Hamnet

Álvaro André Zeini Cruz

Primeiro ato: tableau

Hamnet começa margeando a desdramatização, com Chloe Zhao mais interessada na composição de enquadramentos e ecos visuais (como os fracassos e frustrações pesando sobre os planos das costas de Shakespeare). A floresta é o espaço que melhor compreende esse primeiro movimento, com Zhao emulando Naomi Kawasi numa visualidade háptica, que, no entanto, se acovarda e retrocede para que o plano culminante desponte — o parto posto em vermelho e vazio entre à floresta verdejante.

O buraco na encosta — o vazio que Agnes vê ou prevê acerca de Shakespeare — é apenas um dos vários simbolismos (paradoxalmente) rasos que vão tomando Hamnet, tal qual a água da chuva que invade a casa no momento em que a bolsa estoura (soprada, talvez, pelo vento do mau-agouro melodramático, pois nem ele escapa da equação). Quando chega ao terceiro ato, o filme já está encharcado. Emoção, dirão alguns, mas eu não descartaria a possibilidade de que os olhos são abertos à fórceps, para ver e para ler.

Segundo ato: tragédia

A composição se aquieta (ou se acanha), uma vez que o punctum agora é o grito, a convulsão, o choro copioso. Desmascarada a desdramatização, o drama se despe em melodrama, ainda que as personagens registrem apenas o traço trágico desse destino incontornável e inconsolável (aparentemente). É o melhor momento da dramaturgia: confinadas a ambientes domésticos áridos, as atuações correm soltas, tendendo ao exagero, mas também a alguma verdade. As trocas entre Agnes e a sogra (que a desdenhava) têm papel importante nesse sentido, já que, do abraço na cadeira de parto à encenação em profundidade no leito de morte, instala-se uma sensorialidade que a protagonista jamais partilha com o marido, peregrino entre as letras e a mimesis. É nesse lar de permanências femininas que a dor transborda com realismo e realidade, completando uma subordinação de orações e ontologias.

Terceiro ato: farsa

Mas o filme precisa redimir Shakespeare e, se o segundo ato é, genuinamente, trágico, o terceiro é uma tragédia — no mau sentido. A impressão é que Zhao assina, mas terceiriza a direção para um Spielberg dos mais piegas. Hamlet entra em cena, emergindo no monólogo de Shakespeare à margem do rio — que deveria ter sido cortado rente ao primeiro “to be…”, nos permitindo mergulhar no vazio e na lacuna — até se materializar na peça, que surge a Agnes como uma possível expurgação. Seria o momento propício para que Jessie Buckey se desvencilhasse da encarnação traumática e acionasse uma interpretação mais imaginativa, baseada numa suposição que a conduziria à despedida do filho morto. No entanto, cabe a ela o papel constrangedor de traduzir as entrelinhas, o subtexto — “Ele tomou o lugar do nosso filho”, Agnes explica ao irmão (e a nós, como se precisássemos), quando Shakespeare (interpretando o Rei Hamlet) descreve a morte do personagem tal como a do filho.

Assim, em Hamnet, a encenação de Hamlet surge como na famosa citação de Karl Marx: a tragédia se repete como farsa, porque, na plateia, Agnes é impedida de imaginar para além do fantasma maquiado e do breve momento em que o filho cruza a porta do cenário (não sem antes derrubar uma lágrima). A transparência é atravancada pelo didatismo dos comentários (não basta ver Hamlet, é preciso explicá-lo) e pelos simbolismos, mais semelhantes à floresta pintada na tapadeira do que a vista no primeiro ato. A catarse fica pelo meio do caminho, assim como a verdade dramática ficou lá pelo meio do filme. Ah, mas, pelo menos, marido e esposa se reconciliam: o olhar dela sugere o perdão ao companheiro ausente e o entendimento de que a dor masculina/paterna é outra. A farsa envenena a tragédia. Sobra o melodrama conciliatório.

Em tempo: no que concerne aos Oscares, Jessie Buckley vai bem, mas sua concorrente, Rose Byrne, tem performance e personagem infinitamente mais complexas em Se Eu tivesse pernas, eu te chutariaHamnet, ao menos, é um melodrama mais honesto do que o outro concorrente do gênero, o norueguês Valor Sentimental.