Godzilla Gendaigeki

por Álvaro André Zeini Cruz

Pós-2ª Guerra. Enquanto Kōichi (Ryunosuke Kamiki) reconstrói aos poucos a casa, sem espaço o bastante para as molduras Mizoguchi, Ozu, Naruse, entre outros, o monstro é carne de destroços — matéria arruinada pela própria ação humana —, textura dessa pele gigantesca de cicatrizes que se recompõem, se retroalimentam.

A ferida não está longe de estar fechada: a guerra acabou para o Japão — que já se preocupa em não se indispor nem com Estados Unidos, nem com União Soviética —, mas não acabou para alguns daqueles homens, civis de novo. Não acabou principalmente para o kamikaze arrependido. O que para o mecânico soa como um ato de covardia, poderia ser um defeito, o misbehavior do protagonista, se estivéssemos no cinema americano, mas narrativa e o estilo não se deixam cooptar.

Godzila minus one cria essa criatura, ora monstro, ora brinquedo, ora nostalgia dos “defeitos especiais” (dos Kaijus feitos por atores fantasiados ou stop motion destruindo maquetes), ora premiação mainstream de efeitos especiais. Esse jogo não se dá na capa, na pele refletora de um país destroçado, mas na cinética, no movimento da fera que se apresenta boneco em mãos invisíveis, mas ataca como réptil veloz, vida própria ao poder atômico dessa animalização de todos os erros humanos institucionalizados.

Por isso mesmo, em Minus One não há poderio do Estado ou do exército capaz de deter a mutação. Conscientes disso, são os cientistas quem vão a campo proposicionar e aplicar um projeto, uma hipótese. Abrem caminho a uma ficção científica que ultrapassa as formas externas, as visualidades, movendo as peças narrativas, internas, a partir de uma verossimilhança justa, nem incipiente, nem exagerada no detalhe desses planos. Objetivam que uma grandeza física neutralize o bicho: especulam que, sob o peso do oceano, esse manancial de símbolos sonhos e pesadelos, o monstro sucumbirá, voltará a seu lugar. A ciência, essa disciplina pragmática, encontra os problemas da psique, que há quem diga que é pseudociência (como se esses domínios profundos não viessem à tona, não transbordassem à vida prática).

O manche kamikaze faz do avião bélico a barra de ferro que finaliza esse ataque homeopático, assim como acontecia na reunião familiar climática de O Hospedeiro. Mas o vôo do herói que se sacrifica é suspendido; a engenharia, o botão de ejeção, quebra a expectativa genericamente assentada e não deixa de ecoar um Deus Ex Machina, que tira as sobrevivências da cartola, como se desse um basta às mortes na Guerra. Se o Godzilla de Gareth Edwards era um filme sobre o monstro na(s) janela(s), Shin Godzilla era sobre a cor num filme de escritório — o rastro vermelho deixado nesses bastidores burocráticos assépticos, mas que controlam vidas. Godzila Minus One retoma a ideia do lagarto como bomba atômica, que estilhaça em caos um Japão em pleno atrito entre tradição e uma modernidade ocidentalizada. O monstro afunda para que, do amontoado dos destroços, venha à tona uma outra história: o gendaigeki, que tenta se espremer entre esse rescaldo das bombas.