por Álvaro André Zeini Cruz

Um rapaz desponta pelo portão da casa, enfiada entre uma vizinhança pacata, carregando um balde de plástico. Ele atravessa parte da profundidade do plano e sai à esquerda do quadro. Ao contrário do que se esperaria, a câmera não o acompanha; se desvencilha sentido oposto, numa panorâmica que vasculha a rua e, quando está prestes a completar a volta, reencontra o moço do balde próximo a um monte de areia de construção. André — o nome dele, nos informa a sinopse — se certifica de que não é observado. Então, furtivamente, furta.
Não se trata da apresentação do personagem: antes, encontramos André em pose descomposta no sofá, zapeando uma TV que só existe no extracampo e na trilha sonora. Essa introdução deselegante contrasta com a cena inicial, uma captação antiga (dos irmãos Lumière?) em que um cineasta se atrapalha com o tripé da câmera ao captar a caminhada de uma criança pelo quintal. Do tombo desse primeiro olhar aos relances desinteressados de André à televisão inexistente passou-se mais de um século de imagens. Talvez elas estejam gastas. Mas as ideias não, e André tem uma.
A areia tem um destino: o piso avermelhado do quintal da casa de André. É ali que, entre idas e vindas, ao som de um batuque iniciado no balde — logo transformado em música extradiegética —, que o recipiente azul vai vomitando o material da construção vizinha, que é pouco, mas não importa — o cinema é capaz multiplicá-lo através da decupagem, mais especificamente da câmera baixa, rente às microdunas artificiais que se formam. Um fade out nos leva à procura de um guarda-sol, e um corte seco carrega a elipse da troca de roupa: os pés com havaianas entram em quadro para revelarem o sujeito de sunga e camisa havaiana vermelha. Para que essa praia construída exista, é preciso performance e crença, e André está disposto a tudo isso.
As ondas quebram no aparelho Philips depois de selecionadas no computador; o sorveteiro da rua é cooptado e dirigido — “você vai ficar parado aqui, normal, como se estivesse na rua gritando olha o picolé, olha o picolé…”. Entre a direção e a cena não há “ação”, mas um aviso do diretor/ator a Pernambuco, o novo colega de cena — “uma coisa é séria: não me despreza”.
Na advertência, o sorveteiro real — redimensionado à ficção — ganha uma dupla intenção: é preciso que o Pernambuco ficcional não despreze o personagem que André compõe — um sujeito esnobe, que parece estar em Ibiza, e não numa praia de quintal —, assim como é necessário que o sujeito factual não deprecie nem desacate essa ilusão de areia. Pernambuco entra no personagem a ponto de passar protetor solar nas costas do único companheiro de cena. Talvez um prop essencial tenha completado definitivamente essa imaginação: a boia de baleia, pedaço de plástico simpático que, uma vez posto no chão, pesa e descompensa a câmera. É sob um plano holandês que André rega a pele do Free Willy de brinquedo, trazendo água a essa praia sem piscina.
A chuva atrapalha, afinal, este é um estúdio a céu aberto. Mas, quando dá trégua, André resolve o tempo nublado desfavorável: mete um Fresnel no quintal cinza, coroando a farsa com sua própria carne e matéria-prima — a luz. Num filme de panorâmicas — movimento mais prático e econômico —, o travelling out é guardado para o plano final, dos dois sujeitos estendidos com seus picolés na praia de quintal, sob um sol artificial.
Desde o último domingo, queria escrever sobre um filme brasileiro; não qualquer filme, mas sobre um que significasse fazer cinema no Brasil. Calhou de, dias antes, ter lembrado de Filme de Sábado, de Gabriel Martins — visto em 2009, no FBCU — e exibido em aula, justamente para lembrar aos alunos de que fazer cinema é inventar e erguer mundos entre paredes — físicas ou do próprio quadro —; ou seja, dentro de casas, porque cada realizador é a própria casa, o lugar de onde veio, algo que negocia com o tipo de cinema que irá fazer. Não é à toa que a baleia, esse singular objeto caseiro, transformou-se no símbolo da Filmes de Plástico desde este filme inaugural. É a lembrança peculiar de que cada casa é um mundo, e de que, por isso, pode ser também um set.
Filme de Sábado pode ser visto em https://www.filmesdeplastico.com.br/filme-de-sabado/