“How to have sex” e como nenhuma experiência (feminina) é individual

Por Nicole Menegasso*

“A adolescência é uma história de desejo; inocência; queda da inocência; ser desejado; não ser desejado; ser desejado pelas pessoas erradas; por pessoas perigosas; pelas pessoas certas; por pessoas emocionantemente perigosas.” — Jenny Zhang 

O início de How to have sex traz logo o que a sinopse apresenta:  três amigas vão à uma viagem de férias para comemorar o fim do período escolar. É até difícil de acompanhar os primeiros 15 minutos, pois as meninas estão animadas, gritando, fumando, bebendo, coisas que todo adolescente faria em sua primeira viagem longe dos pais. 

Partindo de certo imaginário sobre a Grécia — ou melhor, sobre o verão grego —, o filme é quente, suado, animado, claustrofóbico e incômodo. O espectador está sempre junto com as personagens na balada, seja em uma cama, dormindo com mais três pessoas, numa roda virando shots de vodka, nadando pelado na praia. Não há descanso; assistimos como quem ajuda, acompanha essas férias frenéticas de verão.

É fácil se encantar com a personagem principal: Tara é a última virgem do seu seleto grupo de amigas e, apesar de ser sempre simpática e entusiasmada, destoa das pessoas que estão naquele mesmo ambiente festeiro, como na cena em que ela desce sozinha para a área da piscina enquanto suas amigas dormem no quarto. Há uma sensação de desconforto como de alguém que chega sozinho em um lugar ao qual não conhece ninguém e não consegue socializar; tanto que ela prefere se sentar em uma cadeira a sós do que entrar na piscina, por exemplo. Nenhuma experiência é individual.

“Nós nunca vamos transar se estivermos sempre juntas”, no primeiro dia de viagem é o que diz Skye, uma das amigas que mais incentivam Tara a perder a virgindade. Realmente, se no início do filme as três estão unidas a ponto de dormirem na mesma cama, ao longo do filme, as meninas se interessam por pessoas do quarto ao lado, e conforme formam-se os pares, a irmandade não se dissipa, mas se enfraquece. 

Tara, inclusive, se envaidece quando Skye percebe que está rolando um clima entre ela e Badger. A relação fraterna é suspensa pelas pequenas disputas de poder que partem das relações amorosas e sexuais. Inconscientemente, os romances sobrepõem as amizades, até que chega num ponto no filme em que Tara está completamente sozinha. 

Como uma menina virgem se encaixa nesse mundo de bebidas, baladas e sexo sem ao menos entender do que se trata relações e consentimento?

Após transar pela primeira vez, em uma situação duvidosa e controversa, Tara passa por um momento ao qual parece até onírico. Em meio à luz noturna e os flashes da balada, aparece um grupo de amigos que cuidam e a abraçam quando ela precisa, e pela primeira vez durante a viagem Tara se sente acolhida. Porém, ao voltar para o hotel, ela volta à realidade. A realidade a qual Tara não tinha conhecimento (ou não nota) no início é sobre como as mulheres são vulneráveis, sobre como os homens bajulam por sexo  e sobre como as amigas nem se dão conta de seu desconforto. Interesses e individualismos se revelam à Tara.

Por ser um filme que aproxima o espectador à personagem, How to Have Sex faz com que o público passe pela culpabilização a qual Tara se coloca: por estar naquele lugar, por não ter conversado com alguém, por não ter percebido antes. Mesmo a ajuda de Badger, sujeito legal por quem Tara tem um interesse (e é correspondida) não pode fazer muito, uma vez que seu comportamento individual não muda uma estrutura social (nenhuma experiência é individual). Além de tratar da violência sexual e o trauma que ela acarreta, How to have sex trata de abandono, solidão e a vulnerabilidade das mulheres nesses ambientes. 

É brutal quando, já no aeroporto, Tara admite para uma amiga — mesmo que em entrelinhas — que fora abusada. Ela só diz que está tudo bem, embarca em seu voo e volta para uma vida normal na superfície, mas que carrega o trauma que irá persegui-la pelo resto da vida, assim como milhares de outras mulheres. 

Em How to have sex, mais uma garota, animada em viajar com suas amigas pela primeira vez, beber e fumar, conhecer pessoas novas e transar (a partir de suas condições e vontades), foi brutalmente desconcertada pela realidade à qual mulheres são expostas. Nenhuma experiência é individual. 


*Nicole Menegasso mora em Carapicuíba, região metropolitana de São Paulo. Estudante de cinema, tem 21 anos de idade e pelo menos 7 anos de cinefilia. Sempre foi curiosa e teve interesse em escrever e compartilhar suas opiniões sobre filmes, por isso está iniciando e se aperfeiçoando na área de crítica cinematográfica.