Edição 18

Edição lançada em 22/12/2015

Editorial 18

Sejamos breves para que o peru (ou tender, ou chester) de ninguém passe do ponto. Foram, em 2015, dez edições e sessenta e oito textos, através dos quais nos digladiamos com filmes, séries, telenovelas, animes, assim como com a própria realização da crítica, problemática sempre presente entre os que aqui escrevem. Estivessem nossas relações para com o audiovisual restritas aos visionamento e às escrituras, estaria ótimo, entretanto, o equilibrismo se dá entre aulas a serem assistidas ou preparadas, livros a serem lidos, artigos aguardando a escritura, além das teses, dissertações, provas, congressos, entre tantas outras demandas que a vida acadêmica nos coloca.

Ah, a academia… Em entrevista recente, Luiz Carlos Oliveira Jr. apontou o que, para mim, é um recorrente incômodo no meio – uma certa tendência em usar o cinema como pretexto para partir aos arredores, mais até do que ir aos próprios filmes (a entrevista toda, aliás, é relevante e pode ser conferida aqui). Ex-crítico e editor da Contracampo, ele aproveita para descrever a crítica como um “tête-à-tête com os filmes”. A informalidade da expressão não poderia ser mais propícia: ao contrário da academia, a crítica parte dessa relação quase imediata, essa simbiose entre as sensibilidades do filme e de quem esteve ali, disposto a vê-lo. Quase um poema de amor (ou ódio) à primeira vista, não cabe a ela, portanto, ferramentas que podem tornar-se obstáculos (cof-ABNT-cof). A crítica não é enciclopédica – conhecimento pronto, talhado –, mas as inquietações de uma única alma embaraçadas com a alma do filme; tudo transcrito em palavras prontas a provocarem ou não outros espíritos. No fundo, o crítico é uma espécie de terapeuta-cartomante num movimento de autoanálise compartilhada – processo análogo a um relaxamento para quem está sob os rigores e engessamentos da academia.

Se o trajeto de um estudo acadêmico geralmente impõe respostas conclusivas – “é pau, é pedra, é o fim do caminho” –, a crítica é sempre o terremoto pronto a perturbar ou pôr abaixo qualquer bloco. É indispensável à academia e, por isso, ultrapassa a segunda. Oliveira Jr. sintetiza em metáfora certa tendência da academia cinematográfica: “[…]um sujeito olhando para uma tela que está a dois quilômetros dele e na qual um filme está sendo projetado, e entre ele e a tela há vários muros de pedra. E em cada muro você bota o nome de um filósofo”. Pois sugiro que voltemos à essência da crítica e que, com ela, derrubemos muro por muro. Este é meu desejo de Natal. E, claro, arroz sem passas.

Prometi não me alongar, mas, confesso, diminui a temperatura do forno. Sem mais demora, vamos a esta derradeira edição de 2015: Leandro Cesar Caraça estreia por estas bandas com um texto sobre Deu a louca no mundo; Marcella Grecco sai de férias e visita a mais psicodélica das Tóquios em sua análise de Enter the void, enquanto Phillippe Watanebe filosofa sobre o filme Ex-Machina. Envoltos no clima de comunhão das festas, comungo com Felipe Cruz, a consciência da morte – ele pela crítica sentimental sobre Divertida mente, eu pelo texto digno de “Querido diário” sobre O despertar da força. E, se no tocante à vida humana, o tempo linear caminha para a morte, há instâncias que o ultrapassam: Juliana Maués debate-se com elas ao discorrer sobre os tempos da imagem em A Assassina. Ainda em harmonia festiva, Juliana e eu compartilhamos também o fascínio pela imagem e pela luz nas respectivas análises de A visita e A sapiência. Publico ainda um discurso realizado por mim aos meus alunos e que, creio, concatena vários de meus pensamento como educador audiovisual. E, claro, como não poderia faltar, nossas tradicionais listas de melhores do ano!

Para encerrar (juro!), gostaria de agradecer imensamente aos colegas, Juliana, Marcella, Felipe, Phillippe, e a todos que, de alguma forma, colaboraram com a Pós-créditos, mas, principalmente, aos leitores que dividem conosco esse processo que, como disse, é também de autoconhecimento.

Já falei das passas, só me resta desejar, então, que a maionese venha sem maçã.

Até 2016.

 

Álvaro André Zeini Cruz

editor