indica que, mesmo entre farpas, a Globo pode ter seus talentos de volta num estalo de dedos (ao menos, é o que o show sugere). Também lembra que Fagundes tem toda razão; ao se dobrarem ao modo de produção dos streamings, os Marinho estão jogando décadas de know-how fora. Nos últimos dez anos, rebaixaram-se ao nível daqueles com que travam uma Guerra Fria, a ponto de criarem uma ironia: a emissora que conjurou uma ideia de identidade nacional perde sua marca de Hollywood brasileira. Agora, tem que fazer da festa uma pequena Broadway, para mostrar que o famoso Padrão Globo de Qualidade ainda dá sinais de vida.

É evidente que, graças ao seu histórico, a Globo segue produzindo o que há de melhor entre as televisões brasileiras, ainda que, desde que apoiou o golpe institucional de Michel Temer, ande meio bela, recadada e, paradoxalmente, olhando para fora do lar. A vigilância sobre os vizinhos streamings se evidencia na presença de Camila Pitanga, que subiu ao palco recuperando sua Bebel (de Paraíso Tropical) e, consequentemente, a recente cutucada que a Globo deu na Max nas redes sociais. “Com um pouquinho mais de capítulos você vira uma novela de catiguria”, disse a Vênus Platinada, na ocasião em que a ex-HBO cometia “Beleza Fatal”. A farpa, aliás, é certeira: ainda que a Globo ande facilitando o trabalho, os streamings (e as produtoras) precisam comer muito arroz com feijão para chegar à teledramaturgia que a emissora realiza, algo perceptível tanto nas cenas videoclipadas ao longo da festa, quanto na tão esperada esquete, responsável por convocar toda uma memória afetiva acerca das vilãs de novelas.

A ceninha — que cometeu o pecado de excluir Cláudia Abreu e sua Laura Prudente da Costa — foi dos momentos mais inspirados da noite, ainda que o texto tenha deixado passar algumas oportunidades (talvez pela limitação de tempo): Adriana Esteves surgiu como Carminha, mas foi pelas mãos dela que Nazaré Tedesco sequestrou a menina Lindalva (anos antes, a mesma Adriana havia explodido um shopping, numa personagem que sobreviveu melhor do que a novela). Também poderiam ter encontrado brecha para que Lília Cabral evocasse minimamente suas vilãs do Leblon, e Joana Fomm, apesar de visivelmente debilitada, merecia mais tempo de tela. Ainda assim, houve boas sacadas, como o diálogo entre os Anjos Maus (Suzana Vieira e Glória Pires), e Nazaré/Sorrah referindo-se a si mesma como “the confuse math lady”.

A escolha da ginástica olímpica foi outro acerto na representação do núcleo esportivo: se o objetivo da noite era emocionar, precisava-se de um esporte que visibilize um coração, algo que o negócio “futebol” não transmite mais. Nada, no entanto, superou a entrada de Fábio Porchat, Tatá Werneck e Paulo Vieira (vestido de Marlene Matos!) para falar do núcleo de humor (como eles próprios reconheceram, meio morto-vivo). O jogo entre os três foi melhor do que a videochamada entre os personagens cômicos (e não entendo essa fixação que Globo tem por Valéria, caricatura preconceituosa que Rodrigo Sant’Anna fazia no Zorra Total). Ao falar de Marcos Mion, Vieira brincou: “a gente sai da Record, mas a Record não sai da gente”. Depois, foi a vez de Tatá: “achei que fosse o Boninho convidando a gente para ir para o SBT”. A brincadeira deu tom nostálgico a uma concorrência antiga, quase obsoleta, cada vez mais inexistente. Até nisso a Globo celebrou os velhos tempos. 

Boninho foi lembrado, mas (salvo engano) não houve menção direta a Boni (que, segundo o Instagram, festejou a noite na cantina Jardim de Napoli, em São Paulo). Nem a Daniel Filho. Na homenagem aos autores, priorizou-se falar dos atuantes e deixar os cânones para o fim. É sintomático: em seus 60 anos, a Globo optou por revistar mais suas imagens do que seus processos e engrenagens (que, agora, são outros). Em seu livro, Rosane Svartman traz alguns números mais atuais (da novela Vai na Fé): “o percentual de cenas de estúdio subiu para 70%, com 22% de cidade cenográfica e 8% de externas”. Nessa Globo da minimização de riscos (financeiros e artísticos), a festa certamente estourou a conta, mas foi um investimento pontual para mostrar que a Hollywood brasileira vive, ainda que seus processos estejam cada vez menos hollywoodianos, cada vez mais uberizados. A Vênus Platinada adapta seus padrões e abre mão de seu valor de vanguarda. Faz pirotecnia espetacular, quando deveria voltar às primeiras imagens do show; à dramatização em que Tony Ramos recompõe Roberto Marinho como um homem a quem não bastava visão. Já dizia a letra: “irmão, é preciso coragem”.

ps.: a presença reiterada de Cauã Reymond dá um recado sobre o posicionamento da emissora ao público, mas, principalmente, ao elenco de Vale Tudo.