Crônica de quem fez cinema: uma autoficção quase real

por Álvaro André Zeini Cruz

Uma chuva torrencial caía; o carro estava na outra ponta do estacionamento. Quando era criança, eu ouvia aquela música “tu vens, tu vens, eu já escuto os teus sinais” e entendia “nuvens, nuvens, eu já escuto os teus sinais”. Na minha cabeça era uma música sobre chuva; anos depois, levei esse equívoco para um roteiro do Cocoricó, mas, naquela tarde (muitos outros anos depois), não ouvi os sinais de dentro do consultório médico. O jeito era dar a boa e velha corridinha, aquela que nos ilude de que escaparemos dos pingos como se estivéssemos no filme Matrix. Claro que as gotas me capturaram pelo caminho; aliás, esse é, de fato, o único incômodo da calvície — a agressão climática ao couro cabeludo, faça chuva ou faça sol.

Tac, tac, tac. A porta não abre. A maçaneta está com problema; Mariana já havia me alertado diversas vezes. Tendo em vista que meu GPS marca a rota para a oficina como caminho recorrente (sincronizado à fatura do meu cartão), usei a tática de ignorar o aviso para ver se a coisa se consertava sozinha. Óbvio que, naquele dia, a porta do HB20 olhou para as nuvens, diagnosticou a cumulonimbus sobre as nossas cabeças e disse — é hoje! 

Eu poderia ter seguido inspirado em Matrix, dando uma cambalhota sobre o capô e me atirando habilidosamente para dentro do carro pela porta do passageiro, mas a habilidade não me é de nascença e eu já estava ensopado. Ou seja, me arrastei pelo carro parecendo a Xixa, a minhoca de SuperXuxa contra o Baixo-Astral. No caso, o Baixo-Astral estava por cima: havia deixado os esgotos, feito uma aliança com São Pedro e com a porta do motorista para que tudo me sacaneasse. Não bastasse, era preciso tomar cuidado para não bater a porta na BMW ao lado, já que o consultório dividia estacionamento com uma academia de bacana, que, por sua vez, estacionavam ao lado de quem parcela a consulta em duas.

“Eu vou te dar a receita do equivalente que é um pouquinho mais em conta e eu sei que isso é importante”, disse a médica, que era boa mesmo de diagnóstico. Mal sabia ela que, instantes depois, lá estava eu, com a dignidade encharcada, me esticando para abrir, por uma porta, a outra. Quando consegui me colocar atrás do volante, já havia uma claridade diferente, aquela da chuva que ensaia para dar lugar ao sol. Mal sabia eu que, instantes depois, minha camiseta estaria empapada não só de chuva, mas também de suor.

Era óbvio que o sol sairia com aquela característica de pós-chuva de meio de verão — ardido e ardiloso, brilhando como se dissesse “eu vou transformar sua vida num inferno”. O lado positivo é que o sol é como Deus, ocupado o bastante para não se dirigir a cada um de nós. Se estivesse com 12 aulas por semana, certamente me diria — “eu vou tostar sua careca”. Mas ele estava ali, em comunhão com a chuva: ela, me lembrando a maçaneta emperrada, que só funcionava quando bem entendia; ele, o sol, me soprando o ar-condicionado flatulento, que, talvez pela décima vez, despejou todo o gás sabe-se lá onde, para simplesmente poder bafejar na minha cara — eu não vou funcionar.

Poucas ocasiões são tão propícias para se pensar na vida quanto estar numa sauna acidental, junto a um bronzeamento não-intencional, no trânsito das quatro da tarde. Eu sentia cada gota brotar ao redor do pescoço e escorrer pelas costas, pelo peito, pela barriga, cada uma delas carregando uma memória, privilegiando, sei lá porquê, as dos tempos de especialização, mestrado e doutorado. Porque, tal qual acreditei que desviaria da chuva como em Matrix, em algum momento, achei que, se estudasse bastante, viver do que escolhi fazer não seria tão difícil. Persisti no erro original. Não uma, não duas, mas três vezes! Talvez a culpa seja do Forrest Gump, que assisti demais antes de chegar ao texto do Ismail Xavier desmascarando aquela balela toda. Ou daquela bobagem de brincar de escrever novela na infância. Tarde demais. Ali, às quatro da tarde e quase aos quarenta, enquanto devolvia a água da chuva ao ambiente, enfiado entre o ar-condicionado e a maçaneta quebrados, lembrando do que li, anotei e assisti, comecei a pensar no que fazer sobre tudo isso. Preciso escrever sobre, pensei.

Quando tudo o que você consegue pensar é “preciso escrever sobre”, esquece, você está mesmo fodido. Porque tudo indica que só o que você sabe fazer mesmo é escrever, e Saramago estava certo naquela história dos Tweets — a escrita já não serve para grande coisa. O que eu mais ouço por aí é “seu conteúdo é ótimo, você deveria fazê-lo em vídeos de até trinta segundos”. Até os mortos ganham um minuto de silêncio e, nós, os vivos, vamos reduzindo as coisas a trinta segundos. Fato é que o sol estava mesmo brabo, e a escrita ia escapando assim, transpirando, ainda não fosse formalmente registrada (o que demoraria meses para acontecer). Como suor.

Eu não sabia que, naquele dia ainda, eu levaria um cuspe de tinta da impressora — esse eletrônico demoníaco que insiste em assombrar as casas dos professores —, nem que, sem perceber, daria as aulas da noite com a camiseta azul-marinho manchada de preto. Sorte dar preferência às roupas escuras, que camuflam melhor o… vocês sabem. Sim, o suor. Quando entrei no elevador, parecia fugido de algum capítulo de Renascer, novela que foi meu objeto de estudo e que, segundo o diretor, tinha um sol não que perfumava, mas que ardia. Pelo espelho, notei um empapado peculiar, uma fenda feita como se o cinto de segurança tivesse sido tatuado na camiseta, marcando também esse uso singular do adjetivo, já que defendo a proibição de qualquer variação de “tatuagem” como figura de linguagem. Cafona, é o que penso agora, enquanto escrevo (levando a cafonice a cabo). Não foi o que pensei no elevador, diante da transpiração estampada como um corte largo, de fora a fora. Naquele momento, só o que pensei foi:

— Fazer cinema. O que é que você tinha na cabeça?!

Quando o elevador abriu e senti a lufada fresca do corredor, veio a resignação:

— Mas, também, ia fazer o que?

Ah, sim, este texto foi escrito no dobro do tempo que levaria em circunstâncias habituais, mas, tal como a maçaneta e o ar-condicionado, a tecla de espaço do meu computador anda, digamos, temperamental. (Melhor evitar a palavra com “q”; vai que atrai).