Blackstar – a pulverização e a eternização de Bowie

Por Guilherme Godoy

Ruínas, obras esquecidas, pessoas. O tempo é uma grandeza física curativa, mas também agressiva. Enquanto alguns se regeneram através do distanciamento do passado, outros passam a vida observando a forma como o tempo consome e ressignifica tudo que nele se debruça, transformando o todo em conhecimento, sentimentos e nostalgia.

David Bowie se tornou atemporal em janeiro de 2016, aos 69 anos, após uma luta de 18 meses contra um câncer no fígado, deixando como legado 25 álbuns de estúdio, 121 singles e a atuação em 23 filmes, fora seus 59 videoclipes e uma série de feitos e de outros trabalhos para TV e cinema. Poucos meses antes de sua morte, o artista lançou seu último álbum, Blackstar (2016) e nos presenteou com um videoclipe da música que nomeia o disco, divulgada no ano anterior ao seu lançamento.

O vídeo musical de Blackstar, dirigido por Johan Renck, trabalha com uma atmosfera sombria, abordando uma narrativa de ficção científica com fortes elementos religiosos em seu desenrolar. Neste ponto, temos os planos mais longos do videoclipe concentrados em seu início, apresentando detalhes de uma roupa de astronauta e chocando o fã-espectador do artista ao apresentar um plano geral desse astronauta deitado em um planeta cavernoso, havendo ao fundo uma estrela negra (alternativa ao buraco negro) sugando a própria luz. O choque não se dá propriamente pela grandiosidade da imagem com um travelling ou pela metáfora de um câncer estar sugando as energias do corpo que habita tal qual a estrela faz com sua luz, mas pela revelação do destino de Major Tom, astronauta em missão citado na música Space Oddity e referenciado em outros momentos em algumas obras de Bowie.

Imagem 1

O azul-esverdeado toma conta do planeta rochoso, enquanto uma alienígena revela que dentro do capacete do astronauta há uma caveira cheia de joias – momento em que um travelling exagerado é aplicado sem pudor algum, com uma variação sonora que gera uma sensação obscura e misteriosa, engrandecendo a figura da caveira e aumentando a surpresa.

O ritmo da montagem se mantém e agora somos surpreendidos por pessoas tremendo seus corpos, com olhares letárgicos, no mesmo ambiente amarelado onde Bowie se encontra com uma faixa tapando seus olhos e com botões pregados no lugar deles. Aqui, o artista começa a trabalhar a ideia de fé na obra – onde os olhos são inúteis quando não se precisa ver para acreditar – junto da religião, evidenciada por planos de uma vela (citada na música como localizada no centro da vila onde o enredo se passa).

Imagem 2

O ato da adoração pela fé ou pela religião se torna ainda mais concreto quando o crânio de Major Tom é carregado pela alienígena em uma caixa de vidro – uma referência antiga à ideia de que o que é diferente e vem do céu é sagrado e deve ser reverenciado –, agora em uma atmosfera quente do planeta, rumo a uma sacerdotisa (ainda não apresentada) que inicia um ritual com várias mulheres. A troca de cores é psicológica: o astronauta não precisa mais ficar sozinho no azul melancólico recorrente em obras de ficção científica que trabalham a solidão e o distanciamento do “animal que evoluiu” para o “ser-evolução que a tudo domina”.

Os choques que as imagens dão no espectador continuam, agora com o esqueleto sem cabeça de Major Tom à deriva no espaço, sendo atraído para a estrela negra – uma representação da pulverização do corpo pós-morte e da eternização dos feitos intelectuais e sentimentais.

A música começa a mudar de aspecto, indo do misterioso ao doce, enquanto Bowie segura uma espécie de bíblia com uma estrela negra na capa, livro esse que tem a capacidade de fazer soprar um vento que traz espantalhos à vida, parafraseando o trecho da bíblia cristã referente ao sopro divino que deu a vida ao homem. Nesse momento, o artista passa a utilizar do sarcasmo para rebater o fetiche da audiência e da mídia em sua figura, enquanto faz poses e expressões faciais caricatas, evidenciando o espetáculo da profissão de um artista do show business.

Bowie passa a agir como um religioso que está a receber uma bênção dos céus ao erguer suas mãos e se declarar uma estrela negra, também cantando e olhando para os céus com as mãos juntas em oração. Essas imagens são precedidas pela figura dos três espantalhos vivos no campo, amarrados em cruzes feitas de galhos de árvore, todos com uma faixa cobrindo a parte superior do rosto e com botões costurados no lugar dos olhos. É possível notar que entre os espantalhos crucificados há um judeu, um obeso e uma mulher, o que evidencia o caráter político de Blackstar por apresentar grupos oprimidos nos Estados Unidos sendo “crucificados”, vendidos como espantalhos – onde o medo é associado muitas vezes a esses grupos para fortalecer uma luta de privilégios para poucos.

Imagem 3

Durante todo o final do videoclipe, uma sacerdotisa realiza um ritual com a caveira de Major Tom e algumas mulheres, apresentado por meio de cortes agora mais rápidos, com intensificação dos efeitos de lens flare e refrações da imagem causadas pela sobreposição de um material transparente na lente da câmera no momento da captação. Os efeitos conferem um clima de estranheza e misticismo, coerente com todo o resto da obra.

No ritual, as mulheres dançam e colocam seus joelhos e mãos no chão, começando a tremer tais quais os personagens anteriormente apresentados. Aqui é inserida a primeira imagem de um monstro (semelhante a um verme gigante com uma boca na cabeça e duas garras) que corre no mesmo campo em que os espantalhos estão amarrados, rebolando no ritmo da música. Os cortes vão ficando cada vez mais rápidos e o movimento dos corpos das mulheres em união ao movimento do monstro se deslocando pelo campo e ao rebolar dos espantalhos reforça a ideia de que aquele é um ritual sexual – sendo o sexo e a sexualidade uma grande incógnita quando se trata de Bowie, o artista cujos muitos personagens foram andróginos e assexuados, que sempre entendeu sua orientação sexual como um momento.

Imagem 4

No final do videoclipe, o monstro se aproxima dos espantalhos e corta suas pernas com suas garras. A iluminação em todos os planos com o monstro e com os espantalhos é sempre uma mescla de luz laranja, azul e verde. Esse momento reforça a ideia de que aquilo que é feito para assustar, não assusta, porque o terror é algo mais profundo do que o simples querer – onde espantalhos são consumidos por um monstro, o verdadeiro símbolo do medo.

Blackstar é uma retrospectiva na carreira de Bowie, é uma forma de amarrar pontas soltas, de criticar a maneira como o artista é tratado, de abordar questões emergenciais como o preconceito, o bullying, o machismo e o patriarcalismo, é dizer para os fãs que se está morrendo de câncer sem utilizar essas palavras. Bowie trabalha em um espaço com múltiplas possibilidades, com uma linguagem que lhe permite associar e contar diferentes coisas juntas de diferentes formas, e isso é engrandecedor tanto em Blackstar quanto no resto das suas obras. David Bowie é um Major Tom para nós, alienígenas, e ele sabe que mesmo que seu corpo tenha sido pulverizado, a sua essência e seus feitos foram eternizados. E não precisamos de ritual nenhum para saber disso, sua arte é o maior deles.

O videoclipe de Blackstar está disponível em https://youtu.be/kszLwBaC4Sw