Editorial 16

Dos editoriais aqui escritos, este, talvez, seja o mais pessoal, pois é o que mais nos exterioriza (para além dos filmes), o que mais expõe nossas engrenagens. Por isso, peço licença para assumir-me desde já como um ponto de vista singular, e, portanto, colocar-me como tal primeira pessoa, cujo olhar individual remonta a idealização desta revista que, por sua vez, é corpo coletivo. Em nosso primeiro editorial, escrevi que começamos em crise e assim esperávamos permanecer, pois a crise – esse estado que não se delimita ao crítico ou ao espectador, mas a qualquer ser vivente racional –, é o combustível desta que abastece nossas páginas: a crítica. Não que toda crise gere a crítica, mas ela é a faísca que incendeia essa fogueira, que depende da paixão para se alastrar. Dias antes do fechamento desta edição – na qual comemoramos o primeiro ano de Pós-créditos –, eu me questionava: quais as crises da Pós-créditos decorridos esses primeiros 365 dias? Permanecem as de setembro passado, ou a mudança do colo ao engatinhar e, por fim, a estes primeiros passos, demandaram novas crises, pouco identificáveis no fluxo do cotidiano? Foi quando Juliana Maués, também aqui editora, enviou-me por e-mail seu texto sobre Starman com a seguinte colocação: “amo tanto este filme que queria ter escrito algo melhor […]”. Como nos desenhos animados, uma lâmpada se acendeu sobre minha cabeça: a crise de Juliana me lembrou da crise primordial, aquela que nos faz perder horas em frente à folha em branco nos debruçando sobre uma obra que não é nossa. Por mais que uma publicação crítica passe por inúmeros conflitos, o vital é este: meu texto faz jus ao filme?

A crise de Juliana era pertinente: seu texto não fazia jus ao filme de Carpenter. Mas os meus também não faziam. Aliás, nenhum texto por mim escrito fez jus às obras analisadas! Nem os de Phillippe, Marcella, Gabriel, Renato ou de todos os que já passaram por estas bandas. Jamais farão. Pois esta é a condição sine qua non da crítica: tentar declarar a beleza (ou o horror) de uma obra, sem nunca completar tal declaração, o que não significa ausência de valor. Pelo contrário: o valor da crítica não está no corpo, mas na energia, na tentativa de alcançar a obra ao digladiar-se com ela. A crítica é aquele garoto franzino que desafia o brutamontes da escola, sabendo que vai levar uns sopapos. A beleza não está nos hematomas. Está na coragem.

E se a beleza da batalha travada entre Juliana e Starman é facilmente reconhecida por mim, este olhar de fora, é uma incógnita para ela, que esteve no olho do furacão. Eis o eterno penar no qual o crítico vive: além de entrar no ringue sabendo que não levará o combate, sai sem sequer ter certeza de que seus esforços foram dignos. Nesse sentido, há uma fina ironia: está sempre no escuro; justo ele, apaixonado pela luz das imagens.

Mas se o flagelo é tamanho, por que, então, continuar escrevendo? Ora, pois é inevitável; a crítica torna-se uma força abrupta e implacável que irrompe desse ser humano que desaprendeu a levar “desaforo” para casa. A resposta precisa ser dada; o filme merece essa extensão vital que é a crítica. E, embora não haja garantias, há sempre a possibilidade de que esse penar seja no paraíso, ou melhor, diante dele, afinal, a imprevisibilidade do belo instiga o crítico – pode estar a um play de distância ou no próximo apagar das luzes, pronto a se formar na tela, diante dos olhos. Nós, críticos, pagamos para ver.

Nós? A pergunta permanece continuamente entalada na garganta: afinal, somos críticos? Quem são essas criaturas que, não satisfeitas em meterem-se com as palavras, procuram invadir e dissecar os filmes alheios? Somos aptos a realizar a crítica?

É a questão que me assombra, incansável (tal qual os fantasmas de Corrente do mal, sobre o qual falo nesta edição). Tanto que após perpassar minha dissertação de mestrado, atingiu Pós-créditos desde sua gênese – impulsionada por um edital de fomento à cultura da Unicamp –, seguindo até aqui sem resposta. Talvez assim deva permanecer, indecifrável; para que a crise com o outro – o filme – se instaure, é preciso antes estarmos em revés interno, para que, do embate entre as crises, nasça uma visão de mundo, ponto de convergência entre a arte e a crítica. Voltemos a John Carpenter, dilema de Juliana tomado de empréstimo por este editorial: a crítica, esta arte de amar, é o enigma – o enigma de outro mundo –, que faz com que os filmes vivam. Ah, e como eles vivem!

Sem mais delongas (ou devaneios), vamos às comemorações: tentando atender as sugestões dadas pelas leitores, Álvaro André Zeini Cruz ama Corrente do mal, elucida Expect the Unexpected e tateia sobre a crise da novela Babilônia; Juliana Maués, como já dito, debate-se com Starman; Phillippe Watanabe, nostálgico, revisita Kevin Arnold em seus Anos incríveise Marcella Grecco tenta decifrar Donnie Darko. Além das sugestões, Felipe Cruz vai aos imortais Coutinho e Wes Craven ao falar sobre Últimas conversas e Pânico 4, e em colaboração especial, Liene Saddi rasga e cicatriza Björk no clipe Black Lake.

Sirvam-se de bolo, guaraná, salgadinhos e brigadeiros. Mas só após os créditos; sem barulho durante o filme!

Feliz aniversário e boa leitura.

Álvaro André Zeini Cruz

editor

Anúncios