por Álvaro André Zeini Cruz

1986. Rob Reiner adapta o conto O Corpo, de Stephen King, para o cinema. Há pouco de sobrenatural, no entanto. Talvez a amizade entre garotos durante esses últimos anos da infância e primeiros da adolescência; “nunca mais tive amigos como os que tive aos doze anos”, diz o protagonista ao narrar o passado como se falasse de um fantasma, de uma imagem etérea contraditoriamente impregnada nesse suporte movediço chamado memória. Por si só fantasmagórica, uma vez que é, quase sempre, uma aparição lacunar, incontrolável e fugidia, além de nos pregar peças. O filósofo Byung-Chul Han diz que, quando a memória cumpre seu traço ontológico de falhar, inventa-se, faz-se a ficção. Quando Gordie (Richard Dreyfuss), adulto, diz que nunca mais teve amigos como aqueles, faz do passado um fantasma e cria, em torno dele, uma aura.
A aura é daquele dia de sol docemente ardido, das aventuras infantis que se abrem em obstáculos episódicos, plantados pela jornada em busca de um corpo. Gordie (Wil Wheaton), Teddy (Corey Feldman), Vern (Jerry O’Connell) e Chris Chambers (River Phoenix) saem atrás de um menino morto, não por consideração ao falecido, mas porque, aos doze, a curiosidade pela outra ponta da vida é grande, ainda mais quando ela se apressa e invade esses dias próximos ao ponto de partida. Além do mais, tudo é desculpa para uma aventura (e para fugir dos monstros que habitam as casas). A viagem se dá com os pés entre os trilhos, tendo o trem como uma segunda aparição, uma espécie de fantasma que atravessa o próprio cinema para assombrar o quarteto de garotos. Na primeira vez, Teddy decide desafiar a locomotiva, brincando de faroeste. Mas numa jornada que, de alguma maneira, tem a morte como destino, o trem-fantasma se vê no direito de assombrar os meninos, aguardando para pegá-los na ponte.
As linhas retas, porém, sempre abrem alguma escapatória; são as curvas e os desvios que conduzem aos perigos (os sanguessugas, as gangues) e desencontros. É numa dessas que Gordie se perde de Chris Chambers, que merece menção do nome completo porque age não como um garoto a quem basta o primeiro nome ou apelido, mas como um adulto que, no grupo, supre a falta de pais e irmãos mais velhos. Na caminhada em que Chris e Gordie conversam sobre cigarros e futuros (enquanto Teddy e Vern comparam o Super-Mouse e o Superman) ou na cena em que se desvencilham da luz da fogueira para exporem o que há de obscuro em suas almas, o rosto de Chris, emprestado de River Phoenix, surge como uma espécie de punctum. Os olhos apertados de um mini-James Dean, os cabelos louros — ora salpicados pela luz solar, ora delineados pelo contraluz noturno — cercam Chambers/Phoenix de uma aura que o destaca dos demais companheiros desse interior mundano, captado em imagens artesanais. Reiner é um cineasta-artesão que, na economia de um filme-conto, narra — ao invés de mostrar — o destino trágico de Chambers. Mas talvez seja a consciência do futuro de Phoenix que faz com que Conta Comigo, visto à distância (40 anos recém-completados), pareça não só cercá-lo de presságios, mas capturá-lo como a aparição sobrenatural de uma promessa interrompida, mas que soa ainda promissora porque segue pulsando como figura traçada na luz. Phoenix vive como uma singularidade poética dentro de um filme absolutamente narrativo, diferente de Gabe Nevins, cujo rosto é o espaço narrativo de Paranoid Park.
Se em Conta Comigo, a locomotiva assombra os garotos, em Paranoid Park, o trem é a chance de eles se transformarem em assombrações, interrompendo a tríade de movimentos observada por Luiz Carlos Oliveira Jr. — suspensão, fatalidade e queda. A promessa, portanto, não é o garoto Alex (Nevins) e seu rosto comum, mas o próprio trem, esse meio de transporte antigo e robusto, que contrasta o skate, a outra forma de locomoção que atravessa o filme. O skate até tenta imitar o trem quando acoplado a uma bicicleta, mas esses “vagões” têm funcionamentos próprios, enquanto o trem forma uma unidade com ponto de chegada e partida. É esse pragmatismo que, quando ameaçado, decepa e contamina as manobras errantes, lançando o grotesco pela rampa, colocando-o, inesperadamente, na tela.
Entre o vai-e-vem dos skates e a água que escorre pelo rosto até quase desidentificá-lo, entre a inserção irônica das músicas — ora hitchcockianas, ora dignas de um screwball — e a textura das imagens em super-8, meio homem se arrasta com as tripas passando entre os trilhos (certamente os Lumière não previram essa imagem). Essa é visão que assombra e atordoa Alex, e sabemos dela antes mesmo de vê-la, já que podemos intuí-la no longo plano do interrogatório em que a câmera vai se desvencilhando do espaço escolar para aproximar-se de Alex, até colocar-se frontalmente ao rosto dele. Este rosto adolescente assustado não é como o de Chambers/Phoenix, cuja luz perfuma os contornos, mas é posto sob uma luz branca violenta, que superexpõe todas as nuances e elimina todos os esconderijos. O rosto se torna uma pista em duplo sentido: é o indício e o espaço, a pista de curvas comuns por onde o filme vai flanar. Decifrar esse rosto não é uma questão para o diretor Gus Van Sant; o que interessa é vê-lo não pela dicotomia sujeito-que-olha/objeto-olhado, mas pelo entendimento de que o olhar da câmera compartilha o mesmo mundo que essa face.
A famosa cena no chuveiro vela o rosto de Alex entre os cabelos molhados para, em seguida, transformar tudo numa silhueta disforme. Uma leitura apressada poderia dizer que há uma deformação da face humana em monstruosa, mas não é esse tipo de simbolismo que interessa a Van Sant, e, sim, o fenômeno da água que lava e escorre, independente dos demônios que cada um carrega. Se Conta Comigo fabrica um mundo ordinário para conter a expressão extraordinária de River Phoenix (não necessariamente pelo close), Paranoid Park torce o ordinário (em slows, texturas) para expor aquilo que é belo no mundano. Filmes opostos, mas também complementares no que têm em comum: rostos assombrados e assombrosos que, em algum momento, revelam-se sublimes. Fantasmas fílmicos desse trem de imagens encarrilhadas de inúmeras formas.
