Directing Actors, de Judith Weston

WESTON, Judith. Shooting. In: WESTON, Judith. Directing Actors: creating memorable performances for film and television. Studio City: Michael Wiese Productions, 2021. p. 367-380 [10° capítulo]
Tradução de Álvaro André Zeini Cruz

Gravando

“Uma vez que eles estejam na posição de largada e prontos para começar, trata-se realmente de nutrir, confiar e deixá-los se divertir. O que quero dizer é permitir que cometam erros, permitir que experimentem coisas novas.” A chave é que todos concordem que estão fazendo o mesmo filme.” — Martin Scorsese

SE VOCÊ JÁ ENSAIOU ANTES DE CHEGAR AO SET

Se você teve a oportunidade de fazer ensaios, seja por Zoom, em uma sala de ensaio dedicada a isso, no trailer ou quarto de hotel de alguém, na área de maquiagem ou em momentos roubados em um canto do set, agora você pode trazer essa abordagem orientada ao processo para o set.

Quando os atores chegam ao set, queremos apoiar seus impulsos de arriscar. Queremos manter a confiança deles de que, mesmo diante das câmeras, eles têm permissão para errar. Não queremos que eles concentrem seus esforços em preservar as performances impecáveis ​​que construíram — que comecem a “atuar com A maiúsculo”.

As filmagens devem ser como ensaios — só que melhores! Porque há uma plateia. Os atores adoram plateias — pelo menos, espero que você tenha escalado atores que amem plateias, que se animam quando a câmera está ligada.

SE VOCÊ NÃO TEVE ENSAIOS ANTES DE CHEGAR AO SET

Diretores às vezes me perguntam como podem dar instruções se não há tempo para ensaiar. A resposta é: não dá. Se você não teve tempo nenhum para se reunir, fazer brainstorming e testar ideias com os atores antes de chegar ao set, você deve confiar na sua escolha de elenco, confiar que os atores virão preparados e deixá-los fazer a primeira tomada sem direção. Quando um diretor tenta concentrar todas as suas instruções nos momentos que antecedem a cena, a melhor coisa que pode acontecer é que os atores ignorem as instruções, se comprometam com a escolha que trouxeram para o set e se entreguem ao parceiro. A pior coisa é que eles podem ficar confusos e inseguros.

Se você tiver cinco minutos para conversar com os atores antes de gritar “Ação!”, diga apenas isto: Vocês sabem o que querem na cena?” Faça essa pergunta baixinho para cada ator. Se um ator disser que sim, confie nele e siga em frente. Se um ator disser: “Tenho algumas perguntas”, reserve um tempo para ouvi-lo; Valide qualquer ideia que lhe pareça mais forte. Depois, após a primeira tomada, reúna-se com os atores — ou fale com eles individualmente — para, se necessário, oferecer orientações para desenvolver o que eles lhe apresentaram.

Mesmo que você tenha deliberadamente pulado os ensaios porque não acredita neles, espero que leia o Capítulo Nove, já que os princípios do ensaio se aplicam às filmagens. Você estará ensaiando com a câmera ligada, só isso. Quer você goste ou não, o ensaio acontece. A primeira tomada é um ensaio para a segunda. Assim como o ensaio, a filmagem é um processo. Se você der dois passos para frente e um para trás, tudo bem. Mesmo que você dê um passo para frente e dois para trás, não precisa desanimar, contanto que abrace o processo.”

DIRETRIZES PARA O SET

Como você pode se conectar com os atores e manter uma atmosfera criativa em meio a todas as pressões técnicas e financeiras das filmagens? Aqui estão algumas sugestões:

1) Diga algo a cada ator antes e depois de cada take.

Durante as filmagens, os atores estão em seu estado mais cru e vulnerável. Tudo os afeta. Deixe-os sentir sua atenção estabelecendo uma conexão antes e depois de cada take. Você pode falar com os atores juntos ou com cada um separadamente. O valor de falar com os atores separadamente é que você pode encorajar um a fazer uma escolha que entre em conflito com a escolha do outro ator. Dessa forma, os atores podem surpreender uns aos outros.

Se não houver nada importante a dizer, tudo bem. Você não precisa dar uma nova direção toda vez que se aproximar. Não há problema em reconhecê-los, com contato visual e uma palavra de incentivo — ou uma conexão não verbal, como um aceno, um sorriso ou um polegar para cima — para manter as coisas soltas, ou focadas, ou, em qualquer caso, conectadas. Para que o ator saiba que ele tem apoio. Você pode até contar uma piada ou um segredo.

2) Não há necessidade de gritar.

Não grite uma direção para os atores de trás do monitor ou do outro lado do set. Se houver barreiras para criar intimidade com os atores antes e depois dos takes — seja porque as condições de filmagem são muito apertadas, com a equipe constantemente ao alcance do ouvido de você e dos atores, ou porque as condições no set são altamente regulamentadas pelas regras de segurança da COVID-19 —, então encontre maneiras de ter tempo para se comunicar em particular com os atores. Se o problema for espaço apertado, você pode pedir à equipe: “Eu sei que não há muito espaço, mas vocês se importariam de fazer o que puderem para se afastar um pouco?”. Minha experiência é que, se você pedir educadamente, as pessoas farão o seu melhor para ajudar.

Se você não quer que outros ouçam o que diz aos atores, pode sempre sussurrar. Sussurrar em vez de gritar parece estranho ou radical? Se nosso objetivo é a intimidade, então, é claro, sussurrar será mais eficaz.

3) Segredos são importantes.

O que você deve dizer quando fala com os atores? Durante uma sessão de perguntas e respostas no Twitter, Lulu Wang, diretora de The Farewell (A Despedida), compartilhou este conselho maravilhoso: “Eu frequentemente dou um segredo aos atores sobre seus personagens (sem contar aos outros atores) e peço que pensem no que querem — e no que esperam que não aconteça.” Este é um uso brilhante de segredos e outra maneira de convidar os atores a se comprometerem com uma necessidade e um obstáculo.

Você pode deixar cada ator fazer sua própria escolha — uma escolha forte, arriscada e pessoal — e mantê-la em segredo. Segredos dão a um ator privacidade e autonomia em sua vida interior; segredos permitem que os personagens tenham livre arbítrio. Quando você pergunta: “Você sabe o que quer nesta cena?”, não há necessidade de fazê-lo lhe contar sua escolha.

4) Não peça uma “reperformance”.

Se você amou o take ou ensaio que acabou de acontecer, mas precisa fazê-lo novamente, não diga: “Faça de novo exatamente assim”. Em vez disso, diga coisas como: “Eu amei a conexão que está acontecendo aqui”; ou, “Está começando a ferver”; ou, “Está funcionando bem, vamos continuar”; ou, “Vocês estão trazendo coisas novas, está ficando mais rico”. Mantenha a atenção voltada para frente. É como o tubarão em Noivo Neurótico, Noiva Nervosa: se não seguir em frente, morre.

5) Não deixe que eles sejam ruins.

Fique atento a atores caindo na armadilha de “ler linhas” decoradas. Observe a tensão nos rostos dos atores. Cuidado com o exagero. Observe as notas falsas. Proteja a realidade momento a momento dos atores. Sidney Lumet disse que conseguia ficar ao lado da câmera, focado nos atores, e sempre que sua mente divagava, ele sabia que algo estava errado com as atuações. Ele estava tão sintonizado com a conexão; ele estava tão disposto a se render.

Quando um ator atinge uma nota falsa, você pode resolver isso. Você pode, gentilmente e em particular, perguntar como ele se sentiu sobre o take anterior; a resposta dele terá um efeito no que você dirá em seguida. Se ele disser: “Eu sei, eu sei, isso foi terrível, não foi?”, sua resposta será diferente do que se ele disser: “Achei que estava ok” — ou, “Eu me senti muito bem com isso!”.

Se você não gostar da atuação da atriz, comece sua comunicação com ela perguntando no que ela está trabalhando. Você pode ser capaz de construir em cima da ideia dela. Se a sua ideia for radicalmente diferente da dela, você pode dizer: “Na verdade, o que tenho em mente é quase o oposto”.

Se o ator não estiver conectado ao seu parceiro, pergunte a ele: “O que você quer na cena?” ou diga: “Vamos ver se conseguimos encontrar um verbo”. Ou sugira uma metáfora que crie um relacionamento: “É quase como crianças brigando por um brinquedo quebrado”.

Se houver exagero, você pode dizer (em particular, sempre): “Você tem tudo o que precisa; não precisa sublinhar ou mostrar para nós. Estou feliz com o que você está fazendo, mas tudo bem se você segurar cerca de dez camadas abaixo. Confio em você e confio que estará lá. Deixe-me fazer o trabalho. Deixe a câmera encontrar.” Ou, “Mova-se o quanto quiser — mas por dentro — mantenha cerca de dez camadas abaixo.”

6) Deixe os atores trabalharem.

Não tenha medo de manter um tom discreto sobre tudo e apenas diga: “Vamos fazer de novo”. Quando atores experientes se sentem confiados por seus diretores, eles muitas vezes podem encontrar o ajuste necessário por conta própria. Você pode dizer: “Vamos esquecer qualquer direção que eu tenha dado. Tudo o que me importa é a troca. Apenas conversem e ouçam.” Ou, “Confio em você para trazer seu entendimento particular do personagem. Não há problema em interpretar a cena de um jeito mais próximo de como você é.”

7) Use a linguagem da permissão.

“Tudo bem se você pegar aquela faca um pouco mais cedo”, em vez de “Você não pegou a faca na fala certa”. Faça com que sua direção e feedback sejam positivos. Copo meio cheio!

Considere esta ideia radical — que o compromisso com a linguagem da permissão é tão extremo quanto dizer ao ator que sua direção é opcional.

Coloque-se no lugar dos atores. Não tenha medo de elogiá-los. Se um ator estiver com dificuldades, ofereça-lhe tempo, mesmo que não haja. A tensão é inimiga do nosso trabalho. Abrace todos os problemas como obstáculos criativos. Lembre-se: é sempre um bom dia, nem que seja porque todos nós estamos fazendo um filme.

8) Seja honesto.

Os atores querem saber se não está bom o suficiente. Contanto que você esteja falando com eles em particular, você pode dizer coisas como: “Você pareceu um pouco fora”; ou, “Ainda não chegamos lá”; ou, “Está inconsistente”; ou, “Vamos tentar algo novo, não tenho certeza se essa escolha ainda está funcionando”; ou, “Ficou superficial, a vida interior está faltando”; ou, “A troca está faltando, preciso que vocês reajam um ao outro.”

Ou: “Diga-me o que posso fazer para ajudar. Você está travado? Diga-me o que está incomodando.” Ou: “Eu sei que você pode fazer melhor.” Ou: “Você está se segurando? Tudo bem correr mais riscos. Não vou deixar que usem um take que te deixe mal.” Às vezes, dizer claramente a um ator: “Não é real o suficiente” é exatamente o que é necessário. A propósito, “Não é real o suficiente” é uma direção melhor do que “Não está zangado o suficiente”.

9) Não use direção de resultado.

Se você precisar usar instruções dirigidas a um resultado, pode dizer: “Eu sei que estou pedindo um resultado”, ou, “Eu sei que isso é uma leitura de texto e você precisará traduzir isso em algo interpretável”. Instruções focadas no resultado podem funcionar, mas não de forma confiável. Não é o mesmo que fazer o trabalho.

10) Se puder, aprenda a “relatar de volta”.

Se um take foi excepcionalmente bom, geralmente é porque o ator estava tão totalmente imerso no momento que não estava monitorando sua performance nem um pouco. Então, depois, ele pode não ter ideia de como chegou lá. Se você quiser que ele faça a mesma coisa para uma cobertura, a habilidade de relatar a ele o que ele fez, mas em termos interpretáveis — por exemplo, um objetivo ou um “como se” — pode salvar o dia. Em vez de dizer: “Vamos fazer um meio-termo entre o take dois e o take quatro” — uma direção enigmática e francamente inútil —, concentre-se em aprender a discernir as escolhas dos atores. Por exemplo: “O que eu gostei no take anterior foi que você parecia estar colocando seu parceiro à vontade. Desta vez, pareceu que você queria a aprovação dele. Podemos voltar àquela intenção de colocá-lo à vontade?”

11) Garanta que os atores recebam feedback de uma única fonte.

Quaisquer observações que o roteirista, produtores, editor, diretor de fotografia, continuísta, equipe ou outros atores tenham sobre um ator devem ser ditas a você em particular. Agradeça à pessoa pela comunicação. Em seguida, assuma a responsabilidade pelo que pode ou deve ser feito a respeito. Por exemplo, se um executivo do estúdio lhe disser que um ator deveria fazer mais de X, é seu trabalho, como diretor, interpretar essa sugestão e conectá-la à sua compreensão do evento emocional do momento, ou sobre o que é a cena. Então você tem permissão — eu te dou permissão — de sussurrar para o ator, se quiser: “Adoro o que você está fazendo. Vamos fazer mais um take. Você pode continuar nessa mesma direção — ou mudar — qualquer impulso que tiver.” Uma comunicação de validação total e permissão total tem, na verdade, mais probabilidade de produzir o que o executivo quer do que tentar microgerenciar o ator com uma diretiva literal.

Certifique-se de que é você quem diz “Corta”. Explique aos atores que, mesmo que cometam um erro, você quer que eles continuem até que você corte a cena. Não deixe que o diretor de fotografia ou a equipe corte a cena. Às vezes, algo maravilhoso acontece depois de um erro — os atores podem ser jogados no momento de uma forma que ninguém esperava, mas que acaba sendo ouro. Se você estiver filmando digitalmente, não há razão para parar uma cena por causa de um “erro” do ator. Se você estiver filmando em película e não puder continuar takes que tiveram problemas técnicos, combine um sinal com a equipe de câmera para que eles possam avisar discretamente, e então você decide se diz “Corta” ou não.

12) Combine um sinal com seu diretor de fotografia com antecedência.

Um diretor de fotografia que trabalhou com muitos diretores estreantes uma vez me disse que sempre chama a diretora de lado antes das filmagens para combinar um sinal. Se a diretora precisasse de tempo extra com os atores, ela poderia dar este sinal ao diretor de fotografia, que então anunciaria que precisava de mais tempo para ajustar a iluminação. É meio patético, mas infelizmente verdade, que enquanto todos aceitam a necessidade de tempo para ajustar a luz, produtores e equipe ficam impacientes se informados de que é necessário tempo para apoiar os atores.

13) Imediatamente antes da câmera rodar…

Quando você disser “Ação”, tente não ter um subtexto inconsciente de “Preparar, apontar… JÁ!”. Este subtexto não intencional de “tiro de largada” pode dar aos atores a sensação de que “agora é hora de começar a atuar”, o que pode criar uma tensão sutil que não ajuda no trabalho honesto momento a momento. Diga “Ação” com um senso de permitir, deixar ir, permissão e conexão — mais como uma expiração, uma saída de ar, do que uma inspiração.

Uma cena deve sempre acontecer no meio de algo. Esteja atento a um ator se “preparando” para começar uma cena; pode ser tão simples de perceber quanto um ator dando uma inspirada deliberada ao ouvir “Ação”. Precisa haver algo acontecendo antes de a cena começar: uma consciência da vida física da cena; uma liberdade relaxada e presença em seu próprio corpo; e uma conexão com os outros atores.

Antes de um close-up, você pode dizer a um ator individualmente, como uma forma de centralizá-lo na experiência sensorial humana: “Conte-me sobre o quarto da sua infância.” Mesmo que o quarto de infância do personagem não tenha nada a ver com a cena, não há nada como a imagem do seu quarto de infância para centralizar um ator em uma realidade sensorial.

Ajuda pedir aos atores que improvisem o momento anterior ou falem em voz alta o subtexto de suas intenções (por exemplo, um ator dizendo: “Estou aqui só para ajudar” e o outro dizendo: “Até parece”, alternadamente). Mesmo que os atores apenas digam “olá” um para o outro antes de a câmera rolar, isso ajuda a fazer a cena parecer pessoas conversando, em vez de atores dizendo falas. A diretora Jane Campion incentiva os atores a dizerem em voz alta o que quer que estejam pensando antes de cada cena começar.

Não consigo enfatizar o suficiente o quanto um exercício pré-cena o quanto esse funcionará melhor se você o tiver praticado em ensaios fora do set. Convido seriamente você a praticar ensaios fora do set até ser capaz de torná-lo útil em uma situação profissional.

14) Fique ao lado da câmera.

Seja a testemunha deles, não seu juiz.

Sou criticado por aconselhar diretores a ficarem ao lado da câmera em vez de ao lado do monitor, mas estou falando sério sobre tornar isso uma prioridade. Não se trata de usar ou não o vídeo assist — não tenho nada contra um diretor usar um monitor portátil. Minha preocupação é a intimidade. Quando o diretor está longe, na Vila do Vídeo, sua ausência é sentida no set. A Vila do Vídeo é onde os produtores se instalam para acompanhar as filmagens. Sem desrespeito aos produtores — Deus os abençoe, um bom produtor vale ouro —, mas são os atores e técnicos que estão realmente fazendo o filme. Por que o diretor iria querer ficar com os produtores na Vila do Vídeo ao invés de na companhia das pessoas que estão fazendo o filme?

Ficar ao lado da câmera pode até economizar tempo. Um dos produtores de Preciosa me disse que o diretor Lee Daniels gostava de ficar ao lado da câmera, perto dos atores, enquanto a câmera estava rodando. Quando ele fazia isso, os atores completavam o plano em um ou dois takes. E veja só — quando Daniels se afastava da câmera e assistia ao plano da Vila do Vídeo, completar o plano exigia muito mais takes. A presença dele ao lado da câmera fazia os atores se sentirem seguros e conectados — e isso tornava o trabalho deles mais livre, mais conectado. Quanto mais livres e conectados se sentiam, mais rápido conseguiam alcançar a verdade da cena.

Alguns diretores me disseram que temem que sua presença ao lado da câmera deixe os atores nervosos. Lendo várias entrevistas de Lee Daniels sobre as filmagens de Preciosa, fica claro para mim que este diretor já havia comunicado aos atores seu profundo investimento emocional na história e sua crença de que todos eram colaboradores na contação daquela história. Essa é a razão crucial pela qual sua presença ao lado da câmera os relaxava, ao invés de deixá-los nervosos. Eles iam livremente para áreas emocionais escuras e difíceis, tendo-o como testemunha e guardião.

15) Mantenha-se leve. Dê aos atores permissão para falhar.

Por exemplo: “Este não será o último take. Com certeza farei outro, não importa como este seja.” Ou, “Pode ser que não funcione, mas sinto que vale a pena tentar.” A liberdade para falhar pode ser a ferramenta mais poderosa do diretor.

Mantenha sua atenção voltada para frente. Mantenha-se positivo. Se houver um problema, empolgue-se em encontrar a solução, mesmo enquanto os minutos e o dinheiro estão correndo. Manter a calma sob pressão alimenta seus recursos de intelecto e imaginação. Se precisar, encontre um canto tranquilo para ficar sozinho por cinco minutos. Se você relaxar os olhos e o cérebro, uma nova ideia virá, eu prometo.

Quando um ator estraga um take porque errou as falas, diga a ele que você não se importa se as falas estão certas — mesmo que se importe. Quando a exatidão é necessária — como se o ator interpreta um físico ou um ministro da Suprema Corte — e a atriz está com dificuldade para dominar a terminologia arcana, você pode se aproximar dela e sussurrar algo como: “Esse diálogo é um saco e eu sei que você trabalhou duro. Não estou preocupado. Temos todo o tempo do mundo.” Eu já vi essa tática funcionar como um encanto.

Ok, e se você suspeitar que o ator não trabalhou duro nas falas? Você pode perguntar calmamente: “Você precisa de um tempo para revisar as falas? Podemos fazer uma pausa e posso encontrar alguém para repeti-las com você.” Então encontre alguém para ajudá-lo, geralmente o continuísta. Mesmo que você suspeite que o ator foi preguiçoso, deve sempre tratá-lo como um profissional e encontrar uma solução profissional.

Se você não conseguiu o que queria de um ator após muitos takes, pode tentar dizer: “Sabe, eu posso montar esta cena na edição. Já tenho o suficiente para fazê-la funcionar. Não estou preocupado. Mas vamos fazê-la de novo mesmo assim. Vamos fazer diferente. Não me importo como, apenas algo diferente.” Liberar a pressão de fazer certo pode fazer maravilhas.

Você pode até dizer: “Desta vez, vamos fazer errado.” Lulu Wang, em um Twitter Q&A, foi perguntada sobre o que fazer “se um ator ainda não está te dando o que você quer/precisa, take após take…”. Ela declarou: “Peço para eles quebrarem a cena — em outras palavras, fazê-la MAL. Me deem toda a sua atuação ruim, a pior versão da cena, todas as coisas que eles temem: cafona, melodramática, etc. Às vezes, fazer a coisa que você mais teme te liberta.”

A terminologia “mais um take por segurança” não é particularmente útil para os atores. Se você quiser mais um por segurança, considere o conselho do diretor Robert Townsend. Quando ele já tem o plano e quer ver onde mais o ator pode chegar, ele pede “mais um por amor” — e afirma que acaba usando esse “take do amor” 99% das vezes!

16) Faça com que pareça a vida real, só que melhor.

No set de Os Bons Companheiros, Scorsese trouxe sua mãe para cozinhar para as cenas de jantar, para que os atores pudessem sentir que estavam comendo um jantar italiano de verdade. Illeana Douglas disse que Scorsese criou um ambiente no set “onde você literalmente não sabia a diferença entre quando a câmera estava ligada e quando estava desligada — um ambiente onde ninguém se sentia envergonhado ou como se tivesse feito algo errado”.

17) Aprenda a equalizar as energias.

Preste atenção ao nível de energia de um ator. Se você sentir que a energia de uma atriz está baixa, permita que sua energia fique um pouco mais alta que a dela; dessa forma, ela conseguirá ouvi-lo; como bônus, você poderá, aos poucos, atrair a energia dela para cima. Se a energia dela estiver anormalmente alta, permita que a sua fique um pouco mais baixa que a dela; isso pode acalmá-la.

18) Não absorva a negatividade. Não leve nada para o lado pessoal.

Se os atores ficarem chateados com qualquer coisa — um problema técnico, questões com um colega de elenco, ou até mesmo uma discordância com sua direção —, não leve para o lado pessoal. Resolva o problema se puder e, se não puder, ouça mesmo assim. Às vezes, tudo o que o ator precisa é colocar algo para fora. Certifique-se de que ele desabafe com você em particular — sem ser ouvido por outros.

19) Marcas, correspondência (matching) e sobreposição (overlapping).

A prioridade do diretor deve ser fazer a cena ir a algum lugar, levar o público a algum lugar, criar esse brilho que dá a sensação de algo estar acontecendo. A prioridade do ator é ser real no momento. A pior coisa que pode acontecer à atuação de um ator é ele comprar uma forma fixa de dizer suas falas. Atores que se mantêm vivos e dinâmicos em cada take e parecem não mudar a atuação estão, na verdade, tornando-se cada vez mais livres, movendo-se, a cada take, um pouco mais fundo no significado do roteiro e em seus próprios recursos. Lembre-se de que a palavra “emoção” tem como raiz a palavra “movimento”.

Quando os atores priorizam as considerações técnicas de correspondência de planos (matching shots) e acerto de marcações (hitting marks), as atuações podem se tornar superficiais e técnicas. Eu acho que é possível para diretores e técnicos abordarem a questão de acertar marcações, corresponder atuações e sobrepor falas com soluções criativas em vez da sabedoria convencional. Ao se encontrar com seu diretor de fotografia, continuísta, editor e técnico de som, inclua essas questões em suas discussões. Por exemplo, se você tem abordado as cenas com os atores em termos de objetivos e “espinhas dorsais” possíveis, a correspondência não será um problema tão grande quanto você pode temer. E se você teve a conversa com seu editor e técnico de som sobre sobreposição que recomendei no Capítulo Nove, você se sentirá confiante para permitir que os atores “cortem” as falas (pick up cues).

20) Dirija o ator que está fora de cena.

A melhor maneira de tirar um ator de uma escolha que não está funcionando pode ser dar uma direção ao outro ator, àquele que está fora de cena. Se você quer que o ator em cena fique mais zangado, pode pedir ao ator fora de cena que inicie a briga. A razão pela qual isso funciona é que a cena é sobre o relacionamento.

21) Saiba quando avançar.

Nos tempos do filme em película, costumava-se chamar isso de saber quando gritar “Imprime!” (Print!). Um continuísta pode chamar isso de “circular” um take. Às vezes, um ator pode ajudá-lo a decidir se um take é bom o suficiente para avançar, deixando você saber se ele “parece” sólido. Mas você não deve contar com o ator para monitorar sua própria atuação — esse é o trabalho do diretor. Um ator não deve ficar assistindo, verificando e controlando sua performance. Eis o porquê: às vezes, um ator dá uma performance maravilhosa, natural e sem defesas, e pensa, incorretamente, que o take foi ruim. Você se surpreenderia com a frequência com que um ator diz “Eu não senti nada” e esse é o melhor take do dia. Quando a performance tem simplicidade e verdade, para o ator, pode não parecer nada.

Um diretor pode cometer erros sobre se uma cena está tão boa quanto possível e se é hora de avançar, mas se você estiver filmando digitalmente e tiver guardado tudo, não se culpe. Isso só significa que você ainda está aprendendo — e uma condição de “aberto para aprender” é o melhor lugar para se estar. Todos os artistas permanecem abertos para aprender ao longo de suas vidas.

22) Concentre-se. Importe-se. Faça o que precisa ser feito.

Durante as filmagens de Olhos que Condenam (When They See Us), a angustiante história real dos cinco jovens que foram falsamente presos pelo ataque à corredora do Central Park em 1989, os produtores e a diretora Ava DuVernay sabiam que as emoções provavelmente estariam à flor da pele no set — a produção era uma recriação não apenas dos eventos subsequentes ao caso de 89, mas das experiências diárias de muitos, muitos afro-americanos. Então, eles contrataram um conselheiro de luto para ficar no set, disponível para todos. Nem todos os atores recorreram ao conselheiro em busca de apoio — mas o importante é que foi oferecido. Esse nível de comprometimento é importante.

Quer tenha havido ensaio formal ou não, faça um esforço no set para encontrar tempo com os atores que não seja focado em gentilezas sociais ou na logística da filmagem — mas que seja, em vez disso, um tempo mágico, um tempo de qualidade, um círculo de concentração que não pode ser distraído por problemas técnicos ou medo de perder a luz. Não há uma única maneira de fazer isso. Alguns diretores são brincalhões e charmosos; alguns são acolhedores; alguns são quase militares em sua concentração e autoridade. Alguns são discretos; alguns são bobos; alguns são profissionais; alguns são magnéticos. Alguns lideram a carga com sua paixão pelo projeto. Alguns irradiam uma consciência profundamente intuitiva, até espiritual. Você é você.

23) Esteja preparado para que os atores se interessem mais uns pelos outros do que por você.

Atores sempre dependeram dos roteiristas para lhes dar um bom roteiro, dos diretores de fotografia para iluminá-los e enquadrá-los corretamente, dos editores para descartar seus takes menos brilhantes — e dos diretores para conduzir a lógica emocional e o alcance visual da história. Mas a dependência central dos atores é uns nos outros. A entrega dos atores uns aos outros é o seu lugar seguro, o seu lugar criativo. Não leve para o lado pessoal se os atores esquecerem que você está ali porque estão tão envolvidos uns com os outros. Tudo o que isso significa é que a história está ganhando vida própria.

24) Faça do seu set um lugar seguro.

Faça de todos no set seus colaboradores na manutenção da segurança. Insista para que a produção seja uma zona livre de fofocas. Siga todos os protocolos de segurança com boa vontade — mas não permita que as restrições de segurança atrapalhem a conexão. Faça deste o seu mantra: Estou comprometido com a segurança e igualmente comprometido com a conexão — e preciso da sua ajuda.

25) Seja inventivo — em cada etapa do processo.

Se um diretor está seguindo suas anotações mecanicamente porque está exausto e estressado demais para tomar decisões e ter novas ideias no momento; se ele está respondendo perguntas só para ter algo a dizer, sem uma ideia em que realmente acredite; se ele está focado em usar o jargão certo e não cometer erros — posso quase garantir que o filme desse diretor não sairá como ele esperava.

Mesmo que você seja muito hábil em trabalhar com atores, ainda haverá momentos em que cometerá erros e dirá a coisa errada. Seja você mesmo. Corra riscos. O ensaio não é inútil, mesmo que você não use nada do que surgiu dele. A preparação não é perda de tempo, mesmo que você acabe seguindo por um novo caminho. O processo inteiro, da pré-produção à edição, é uma revisão e reimaginação da história, até que ela finalmente se revele para você.

Mantenha-se aberto. Você poderá ver coisas incríveis.