Eu, dona Lurdes e Luiz Fernando Carvalho

por Álvaro André Zeini Cruz

Sempre que penso em Luiz Fernando Carvalho, penso em dona Lurdes, e vice-versa. E não é pelo fato de que ambos estão em cartaz nos cinemas; o novo filme de Carvalho e o filme baseado na personagem de Manuela Dias, até porque, me refiro a outra dona Lurdes — a cabeleireira barateira (só recentemente deixei de ser mão-de-vaca com essas coisas) que cortava meu cabelo.

A memória tem dessas coisas, faz essas associações estranhas, inesperadas. Tudo porque, um dia, eu estacionava o carro em frente ao salão da dona Lurdes — uma sala comercial esguia, que tinha, na fachada um desses banners da Alfaparf (esses que têm sempre uma modelo com franja tingida-descolada) —, quando meu celular vibra, anunciando a resposta de um e-mail; uma resposta pela qual eu já nem esperava. Era um e-mail de Luiz Fernando Carvalho.

Eu havia descolado o e-mail do homem sob uma quase prescrição de resignação — ele não costuma responder, disse quem me passou o contato. Fiquei então matutando o timing e a abordagem que faria ao diretor de Renascer, naquele momento meu objeto de pesquisa. Tentei um primeiro contato sob o título Tese sobre a novela Renascer. Como me havia sido antecipado, nada. Passaram-se alguns meses e, com o tempo correndo, decidi apelar: meti no assunto do e-mail uma espécie de vômito — Brisseau, cordialidade, maneirismo e “O Homem que virou suco”: referências de “Renascer”?

Comecei o texto já me desculpando pelo título apelativo, assumindo a tática para chamar-lhe a atenção (quase meti um Murakami no meio, porque descobri que ambos somos fãs de Murakami, mas achei que desviaria muito o foco). A notificação do celular, diante do salão de dona Lurdes, indicava que a estratégia havia funcionado. Ele foi gentil; se desculpou pela demora no retorno (disse que estava mergulhado nos ensaios de A Paixão segundo G.H., lançado agora) e combinamos uma conversa por Skype. Já adianto que nunca aconteceu. Remarcamos e, de novo, nada. Encaminhei-lhe as perguntas, mas talvez elas tenham sido decepcionantes se comparadas às palavras aleatórias colocadas no campo assunto. Como tese tem prazo, acabou submetida sem a entrevista com Luiz Fernando Carvalho. 

De qualquer forma, aquele dia, cortei os cabelos — que já não eram muitos — com uma sensação triunfante: o homem com a câmera havia me respondido. Agora, sempre que leio sobre Luiz Fernando Carvalho, me é inevitável lembrar de dona Lurdes, cujo salão deixei de frequentar quando descobri (finalmente) um sujeito que acertava minha barba (o que significa conseguir com que ela inflamasse por menos de três dias). Curiosamente, dona Lurdes era nada Global: sua televisãozinha de tubo estava sempre sintonizada no SBT. Logo que me liguei nisso, comecei a agendar os cortes para o horário do Chaves.